Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente no LUX24.

Em termos de eventos desportivos, um ano par é sempre um ano em que acontece algo muito importante no verão, seja um Mundial ou um Europeu de Futebol ou uns Jogos Olímpicos. No entanto, 2022 é um ano fora do comum, porque decidiram mudar o Mundial de Futebol para o Inverno de forma a possibilitar a sua realização no Qatar e assim encher os bolsos de ex-dirigentes da FIFA e mostrar-nos que a escravatura afinal ainda não terminou.

Mas, aposto que os adeptos de desporto em Portugal estão todos entusiasmados com o evento do verão aqui em Inglaterra: os Jogos da Commonwealth. Por certo, ficarão tão entusiasmados como os ingleses ficam quando se realizam os Jogos da Lusofonia.

Os Jogos da Commonwealth são uma antiga tradição que demonstra toda a necessidade que os britânicos têm de criar um mundo paralelo ao mundo real. Não me impressionaria muito se um dia pedirem para sair do Comité Olímpico Internacional e dedicarem-se aos seus próprios jogos.

As vantagens são óbvias, em vez de terem modalidades pouco populares em Inglaterra como o Andebol, Basquetebol ou Pólo Aquático, podem trazer o Cricket e o Lawn Bowls (sim, esse desporto muito conhecido que difere da petanca porque é inglês, portanto deve-se jogar pela esquerda) e assim permitir mais medalhas a um país que já não fica em primeiro no medalheiro olímpico desde 1908.

Bem, mas na realidade não é bem o Reino Unido neste caso, porque a definição de país para a Commonwealth é muito mais alargada do que para a restante comunidade internacional. Nestes jogos temos “países” como Inglaterra, Gales, Escócia e Irlanda do Norte (os habituais noutros desportos), colónias minúsculas como a Ilha de Santa Helena, Gibraltar ou Monserrate (Sintra tem muitos ingleses) e territórios que nunca ninguém ouviu falar: Niue e Ilha de Norfolk.

Como se não estivessem satisfeitos ainda foram buscar Moçambique ao Mapa Côr-de-Rosa. Com isso, conseguiram juntar 72 países, ou seja, quase 35% dos países do mundo se não tivessem feito tanta batota.

Com equipas arranjadas à pressão e desportos escolhidos a dedo, a verdade é que Inglaterra nem assim consegue dominar os Jogos, ficando sempre atrás da Austrália, um país com metade da população mas cheio de cangurus, cobras venenosas, crocodilos e insetos assustadores, que ao longo dos anos têm formado pugilistas, nadadores e atletas de uma classe superior.

Apesar de existirem algumas semelhanças com os Jogos Olímpicos, como as três medalhas, quem criou estes jogos quis vincar que não se trata de uma cópia, por isso em vez de existir uma chama Olímpica que é acesa em Olímpia e é transportada pelo mundo todo, nos Jogos da Commonwealth faz-se algo completamente diferente, existindo o Bastão da Rainha que é acendido por esta no Palácio de Buckingham e transportado por vários atletas até chegar ao Estádio onde se realizam os jogos.

Também não estou a dizer que isto se trata de neocolonialismo, até porque os jogos já mudaram de nome: Começaram por se chamar Jogos do Império Britânico e depois adotaram as seguintes formas até à atual: Império Britânico e Commonwealth e Commonwealth Britânica. Uma sucessiva eufemização que afasta completamente o imperialismo, claro.

Por incrível que possa parecer, há cada vez menos interessados na sua organização. Nos últimos anos tem alternado entre cidades médias na Grã-Bretanha e na Austrália e desta vez coube a Birmingham organizar, daquelas cidades em que só se vai lá para ver uns jogos de petanca, porque aquilo não é propriamente bonito.

Já mudaram as regras para tentar angariar mais candidatos mas parece que não está fácil encontrar anfitrião para 2030. Uma premonição do que vai acontecer quando chegar um novo monarca ao trono britânico.

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