Rui Curado Silva, investigador em Física, escreve semanalmente às segundas no LUX24.

Durante a 25.ª Conferência das Partes (COP25) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climática, a decorrer desde hoje em Madrid, vão ser debatidas e eventualmente aprovadas medidas que influenciarão o nosso modo de vida na próxima década.

A ciência sobre as alterações climáticas é hoje muito sólida sobre os processos físicos e sobre a química que explicam o aquecimento global. Conhecemos em profundidade as variações de temperatura e de dióxido de carbono da Terra desde há mais de 400 mil anos atrás. Conhecemos em detalhe os ciclos naturais que explicam essas variações de temperatura.

Nos últimos 400 mil anos, a nossa atmosfera nunca teve uma concentração de dióxido de carbono como a que se regista hoje. Esta concentração não tem parado de aumentar desde a revolução industrial, no século XIX. É inegável a correlação entre a atividade humana e o aquecimento global.

Apesar das evidências, vivemos tempos em que os líderes de três grandes países, EUA, Rússia e Brasil proferem discursos negacionistas, sem qualquer fundamento científico, mas que se enquadram num quadro populista de desinformação geral sobre a ciência, sobre a política e sobre o mundo. Nesta COP25 não poderemos contar com eles, nem em futuras cimeiras enquanto se mantiverem as atuais lideranças.

É importantíssimo que os países presentes tomem decisões que envolvam a organização da sociedade, que privilegiem o bem-estar e a sustentabilidade dos nossos recursos e não os apetites dos mercados financeiros ou a acumulação exacerbada de riqueza em que se baseia o sistema capitalista.

Nalguns dos principais países mais ricos do mundo, como os EUA, uma família da classe média só utiliza uma vez 30 a 40% dos objetos adquiridos no comércio. As filas de trânsito, a poluição e os efeitos negativos na saúde nunca foram resolvidas pelo capitalismo. Precisamos de outro modo de vida. Precisamos de outro sistema.

Igualmente importante é a colaboração entre países na aplicação de políticas ambientais à escala internacional. É fundamental que os estados decidam conjuntamente sobre políticas ambientais, que implementem estas políticas no terreno e que posteriormente verifiquem a sua aplicação e os respetivos resultados.

As políticas nacionalistas e exacerbadamente soberanistas não são compatíveis com o combate ao aquecimento global. Não existem cortinas entre as atmosferas dos países, nem membranas a separar as águas territoriais dos diferentes estados.

O dióxido de carbono e as correntes marítimas não têm passaporte, nem param nas fronteiras. É urgente uma crescente partilha de soberania entre os estados que permitirá ganhar uma amplitude de ataque às alterações climáticas que está fora do alcance de políticas estritamente nacionais.

Também a política ambiental terá que ser internacional.

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