Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às segundas no LUX24.

Durante várias semanas de quarentena, a maioria dos portugueses ficou nas suas casas cumprindo as ordens das autoridades e contribuindo para um melhor controlo da disseminação do Coronavirus. Estão por isso todos de parabéns.

Muitos passaram a trabalhar de casa, outros entraram em lay-off mas algumas profissões essenciais continuaram a ser exercidas nos locais habituais de trabalho, como por exemplo hospitais, supermercados e a Assembleia da República.

E agora viria a punchline se eu estivesse a fazer a habitual ironia sobre os deputados não servirem para nada. A questão é que não penso assim. Todos os países mais desenvolvidos e com melhores indicadores de liberdade, qualidade de vida e, imaginem só, aqueles que têm menos corrupção são todos, mas mesmo todos, democracias parlamentares.

Não é uma coincidência, o Parlamento, com deputados que representam os diferentes pontos de vista de um povo, é um órgão essencial e estou totalmente de acordo que ele funcione durante estes tempos conturbados. Só assim podem ser validadas convenientemente todas medidas tomadas durante a crise pelo governo e é também uma forma de as escrutinar devidamente em tempo real.

Claro que o nosso parlamento podia melhorar em muitas coisas, mas parece-me uma solução aceitável reduzir o número de deputados em plenário e manter a distância social entre eles. E, a meu ver, tem funcionado, já que o vírus não se andou a propagar pelos corredores de S. Bento.

Por isso, a Sessão Solene do dia 25 de Abril tem os mesmos riscos de contágio de uma sessão plenária sendo depois acrescidos os riscos por existirem mais alguns convidados e retirados os riscos por alguns partidos boicotarem a cerimónia. Será que a diferença de riscos é suficiente para tornar a Assembleia da República num viveiro de Coronavírus no dia 25 de Abril? Se existir consenso científico a dizer que há grande perigo de contágio, parece-me correto que não se realize mas tendo em conta o que acontece diariamente no parlamento quer-me parecer que não.

Há depois a questão da justiça em relação ao cidadão comum, que não pode festejar aniversários ou dias importantes com a sua família, como o dia do pai, o dia da mãe ou a Páscoa. Ou, tal como eu, muitos emigrantes que não sabem quando será o dia que podem regressar ao seu país. E aí, muitos poderão considerar uma injustiça e ficarão revoltados. No meu caso específico não ficarei, são coisas totalmente diferentes, mas até entendo que alguém assim fique.

O que não percebo é quem olha para a Sessão Solene do 25 de Abril como se fosse a Festa do Fumeiro de Montalegre ou o NOS Alive da política. Como se os deputados estivessem lá em grandes raves a beber até cair para o lado e a snifar linhas de coca.

Eu já vi a sessão solene do 25 de Abril e bastou uma vez porque todos os anos aquilo vai dar ao mesmo. São discursos lidos de forma monocórdica, o hino nacional cantado porque não consegue afinar e o único suspense é ver quem é que não leva um cravo na lapela.

Não sei quais são as vossas preferências, mas entre estar numa Sessão Solene e estar em casa a andar na bicicleta estática e a ver o Tiger King na Netflix eu prefiro a segunda hipótese. É que nestes tempos de pandemia nem sequer devem ser servidos canapés.

Hoje é fundamental relembrar que se vivêssemos numa ditadura o resultado seria muito pior, com muito pouca transparência e mortes misteriosas. Basta olhar para os dados da pandemia em países como o Irão ou a Coreia do Norte ou para como o regime Chinês tentou abafar o caso (enganando muitos, inclusive eu).

O 25 de Abril deve ser celebrado sempre. Se não fosse a nossa revolução, hoje a DGS em lugar de estar a tentar proteger a nossa saúde estaria a tratar da saúde a muitos de nós.

Se calhar era mais interessante assinalar a data com um sing-a-long do Grândola Vila Morena nas varandas de todo o país à mesma hora, ou a pôr desenhos com arco-íris feitos de cravos à janela ou mesmo com pessoas a correr 25.4 km dentro das suas próprias casas, mas se uma Sessão Solene é segura, não vejo porque não.

Só depois saberemos se todos os que participaram no evento ficaram infectados é que podemos dizer se as comemorações deveriam ser canceladas ou não.

Para já a única certeza que podemos ter é que isto vai ser usado pela extrema-direita para atrair eleitores.

 

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