Às vezes perguntamo-nos como é que organizações terroristas, nomeadamente de outras culturas, conseguem atrair os nossos jovens. Na maioria dos casos, os relatos dão conta de aproximações que tiram proveito de uma solidão íntima destes jovens: oferecem-lhes, não os gadgets e os confortos da vida ocidental, mas as ligações que temos vindo a perder, a sensação de pertença a algo maior, seja esse algo uma família, uma religião ou um qualquer ideal.

Quando a minha mãe era miúda, conta, brincava na rua e ia a bailaricos que se replicavam nos mesmos moldes um pouco por todo o país, ouvir os mesmos artistas da moda. Graças a isso consigo reconhecer, sem ver, uma mulher que seja sensivelmente da idade da minha mãe: trauteará as mesmas músicas, lembrar-se-á dos mesmos actores de cinema, usará as mesmas expressões para designar jogos de criança.

Quando eu era miúda, recordo, já não brincava muito na rua. Cresci no Porto e as ruas já eram, à época, movimentadas demais para pernas tão pequenas e irrequietas. Mas brincava na casa das vizinhas e tinha sempre à minha volta os meus avós, as tias e tios, a minha irmã e, claro, os primos, esses amigos-irmãos de que normalmente nos separavam meia dúzia de meses, se tanto, e de quem, se fossem apenas um pouco mais altos, haveríamos de herdar saias com fivela ou calças de xadrez que picavam.

Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve semanalmente às quintas no LUX24.

Jogávamos ao Queime-se, ao burro em pé, ao poço, ao mata, ao quarto escuro. Víamos as Histórias do João, Histórias de Sempre, o Dartacão, o Tom Saywer e, mais tarde, Modelo e Detective, MacGyver, 91210, o Dirty Dancing. Dançámos a lambada, aprendemos as coreografias de Las Ketchup e, é verdade, na música sempre houve tribos, mas todos sabíamos de cor as músicas de GNR e Rui Veloso, Queen, U2 ou Dire Straits.

Hoje, o meu filho adolescente joga uns jogos e os colegas de turma outros, há milhares de séries em plataformas distintas e as bandas sucedem-se a um ritmo que não consigo acompanhar – em parte porque a idade e as dioptrias já não me permitem ler as letras pequeninas nos cartazes dos festivais de verão que se multiplicavam até à chegada da Pandemia.

Já a minha filha de três anos vê sobretudo o Canal Panda mas tem, no infantário, coleguinhas que preferem outros dos 324 canais com programação infantil 24 sobre 24 horas disponíveis nos diferentes fornecedores de serviços televisivos. E não falemos sequer no Youtube, onde cada um vê o que quer e podemos pesquisar urso anão brinca com boneca de três pernas – e provavelmente vamos obter resultados.

Para melhorar, uns comunicam por SMS (acho eu que ainda os há), outros por messenger, whatsapp, instagram, jujupramimjaja e um não acabar de aplicações de conversação, que parecem nascer como cogumelos, em cada chuvada, para dividir, mais e mais e mais.

Pergunto-me que memórias partilhadas terão os nossos filhos e os filhos deles. Que património comum terão as próximas gerações e, se não o tiverem, qual o impacto dessa falta. Porque encontrar um desconhecido que ouvia o Oceano Pacífico é logo uma ponte, um quebra-gelo, uma afinidade.

Conhecer alguém que também sabe o genérico do Dartacão de cor coloca-nos um sorriso no rosto, não importa se politicamente estamos em lados opostos da barricada, há aqui algo em comum, é um princípio, é uma semente de concórdia.

Pergunto-me se tanta escolha, se tantas mini-tribos, num mundo que cada vez mais nos obriga a mudar – de escola, de casa, de estrutura familiar, de cidade, de emprego, de trabalho – não é meio caminho andado para ficarmos… sem tribo.

Uma espécie de sem-abrigo da alma. Mais sozinhos. Com maior dificuldade em sentir que pertencemos: a um grupo, a uma família, a uma geração, a uma memória colectiva, a um tempo e espaço concretos.

Gostava de terminar esta crónica com uma solução – mas não tenho nada para vos dar. Só penso que devemos estar atentos aos nossos filhos, alunos, sobrinhos, afilhados. Olhá-los mais nos olhos e perceber se sentem empatia, se percebem a diferença entre valor e preço, entre amigo e colega, entre o bem e o mal.

Garantir que têm interesses suficientes para se integrarem em diferentes contextos: saber tocar um instrumento musical ou dominar uma qualquer arte é quase sempre uma vantagem, uma linguagem universal que toca o mais íntimo do ser humano, a começar pelos próprios. E essa humanidade ainda é a nossa derradeira memória partilhada.

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