“Aqueles capazes de abdicar da liberdade para obter um pouco de segurança temporária não merecem nem a segurança nem a liberdade”, escreveu Benjamin Franklin, longe de se imaginar citado a propósito de aplicações em telemóveis.

Mas as frases que ficam fazem-no por um motivo: a sua verdade toca-nos e excede o contexto específico em que foram enunciadas.

Eu instalei a aplicação Stayaway Covid logo no início. Fi-lo por considerar que, se abdico voluntariamente de muita da minha privacidade nas redes sociais, onde partilho até fotografias familiares, ser ciosa dela quando pode estar em causa a segurança e a saúde, minhas, dos meus e dos outros, seria absurdo. Agora, contudo, confesso, apetece-me desinstalá-la.

Ou fazer do telemóvel um aparelho fixo, caseiro, confinado às quatro paredes da casa, como eu estive, como tantos de nós estivemos, obediente e penosamente, em nome do bem-estar colectivo, durante tantas semanas.

Em Democracia, o bem público impõe-se pela sua bondade e operacionalidade. Deve ser entendido como útil, solidário, importante. Deve ser facilitado aos mais frágeis, ajudando-se na sua implementação. Essa é a tarefa do Estado.

E foi o que aconteceu, por exemplo, quando a entrega do IRS deixou de ser feita em papel. Nem todos tinham computador e ligação à Internet. Nem todos sabiam preencher a ‘papelada’ virtual. As juntas de freguesia ajudaram, os mais novos ensinaram os avós, a mudança deu-se, sem grande contestação, porque as pessoas entenderam e foram chamadas a participar. É assim que se faz.

Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve semanalmente às quintas no LUX24.

Tempos excepcionais requerem medidas excepcionais – certo. Mas a última coisa de que precisamos, para juntar a uma crise sanitária, económica e social, é de uma crise de legitimidade. Como sociedade, ainda temos presentes totalitarismos vários na Europa. Sabemos o preço, o custo, de abdicar de direitos, liberdades e garantias, nossos ou dos outros.

Porque, como reza o texto atribuído a Brecht, ‘primeiro levaram os negros (ou judeus, ou comunistas, ou socialistas, as versões variam) e eu não me importei porque não era negro’. E assim se abrem precedentes. Resistir a continuar esta pedagogia pela força é que é difícil. Primeiro impuseram uma aplicação no meu telemóvel e eu não me importei porque não era grave. Depois… e depois? Qual é o limite, sempre que forem invocadas questões de saúde pública? De segurança nacional? De cumprimento fiscal?

O Governo não tentou tudo no que respeita ao sucesso desta aplicação. Ainda que o tivesse feito, na minha opinião, não teria legitimidade para o que está a tentar fazer aprovar. Mas não fez. Deu-lhe um nome em inglês, o que foi pedante, parolo e idiota. Não divulgou massivamente a forma e as vantagens de instalar a aplicação, em outdoors, em anúncios televisivos, em pacotes de leite.

“Instale a aplicação e receba um crédito de dois euros no seu IRS”, sei lá, haverá equipas bem pagas para descobrir formas de fomentar a adesão das pessoas a uma aplicação que, tal como esta pandemia, é uma novidade.

Assim, à bruta, não. É ofensivo, é intrusivo, é desesperado – e ninguém confia em líderes desesperados. Ninguém quer alimentar uma política de ‘não vai a bem, vai a mal’. Ninguém quer acordar em 1984 e ter trocado a liberdade individual por uma alegada ordem superior colectiva.

É que, sobre este vírus, ainda há muito que desconhecemos. Mas sobre os vírus das ditaduras, das superioridades morais ou outras, já sabemos muito: que são altamente contagiosas, galopantes e férteis em metástases.

Queremos todos sobreviver ao vírus e à pandemia. Mas inteiros, em todas as dimensões da nossa vida, incluindo a de cidadãos livres num país democrático. Só assim há, verdadeira e colectivamente, algo que vale a pena salvar.

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