Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve semanalmente às quintas no LUX24.

Ouço a miúda do andar de cima a pedalar a bicicleta com rodinhas pelo corredor. É cor-de-rosa e tem uma campainha com cara de boneca, eu sei porque já a vi num parque a alguns minutos do nosso prédio, com os pais a sorrirem, são simpáticos, apertámos as mãos e a mãe deu um beijinho na minha filha mais nova, que se pela por abracinhos que nos derretem o coração.

Isto foi há muito, muito tempo. Um mês, talvez, talvez um pouco mais. Hoje a menina e a bicicleta só podem viajar no pequeno corredor igual àquele onde jogo à bola com a minha filha, tentando gastar-lhe as energias e alimentar com os sorrisos dela a minha angústia.

Hoje em dia já não cumprimento ninguém, mal respiro quando me cruzo, nas compras essenciais, com outro ser humano, e sinto endurecer o coração só de pensar que alguém fora do muito restrito círculo familiar se atreve a abraçar a minha filha ou, sequer, fazer-lhe uma festa no cabelo.

No prédio em frente, a vizinha do rés-do-chão atira migalhas de pão pela janela e, sem surpresa, juntam-se-lhe diante do parapeito algumas aves, apanham as migalhas e voam. Um pombo, porém, permanece, a sua cabecinha entortada na direção da benemérita enclausurada e, à espera de mais, acaba por se aproximar, está agora no parapeito, a uma dezena de centímetros da refeição.

A minha vizinha, da sua gaiola, sorri e atira para longe as migalhas, seguidas pelo esvoaçar do bicho que, como se sabe, transmite doenças e não convém ter por perto. Mas por estes dias a doença que tememos é outra e, ao contrário dos pombos, não temos como vê-la chegar.

A bicicleta e o pombo. Trazemos para dentro ou perto de casa símbolos da liberdade que dávamos por adquirida e que, em poucos dias, perdemos. A bicicleta, o pombo, livros, filmes, dança, música – o que seria destes tempos sem arte(s) cá dentro e ciência, incluindo matemática, política, economia, sociologia, etc., etc., lá fora? -, as brincadeiras com os filhos, as vídeo-chamadas para os amigos, o pão feito à mão, a sopa caseira que agora enche a casa todos os dias, os bolos, as arrumações, nada mais é adiado, só a vida, ou o que até há pouco chamávamos de vida: o trabalho, os horários, as contas para pagar as contas ou umas férias daqui a uns meses, talvez para um país ‘exótico’, como o são todos para os que nasceram longe, agora sabe-se lá quando voltaremos a pensar nisso.

Pensar, pensamos nos que têm de sair. Engolimos em seco com a imagens de profissionais de saúde exaustos, com os números dos que já morreram. Desviamos o olhar da televisão onde desfilam camiões de caixões, entretanto esgotados numa cidade italiana.

Agradecemos de uma forma diferente, sentida, ao caixa que nos atende no supermercado, ao carteiro que nos avisa pelo intercomunicador que a encomenda vai ser deixada à nossa porta. Aplaudimos à varanda os que até há um mês eram invisíveis e ‘cautionary tales’ para que os nossos filhos se aplicassem na escola: ‘estuda se não queres acabar a ser repositor de supermercado, homem do lixo, empregada de limpeza’.

Hoje, se a nossa vida é possível com alguma, só alguma normalidade, é graças a eles, que continuam a sair de casa a troco do salário mínimo ou pouco mais – hoje talvez o façam com mais medo mas seguramente também com mais orgulho, nem eles sabiam o que valiam – e deixam-nos a pensar quanto vale uma vida, que preço pode ter colocar a vida em risco, a nossa, a dos nossos, para que a vida de todos continue, apesar de tudo, até que isto passe, quando não sabemos, em que moldes também não: cada vez mais o futuro é incerto e a normalidade que conhecíamos longínqua.

A mim vale-me a bicicleta do andar de cima e o pombo no parapeito da vizinha do rés-do-chão do prédio em frente, os meus filhos a jogar à bola num corredor de quatro metros e um exército invisível lá fora a lutar contra um inimigo que o é ainda mais mas a que falta o que nos sobra: enquanto o vírus segue a estratégia d’O Gene Egoísta, a humanidade luta com a determinação altruísta que o mesmo autor, Richard Dawkins, observou ser essencial à sobrevivência da(s) espécie(s).

É, por isso, ciência e humanidade, desejo e convicção: vai ficar tudo bem, mesmo que nada fique igual.

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