Vala junto ao Continente, na Várzea, Figueira da Foz - FOTO: Rui Curado Silva
Rui Curado Silva, investigador em Física, escreve semanalmente às segundas no LUX24.

As valas da Figueira da Foz são espaços naturais em meio urbano da maior importância para a cidade. As valas transportam a água que escorre da Serra da Boa Viagem para o rio e para o mar. Embora maltratadas, entubadas e desprezadas por variados executivos camarários, são canais de importância fundamental para evitar que se formem cheias em meio urbano, e a Figueira sabe bem o que são cheias.

Projetos imobiliários como o do Vale do Galante, e algumas obras públicas e estradas, entubaram parcialmente algumas das valas da Figueira com consequências negativas em alturas de enxurradas.

O último assalto às valas tem vindo da parte das grandes superfícies que se estão a instalar indiscriminadamente na cidade. A Figueira está a ser esventrada e impermeabilizada junto a leitos de valas. É a receita perfeita para criar condições de cheia.

O volume de terra das margens das valas que ajudava a reter a água em tempo de enxurradas, essencial para impedir a formação repentina de cheias, está a ser substituído por solo impermeável que irá despejar a grande velocidade a água das chuvas nas valas.

Este fenómeno é visível junto ao Continente na Várzea e junto à nova superfície comercial que se vai instalar junto às Abadias. Pior, pequenos cursos de água laterais às valas estão a ser entubados fazendo verter a água nas valas sem compasso de espera. O pior que pode acontecer em cenário de cheias.

Vala junto ao Continente, na Várzea, Figueira da Foz – FOTO: Rui Curado Silva

O executivo camarário não manteve a palavra dada durante a campanha eleitoral de 2017 quando se debateu a praga de supermercados na Figueira. Ao contrário do que foi dito, a Câmara Municipal não está a salvaguardar o bom escoar da água nas valas e se ocorrer algum acidente a responsabilidade será deste executivo, que não protege a Figueira dos apetites imobiliários das grandes superfícies.

Para quem não está atento, hoje em dia já não é a venda em caixa das grandes superfícies o principal negócio destes grupos. Uma grande fatia dos rendimentos vem da compra e da valorização de terrenos e consequentemente das acções das empresas (aconselho o filme “O Fundador” sobre a história da McDonalds onde é patente a centralidade da componente imobiliária no negócio).

É assim na Figueira, mas é assim também noutros pontos do país, como na Zona Metropolitana do Porto, onde o solo municipal está a saque para enriquecer estes grupos em vez de servir as reais necessidades dos cidadãos. Com a agravante na Figueira de já terem sido encerradas duas superfícies comerciais abertas nos últimos anos, prova do excesso e desadequação da oferta.

Vala junto ao Continente, na Várzea, Figueira da Foz – FOTO: Rui Curado Silva

A venda destes imóveis agora encerrados irá garantir uma margem de lucro considerável ao grupo proprietário que comprou os terrenos quase em saldos.

É urgente travar este negócio perverso que a pretexto de um negócio legítimo, a venda a retalho, está a promover um negócio imobiliário selvagem que ocupa e impermeabiliza solo urbano, destrói o comércio tradicional e desvia o centro da vida social das cidades para circulares externas que deveriam servir para desviar com fluidez o trânsito das cidades e passam estas mesma circulares a estar congestionadas pelo excesso de grandes superfícies aí instaladas.

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