Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente às quartas no LUX24.

Uma das coisas que mais me espanta nos caso de corrupção é a sensação que fica de que esta gente que comete falsificações, refinadas fraudes, que foge despudoradamente às suas obrigações fiscais, amontoando fortunas em paraísos fiscais, é que parecem viver num mundo paralelo, sem qualquer noção de quanto a vida é efémera e de quanto pode ser surpreendente, pelos piores motivos.

Alguém pode jurar o que vai fazer amanhã ou como estará o Mundo na próxima semana? Até os meteorologistas se equivocam apesar da alta tecnologia que têm ao seu dispor! A nossa vida é um emaranhado de dúvidas, de incertezas, um labirinto onde facilmente nos perderíamos se não fosse a luz do Amor a desbravar as suas trevas.

Não temos certeza absoluta de nada, excepto de um facto, igual para todos, sem escolha de etnia ou condição social: a finitude do sopro da vida, mais cedo ou mais tarde. Sendo esta uma certeza por que nunca estamos decididamente preparados?! Um mistério.

Sabemos que chegará a nossa vez, incontornavelmente, mas sentimos sempre um grande vazio quando um querido nos parte. Tenha 100 anos ou 100 horas de existência, é sempre imensamente doloroso o sentido de perda.

Na última sexta-feira cumpriram-se sete anos sobre o funeral de minha mãe, falecida aos oitenta e quatro anos. Pois nesse mesmo dia desaparecia do nosso convívio o nosso Diogo, meu afilhado de empréstimo, (sou madrinha do irmão), filho de uma amiguinha muito querida, que amo como se fosse família de sangue. O Diogo tinha dezasseis anos, a escassos dias de fazer dezassete. Era um miúdo incrível, com um humor todo especial e uma inteligência viva e perspicaz.

Ninguém lhe fazia o ninho atrás da orelha, nem na doença. Teve a noção de que o seu caso era muito complicado e falou de últimas vontades, com um maturidade que se não coaduna com a sua juventude. Aconselhou, recomendou. Que se não guardassem mágoas contra ninguém, nem contra os que se mantiveram, sabe-se lá porquê, a leste da situação, grave desde o primeiro momento.

Nunca desistiu de lutar, acreditou, sonhou que voltaria a correr para o mar, de fato de surf, abraçando a querida prancha, sua “namorada” fiel. Já próximo do fim, o Diogo disse que queria ser um tritão, aquele Deus mitológico dos mares, filho de Posídon e Anfitrite, normalmente representado com um corpo e rosto masculinos e uma cauda de peixe, uma imagem bem semelhante à do menino Dioguinho quando surfava com alegria e exaltação as ondas do oceano.

Cria o Diogo que o mar o curaria da sua enfermidade e até certo ponto assim foi: as memórias do mar sempre aqueceram o seu coraçãozinho de criança. Este menino deixou-nos mas apenas fisicamente mas a ideia é muito difícil de aceitar. Sabemos que continuará aqui, espiando as ondas, ouvindo o vento, procurando saber se o tempo está de maré.

Neste momento, surfará as ondas do céu imenso, exibindo o seu maravilhoso sorriso maroto e congeminando traquinices. A ausência é terrível, a distância incomensurável. Mas as recordações, as fotos, as suas piadas sempre a tempo continuam nos nossos olhos, nos nossos ouvidos, no nosso sentir afectuoso.

Apesar destes sentimentos e destas seguranças, vemos, vejo, a partida precoce do Dioguinho como uma injustiça, nunca como um castigo. Uma injustiça tremenda, uma partida de mau gosto que a Vida nos pregou, chicoteando de forma mais brutal o núcleo familiar mais próximo.

Mas o Diogo queria que ficassem bem, esse esforço terá de ser feito em seu respeito, em sua memória. Nos corações celebraremos o teu 17º aniversário. Sem bolo nem risadas e brincadeiras mas com o amor e o carinho de sempre porque tu mereces. Descansa em paz, meu menino de oiro. Estou a ver-te a piscar os olhitos matreiros, estou a ver-te.

Esta é a minha homenagem a esta criança invulgar, tão especial. Para vós, votos de boa semana, com saúde e harmonia e que nenhum passe por transes assim devastadores.

Um abraço. SQ

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