Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente às quartas no LUX24.

Vejo pouca televisão. Agora menos do que nunca. Os diferentes canais estão fixados na questão da COVID 19, entendemos porquê, ou então “ocupados” com os crimes hediondos que vão ocorrendo, fazendo abalar a nossa confiança na recuperação moral da espécie humana.

Alguns, de unhas de fora e dentes de lobo, aproveitam estas misérias para reclamar andar para trás no tempo, sugerindo o regresso à pena de morte e à prisão perpétua, como se alguém que sabe que vai morrer no instante se arrependa genuinamente dos seus maus actos, ou o que se vê confinado até que chegue a “mulher da Foice” sinta algum estímulo para se transformar por dentro.

O mais certo será cogitar: “De que me vale tentar melhorar a minha índole perversa? Nunca vou sair daqui, ninguém me quer por perto, sou um peso para quem me sustenta e um peso enorme para mim mesmo!”.

Nestas situações acontecem frequentemente os suicídios que também não são prova nenhuma que se aproveite: falam de loucura motivada pela condenação, falam do cansaço, falam do medo de represálias, falam da animosidade latente entre a população prisional, falam do gélido olhar dos guardas…

Muito dificilmente falam de dor autêntica, de reflexão profunda sobre os danos causados ao seu semelhante, às vezes um parente bem chegado e também não falam de coragem (!!!), antes anunciam uma insanável cobardia. Qualquer generalização produz injustiça e este não será o padrão mas tão só UM padrão, o que se me afigura mais presente.

Comecei falando de TV. Sem nenhuma regularidade, de vez em quando, vejo uma série interessantíssima, mas mais interessante seria se não estivesse por lá a tal “Máquina do Tempo”: os personagens movem-se na América do Norte, antes da Guerra Civil, quando já tinham dado cabo da maioria dos índios, donos daquelas terras. Mas, volta que não volta, por artes mágicas de umas pedrinhas, lá voltam eles ao século XX, vivendo vidas paralelas, mas sendo as mesmas pessoas.

Gosto mais deles com as saionas longas, os cavalinhos lindos, as pitorescas casinhas de madeira, as florestas multicolores, os rios transparentes. Nem ligo muito à história mas as paisagens preenchem o meu amor às viagens.

Agora não quero ir para lado nenhum, nem tão pouco sair de casa e andar quinhentos metros e preocupa-me o que será o Verão próximo, um enigma. Também para vós, espero que possam vir matar as saudades deste cantinho nosso que tão bem recebe os de fora e muito especialmente os seus.

Faço votos de que tudo “fique bem”, como anuncia o arco-íris. Que estejam felizes e esperançados em dias menos cinzentos, que por agora o Sol radioso não consegue alegrar na necessária medida.

Um abraço bem português, ao jeito de antes da pandemia. E nada de recuos no tempo. “O Mundo pula e avança”, dizia o poeta. E só pode ter razão.

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