Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às segundas no LUX24.

Enquanto em Portugal a vida vai regressando muito lentamente à normalidade, no Reino Unido, depois de um atraso nas medidas de confinamento que resultou em muitas mortes, ainda estamos com umas semanas de atraso e, por isso, ainda com a maioria da população em casa e com o comércio e restauração fechados. Em breve até vão obrigar as pessoas que chegam do estrangeiro a fazer quarentena, como se estivéssemos em Fevereiro.

Existem, claro, exceções. A primeira sair para compras, a segunda sair para exercício físico e a terceira, só permitido a pessoas infetadas, conduzir 350 km até casa dos pais, ficar lá com o filho e dar uma volta por um castelo a 40km desse local.
Pelo menos foi o que o Primeiro-Ministro afirmou ontem em direto para todo o país a justificar as aventuras do seu principal assessor. Já várias vezes escrevi sobre a pessoa mais poderosa do Reino Unido: Dominic Cummings. Não foi eleito, nunca foi deputado, mas é ele que manda em Boris Johnson. Todas as decisões, todos os discursos do Primeiro-Ministro passaram pela pessoa que define a estratégia do governo.

Um homem com tanto poder que por certo tem a tendência em confundir-se com Deus e que, por isso, pode estar em Londres, na sua casa ou em Durham na casa dos pais já que ambos fazem parte da sua omnipresença. O seu à-vontade é tanto que entra no número 10 de Downing Street ao domingo à tarde, com umas calças de fato-de-treino e uma t-shirt já encardida como se estivesse a passear pelo Norteshopping ou o Colombo com a família.

Não conheço muito bem a história familiar de Cummings, mas pelos vistos os pais moram em Durham, no Norte de Inglaterra. Como parte do aparelho Conservador, acredito que tenha pais ricos e talvez a herança seja uma boa razão para ir visitá-los quando ele e a sua mulher estão infetados com o coronavírus.

Incrivelmente muitas vozes pediram a demissão de Cummings, incluindo deputados do Partido Conservador e até a imprensa ligada a este partido. É como se os anjos se juntassem e quisessem mandar Deus para o Inferno. Algo que não aconteceu, porque Boris, o verdadeiro São Pedro de Downing Street fechou a porta e engoliu a chave.

E quando todos estavam à espera que a defecasse na conferência de imprensa e permitisse a saída do seu chefe, do ânus de Boris (que é o mesmo orifício da boca como o pepino-do-mar) apenas saíram palavras de confiança no seu chefe, perdão, no seu assessor.

Boris tinha que escolher entre ficar com Cummings e ter a opinião pública contra si ou perder Cummings e ter que pensar pela sua própria cabeça e tomar as suas próprias decisões. Se eu estivesse no lugar dele com a cabeça dele (incluindo o cabelo) faria exatamente o mesmo: Engolir uma cassete, ignorar todas as perguntas e dizer que acredita na boa-fé de Cummings.

Afinal de contas, toda a relação com Deus é baseada na fé, só tenho dúvidas é que esta seja boa.

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