Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente no LUX24.

A moda de pessoas conhecidas participarem em espetáculos televisivos de realidade (olha eu a evitar anglicismos escusados mesmo vivendo em Inglaterra) não é exclusiva de Portugal. Também no Reino Unido existe essa tradição e o mais conhecido dos programas nem sequer é o Grande Irmão (outra vez!).

Sou daqueles que acompanhou a primeira versão do Grande Irmão e que vibrou com o Zé Maria a tratar das galinhas e a fumar relva, com o Marco a correr na passadeira enquanto não via os outros a fazer nada ou com o Telmo a não saber pronunciar o verbo “gostar” na segunda pessoa do singular. Claro que também sofri com o momento de boxe-pontapé que marcou o programa para sempre ou com a carreira criminal que Mário seguiu mesmo depois do pai lhe ter oferecido uma moto 4.

O meu acompanhamento destes espetáculos acabou na passagem do ano de 1999 para o ano 2000. Nunca mais segui nenhum dos programas. A minha única interação é jogar ao jogo: “Quantas celebridades são célebres?” Um jogo que consiste em ir ao sítio da interrede da TVI e verificar quantos concorrentes das “celebridades” eu conheço. Nunca consegui reconhecer mais de dois concorrentes, o que revela a minha falta de cultura portuguesa.

O espetáculo de realidade mais conhecido no Reino Unido tem o título deste meu artigo e, uma vez mais, o meu conhecimento de “celebridades” é muito limitado, mas consegui reconhecer: Miguel Tindtodos (jogador de râguebi e marido de uma neta da rainha), Rapaz Jorge (Carma, carma, carma, carma, carma camaleão) e Mateus Hanpila… bem, se calhar traduzir nomes só para não escrever anglicismos já é ir longe demais. Pois, Mike Tindall, Boy George e Matt Hancock sempre são nomes mais aceitáveis. Este último é um deputado e foi ministro da saúde durante toda a pandemia.

Para traçar um paralelismo é como se a Marta Temido tivesse ido para um “Perdidos na Tribo” na Austrália mas sem tribo e com provas em que os concorrentes nadam em piscinas de larvas. Um paralelismo, é certo, mas com diferenças substanciais.

Marta Temido demitiu-se porque o Serviço Nacional de Saúde não conseguiu resistir às mais diversas pressões tendo inclusivamente morrido uma grávida.

Matt Hancock demitiu-se porque não cumpriu as próprias leis de distanciamento durante a Covid-19, quando agarrou-se e beijou a sua assessora em frente às câmaras de segurança.

Para participar no concurso, a ITV (tipo a TVI de Inglaterra mas com o I no início) pagou ao deputado cerca de 450.000 euros, ou seja, o que ganharia em oito anos como membro do parlamento. Claro que essa não foi a justificação para concorrer, já que a sua participação serviu apenas para “promover a sua campanha de informação sobre a dislexia”. No entanto, aposto que não trocou as palavras quando leu o contrato que lhe permitiu receber uma pequena fortuna.

Ao contrário do que acontece em Portugal, os deputados são eleitos em círculos uninominais, pelo que não podem ser substituídos sem novas eleições na sua área. Isto significa que o Oeste do Suffolk ficou sem o seu deputado durante várias semanas. Não sei se quando votaram nele estavam à espera que fosse para a Austrália comer testículos de canguru em vez de votar o Orçamento de Estado.

A verdade é que foi para lá, saboreou a gastronomia local, ficou em terceiro lugar e voltou para voltar a sentar-se num lugar quentinho da Câmara dos Comuns. Provavelmente voltará a ser candidato e a ganhar, porque os eleitores do Oeste do Suffolk estão muito preocupados com a dislexia e, dada a sua avançada idade, têm um senhor alemão à porta que lhes dá cabo da memória de curto prazo.

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