Carta aberta aos senhores orçamentistas,

Serve a presente missiva para reconhecer a complexidade do vosso trabalho. Não presumam encontrar aqui nenhuma ironia – não a há. Eu não seria de todo capaz. E, como eu, imagino que o não seriam a esmagadora maioria dos comentadores de bancada das redes sociais, como, aliás, eu própria, aqui.

Para provar essa complexidade aos mais cépticos, e talvez até aos senhores, fragilizados pelas constantes críticas e enxovalhos, ainda que não directos, porque ninguém sabe quem são os técnicos mas tão somente os políticos, que se limitam, a bem da verdade, às directrizes, e não à sua concretização, permito-me aqui deixar apenas um exemplo que me ocorre desta complexidade extrema presente num orçamento do Estado e, em particular, neste que se avizinha: o da prestação social robusta.

Sim, sim e sim.

Cidadãos a viver abaixo do chamado limiar da pobreza não beneficiam ninguém. Os próprios sofrem, naturalmente, mas toda a sociedade é prejudicada. Aumenta a criminalidade, a violência, a perturbação social. É assim.

Mas uma prestação social tão robusta que se aproxime do valor de um salário mínimo que é, no nosso país, escandalosamente semelhante ao salário médio ou, pelo menos, ao salário moda (o mais praticado) também não é bom.

Talvez se Portugal fosse um país protestante, onde predomina uma moral de autovigilância, pudesse correr bem, mas, mesmo assim, duvido. Será lícito exigir à Maria, que vive sozinha com a filha de 4 anos, que procure um trabalho, duro, onde se calhar até é destratada diariamente, pelos patrões ou pelos clientes, perde três horas em transportes públicos que lhe custam, vá, 40€ mensais, tem de pagar cerca de 100€ para ter a filha 10 horas por dia num infantário ou pedir à irmã ou à mãe, com quem nem se dá muito bem, que a vão buscar mais cedo… tudo para levar para casa, líquidos, mais uns 100€ do que se optar pelos apoios sociais? Ou até perder dinheiro? Pode parecer exagero mas acontece.

Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve semanalmente às quintas no LUX24.

Não acredita? Aconteceu-me: ter de escolher entre aceitar um trabalho a ganhar menos ou continuar a receber o subsídio de desemprego. Optei pelo trabalho, correu mal e voltei ao subsídio, pois havia essa hipótese.

Mas nem sempre é possível fazer esta ponderação porque muitas vezes o valor líquido não chega para fazer face às despesas, sobretudo quando falamos das áreas urbanas de Lisboa e Porto, onde transportes e habitação ‘roubam’ uma fatia gritante dos rendimentos, do trabalho ou assistenciais, da população.

Pois é, a prestação robusta só funciona se for acompanhada por trabalho pago com salários robustos que só funcionam se forem precedidos por trabalhadores empenhados que só aparecem se forem contratados por patrões civilizados e justos, que… e por aí fora.

Senhores orçamentistas, entre estes equilíbrios, o Novo Banco que nem começo a compreender e a crise que por aí vem… tiro-vos o chapéu e desejo-vos e nos… boa sorte.

Vamos precisar.

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