A Pandemia do nosso descontentamento, como todas as tragédias, ou quase todas – há algumas em que não consigo descortinar nenhuma dimensão positiva, eu sou mãe, tenho a certeza que me entendem – revelam sobre nós o mau, o péssimo mas, também, amiúde, o belo.

Passámos os últimos anos, as últimas décadas, a denegrir o Natal: aqui del rei que já era só consumismo, que se perdera todo o sentido da quadra, que as tradições já não eram o que tinham sido, que já ninguém dava real valor à família, ao estarmos juntos, que o Pai Natal da água suja do capitalismo roubara o lugar ao Menino Jesus, eu sei lá. Que era tudo já só luzes, sem nenhum conteúdo.

Afinal, depois de meses de tantas restrições, dias e dias sem abraços aos amigos, sem visitas aos avós, sem ver os miúdos a darem cabo das roupas nos parques infantis, sem o prazer de uma ida relaxada ao cinema, ao teatro, a um concerto, a um restaurante, a um café! depois de tudo isto, as nossas casas confortáveis – mesmo as mais modestas, em Portugal são melhores do que, atrevo-me a dizer uma enorme percentagem das habitações espalhadas pelo mundo, sem água potável, sem tratamento de esgotos e por aí fora, sejamos gratos, isso também é ter o Natal a viver dentro de nós….- tornaram-se um bocadinho prisões da mente, locais distantes dos outros, os únicos espaços onde podemos sorrir, mas para um número limitado de pessoas – as da nossa bolha – ou mesmo para ninguém – há cada vez mais pessoas a viverem sozinhas.

Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve semanalmente às quintas no LUX24.

E é aqui que (re)entra o Natal. Em minha casa já é Natal. O Pinheiro já brilha debaixo de luzinhas e enfeites, alguns com muitos anos, feitos em muitas creches e escolas ainda primárias. O Presépio ignora o distanciamento social e este ano até vai crescer em número de figuras, quero mais pastores, quero meninos a brincar, não me importo que fique um misto de Lapinha com Cascata de São João, aqui não há proibição de ajuntamentos e nós precisamos de tudo menos do Sozinho em Casa.

No Youtube as músicas do Panda cederam o lugar ao All I want for Christmas is You, ao Last Christmas, ao Natal Africano, ao Coro de Santo Amaro de Oeiras e ao Noite Feliz, Noite de Paz que em pequenina aprendi a tocar em flauta.

Fizemos isto tudo em família, numa manhã de muitas gargalhadas, caixotes transformados em carros de corrida pelos meus dois filhos e dois gatos eufóricos com as bolas brilhantes espalhadas pelo chão.

Foi tão, mas tão bom. Ainda pensei que, sendo início de Novembro, devia limitar as luzes do pinheiro a estarem acesas à noite. Mas no outro dia, quando chegava a casa com qa minha filha mais nova ao final da tarde e ela entrou na casa a gritar – educadamente, é uma princesa até a gritar – «Natal, Natal!», ficou toda tristinha por ver que o árvore estava às escuras… Percebi então que, este ano, precisamos de toda a luz que pudermos, por dentro e por fora.

Eu compensarei as emissões de carbono dos gastos energéticos extra de duas séries de luzes de outra forma, ando de bicicleta ou a pé, comprarei menos prendas, vamos fazer algumas com materiais reciclados – amigos, ficam avisados… – mas as luzes só se apagarão depois dos Reis.

Por aqui já é Natal porque precisamos urgentemente de renascer e é sempre por isso que o Natal acontece – mesmo nos anos em que nos parecia que não. E por aí, já é Natal?

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