Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente no LUX24.

Ser emigrante é viver com o coração dividido entre países. A partir de certa altura já não sabemos de onde somos ou se somos sequer de algum sítio. Somos estrangeiros lá fora e somos estrangeiros quando voltamos ao país onde nascemos.

Tudo porque há alturas em que não podemos ser dos dois sítios ao mesmo tempo. Por exemplo, é impossível ter-se uma opinião aceitável sobre Cristiano Ronaldo tanto em Portugal como em Inglaterra. Ainda para mais depois de uma semana em que ele esteve em todas, começou por ter uma entrevista demolidora, ficou desempregado, chorou a ouvir o hino nacional, marcou um golo no quinto mundial consecutivo e disse a palavra “caralho” quatro vezes numa conversa com o guarda-redes Diogo Costa. Foi uma semana daquelas, sem qualquer dúvida.

Cristiano Ronaldo é daqueles que pode ser amado e odiado. Em Inglaterra, ao longo dos anos, tornou-se praticamente normal ter-se uma opinião negativa sobre ele, algo que parece impossível para a maioria do povo português.

Tudo começou com alguns mergulhos para a piscina e lesões simuladas no início de carreira. Seguiu-se um momento fatídico no Mundial da Alemanha em 2006, quando Cristiano Ronaldo pediu ao árbitro para expulsar o seu companheiro de equipa Wayne Rooney.

A partir daí, Cristiano Ronaldo tornou-se uma pouco popular com exceção dos adeptos do Manchester United. Por fim, deram-se os golpes fatais, quando o português foi acusado de violação e de evasão fiscal.

Em Portugal acontece exatamente o oposto. Se no início da sua carreira, o facto de estar ligado ao Sporting gerava antipatias nos adeptos dos clubes restantes, com o passar dos anos, Cristiano Ronaldo transformou-se num tesouro nacional. Um estatuto que na nossa vida apenas Amália teve (e a uma dimensão mais reduzida).

Nem mesmo outros jogadores talentosos como Eusébio, Figo ou Paulinho Santos tiveram o estatuto que Ronaldo tem. Por exemplo, em Inglaterra apenas a rainha e David Attenborough têm um estatuto semelhante.

Cristiano Ronaldo é o verdadeiro limite do humor. Quase todos os humoristas defendem que não deve existir qualquer limite na sua liberdade de expressão, mas sabem que gozar com Cristiano Ronaldo é passar uma linha capaz de destruir carreiras.

É mais aceitável em Portugal gozar com cancro infantil do que com o melhor jogador de futebol português de sempre. Foi por isso com alguma desilusão que não vi nenhum sketch, nenhuma crónica gozando com a famosa entrevista a Piers Morgan, o jornalista mais irritante e irritável do Reino Unido.

Cristiano Ronaldo foi, nessa entrevista, um grande embaixador da cultura portuguesa, demonstrando duas caraterísticas do nosso povo, muitas vezes ignoradas pelos estrangeiros.

Cristiano Ronaldo é um expoente máximo da bazófia. Com ou sem razão adora referir que é o melhor do mundo a jogar futebol e uma das pessoas mais bonitas e atraentes de todos os tempos.

Muito mais bonito e atraente do que outros jogadores que ele um dia pediu para serem expulsos de campos de futebol e que hoje pede para serem expulsos de concursos de beleza masculina. A bazófia portuguesa está muito bem representada em Cristiano Ronaldo e é ele que, juntamente com José Mourinho, tem levado novas bazófias aos bazofeiros do mundo.

Por outro lado, nesta entrevista, Cristiano Ronaldo tentou traduzir literalmente expressões bem portuguesas para o léxico inglês, numa tentativa de demonstrar a riqueza idiomática que temos.

Nunca ninguém no horário nobre televisivo britânico (mesmo num canal das profundezas da fibra óptica, como foi o caso) tinha-se referido a si próprio como “o fruto mais apetecido”.

É certo que “Appetite fruit” não é algo que um inglês consiga perceber o que significa, mas também é uma maneira de irem estudar melhor as singularidades do nosso país. De seguida demonstrou a nossa capacidade para imaginar constantemente, mesmo com palavras recém chegadas ao nosso país quando disse que o viam como “the last Coca-Cola in the desert”.

E a verdade é que Cristiano Ronaldo ainda vai mais longe, criando novas expressões como “excuses have short legs”. Se até aquela entrevista apenas as mentiras tinham perna curta, Cristiano Ronaldo pegou no machado e cortou metade das pernas das desculpas para que estas não ficassem a rir das mentiras.

Só espero que depois disto as desculpas não peguem numa caçadeira e matem as namoradas delas, como fez o Pistorius há uns anos.

Observação: O facto de eu ter feito este pequeno texto humorístico acerca da entrevista de Cristiano Ronaldo, não quer dizer que eu não o admire. Continuo a achar o melhor futebolista que o nosso país conheceu e um grande líder que veio de uma família humilde e subiu a pulso. Tenho muito amor ao meu país, à sua principal figura no futebol e à minha vida. Não quero aparecer aí numa valeta num dia destes.

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