Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às segundas no LUX24.

Acabou-se o Estado de Emergência! Chegou o Estado de Calamidade Pública. Pelos vistos este último é melhor, há mais direitos e faz parte do longo caminho de regresso à normalidade. Mas, caros Senhores Que Inventam Nomes de Estados, peço desculpa mas tenho a dizer que não fizeram um bom trabalho.

Emergência parece algo urgente, para ser resolvido antes que fique pior. Já Calamidade Pública parece significar que batemos mesmo no fundo e que já nada se salva.

Vamos usar um exemplo prático para explicar esta ideia: Quando uma pessoa está apertada para ir à casa de banho, estamos a falar de uma emergência. Quando durante essa emergência essa pessoa chega à casa de banho mas esta está ocupada e não há mais tempo para conter os fluídos corporais, isso já é uma Calamidade.

Uma calamidade pública, mas também uma calamidade pública se for num local com muita gente numa altura sem isolamento social. Uma calamidade porque nada vai ficar como dantes, é que na melhor das hipóteses essa pessoa vai andar à caçador e com a pernas assadas o resto do dia.

Escrito assim, isto até pode ter piada, mas os nomes podem realmente influenciar a maneira como encaramos a situação atual. Veja-se o caso da CGTP: Os sindicalistas viram que o Estado de Emergência estava quase a dar lugar ao Estado de Calamidade Pública e, pensando que o pior estava para vir, decidiram fazer à pressa uma manifestação antes que a mudança ocorresse. Se os nomes fossem bem definidos, por certo os sindicalistas teriam mais calma e fariam as manifestações pelo Zoom.

Outra coisa que poderá ter confundido estas pessoas é a palavra quarentena, que vem dos tempos da Peste Negra quando os marinheiros tinham que esperar 40 dias até desembarcarem.

Como os 40 dias já tinham passado, muitas pessoas saíram dos seus barcos de betão e saltaram para o Porto das Manifestações. Pelo menos em inglês diz-se lockdown e assim ninguém sai de casa antes do tempo porque está tudo “fechado lá em baixo”, talvez numa cave escura.

Muitas das pessoas que foram para casa e não puderam trabalhar remotamente ficaram em lay-off, isto em Portugal, porque em Inglaterra usa-se a palavra furlough. Acho espetacular usar-se um anglicismo num conceito que tem um nome diferente na Língua Inglesa.

A Covid 19 pode não ter posto a descoberto falhas estruturais no Serviço Nacional de Saúde, mas mostrou ao mundo como os Portugueses não conseguem dar nomes convenientes às coisas.

Será este o futuro que queremos dar às nossas crianças? É preciso fazer uma revisão de todo o nosso dicionário antes que aconteça alguma calamidade.

Publicidade
Falhas, erros, imprecisões ou sugestões?
Por favor fale connosco.
Publicidade

Todas as notícias e conteúdos no LUX24 são e continuarão a ser disponibilizadas gratuitamente, mas nunca como agora precisamos da sua ajuda para continuar a prestar o nosso serviço público.

Somos uma asbl – associação sem fins lucrativos – e não temos qualquer apoio estatal ou institucional, apesar do serviço público que diariamente fazemos em prol da comunidade portuguesa e lusófona residente no Luxemburgo, e já sentimos o efeito da redução da publicidade, que nos garante a manutenção do nosso jornal online.

A imprensa livre não existe nem sobrevive, sem o suporte activo dos seus leitores – sobretudo em épocas como esta, quando as receitas de publicidade se reduziram abruptamente, e nós continuamos a trabalhar a 100%.

Só lhe pedimos que esteja connosco nesta hora e nos possa ajudar com o seu donativo, seja ele de que valor for. Prometemos que continuaremos a ser a sua companhia de todas as horas.

Pode fazer o seu donativo por transferência bancária para a conta do LUX24:
IBAN: LU790250045896982000
Código BIC: BMECLULL

LUX24 asbl
#VaiFicarTudoBem

Publicidade