Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às segundas no LUX24.

Há coisas neste mundo que por muito que me esforce não consigo entender. A física quântica é uma delas, o sucesso de Tony Carreira é outra e, uma terceira, será a razão porque António Costa foi criticado quando apoiou a candidatura de Luís Filipe Vieira à presidência do Benfica.

Qual é o problema de um primeiro-ministro, democraticamente eleito, apoiar uma candidatura à presidência de um clube de futebol?

O futebol é um desporto imensamente civilizado, onde as melhores características do ser humano são projetadas para um nível estratosférico.

Alguém já viu um jogador de futebol fingir estar magoado e ser levado de maca por bombeiros que deviam estar a apagar fogos? Alguma vez se falou em corrupção dos juízes deste desporto? Alguma vez foram colocadas dúvidas acerca de transferências de jogadores medíocres por milhões de Euros?

Por certo que os adeptos, ferrenhos como são, poriam em causa esquemas de lavagem de dinheiro e de fraude capazes de prejudicar o seu próprio clube. Todos nós sabemos como os adeptos amam o seu clube, nunca permitiriam ilegalidades e não seriam meras vitórias no campo a impedir que tentassem apurar a verdade.

O futebol é a atividade económica mais límpida do país. É inclusivamente mais límpido que o escutismo porque não mistura padres e crianças.

Outra prova da normalidade do caso é que André Ventura não veio logo criticar veementemente a atitude do primeiro-ministro. Uma pessoa como ele, que tem a mania que é anti-sistema mesmo pertencendo a um escritório de advogados do sistema, aproveitaria logo um caso de compadrio para desancar em António Costa na praça pública. André Ventura está hoje tal como deveria estar sempre: com a boca calada.

Mas se não é um problema do futebol será que a crítica se deve à pessoa em si? Qual é o problema de Luís Filipe Vieira ser arguido em processos judiciais? Arguido e inocente são praticamente as mesmas palavras.

Muito provavelmente António Costa tem ainda mais respeito pelo presidente do Benfica por causa disso. É até uma forma de se sentir mais próximo de alguém que lhe faz lembrar o último primeiro-ministro do seu próprio partido. É que segundo consta as relações de José Sócrates e António Costa já foram melhores e todos nós gostamos de ter amigos arguidos.

Será por causa da dívida ao BES do candidato? Será porque, no fundo, Luís Filipe Vieira deve dinheiro a todos nós? Até parece que o nosso país também não tem uma dívida enorme.

Os milhões que Luís Filipe Vieira deve são uma demonstração de que existe esperança que um dia a dívida do Estado Português seja perdoada por ganharmos um jogo da Liga das Nações. Este senhor endividou-se para nos a dar esperança que um dia a nossa dívida será inferior ao PIB. É um serviço público e António Costa sabe disso.

Além disso António Costa apoia a candidatura a nível pessoal e não como primeiro-ministro. Querem melhor homenagem à poesia portuguesa que isto? Faz lembrar os tempos de Fernando Pessoa em que Álvaro de Campos apoiava Vale e Azevedo e o Alberto Caeiro era apoiante do Manuel Vilarinho (o Ricardo Reis tinha a mania que era fino e dizia que era Sportinguista).

Fernando Pessoa mostrou-nos que todos nós somos um conjunto de indivíduos que correspondem a diferentes sujeitos legais. Eu próprio vou deixar de pagar a conta do gás porque tomo banho a nível pessoal e não a nível de pagador de contas.

Olha que boa ideia. Vou já começar a seguir este exemplo do nosso primeiro-ministro. Até porque sei que se eles vierem atrás de mim para pagar estas contas de certeza que o escritório de advogados de André Ventura será o primeiro a aceitar representar-me pro-bono.

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