Paulo de Morais, Presidente da Frente Cívica, escreve mensalmente no LUX24

A política nacional foi capturada pela corrupção. O fenómeno assume em Portugal características únicas e dramáticas. A corrupção é, em primeiro lugar, ostensiva, agressiva, desenvolve-se à vista de todos. Além disso, é muito cara. E é, além do mais, sistémica, confunde-se com o próprio regime. Os seus efeitos perversos irão sentir-se por décadas.

Os casos de corrupção vêm-se repetindo de forma bem visível: corrupção na Expo 98, no Euro 2004, na compra de submarinos aos alemães, no BPN, nas parcerias público-privadas (PPP) e nos “swaps”, no BES, no Banif e na Caixa Geral de Depósitos… tudo às claras! A corrupção esmaga-nos. Com a força que ostenta, impõe silêncio e medo.

E é, ademais, cara, muito cara: só o escândalo do BPN terá depauperado os cofres públicos em sete mil milhões, montante que daria para pagar os salários da função pública quase um ano. Nas PPP rodoviárias, em cada ano são pagos mil e duzentos milhões a mais! Na Caixa Geral, enterraram-se cerca de cinco mil milhões, mais do que se gasta na maioria dos Ministérios anualmente. Os custos acumulados de todos estes casos representarão mais de 30 por cento da dívida pública actual!

Mas a pior das características da corrupção é que ela é sistémica, desenvolve-se no seio da própria política. No caso das PPP rodoviárias, como noutros, os políticos que em sucessivos governos lançaram os negócios foram mais tarde colaborar com as empresas que tinham beneficiado.

Os ex-ministros das Obras Públicas foram trabalhar nas concessionárias privadas: Ferreira do Amaral preside à Lusoponte, Jorge Coelho administra a Mota Engil. Onde está também Valente de Oliveira. Entre a Política e os Negócios, a relação vai para além da promiscuidade, os políticos e os administradores não estão apenas próximos, são muitas vezes os mesmos.

Nos grandes grupos económicos, os exemplos sucedem-se. A Galp tem nos seus órgãos sociais o socialista Costa Pina, o social-democrata Luís Todo-Bom e o centrista Mesquita Nunes. Na EDP é Luís Amado, chairman, o elo de ligação com o PS; cabe a Catroga a ligação ao PSD e a centrista de serviço é Celeste Cardona. E longa seria a lista de traficantes de influências, que garantem que o sistema de transferência de riqueza dos contribuintes para os grandes grupos se manterá nos próximos tempos.

Com estas características, a corrupção compromete o nosso futuro e até o futuro dos nossos filhos e netos.

Pois o Estado vem celebrando negócios ruinosos com prazos de décadas: muitas das PPP prolongam-se por 40 anos; há contratos de concessão e gestão de água que garantem rendas à Mota Engil, em Gaia, por 25 anos; ou até à DST, em Braga, por 50 anos! A corrupção actual manter-se-á, garantidamente, ao longo de gerações e os seus efeitos far-se-ão sentir em algumas mais.

A corrupção sofisticou-se e robusteceu-se. Prepara-se para dar o golpe de misericórdia na nossa débil democracia.

 

Publicidade
Falhas, erros, imprecisões, sugestões?
Por favor fale connosco.
Publicidade