Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às quintas no LUX24.

Segundo a Oxfam, os 2.153 bilionários que existem têm mais riqueza que 60% da população mundial. Bilionários, porque, como o nome indica, têm mais de mil milhões de dólares de riqueza (maneiras estranhas de contar os biliões que têm os anglo-saxónicos.

Esta diferença entre ricos e pobres é avassaladora e revela bem as consequências do sistema económico em que vivemos. Se o Comunismo não funcionou quando se tentou aplicar este sistema em diversos países, os resultados do Capitalismo também não são famosos. Ou melhor, os resultados até são famosos porque os maiores bilionários são figuras públicas.

Na lista dos cinco primeiros, temos Jeff Bezos, CEO da Amazon, Elon Musk, CEO da Tesla, Bernard Arnault, CEO da empresa que detém a Louis Vuitton e outras marcas baratinhas do género, Bill Gates, fundador da Microsoft e Mark Zuckerberg, CEO do Facebook. Quatro destes cinco podem ser muito ricos em dinheiro mas são pobres no nome da profissão. A sua profissão é uma sigla, e assim de repente, nenhuma profissão que é uma sigla é propriamente interessante, seja CEO, VP ou GNR.

Por essa razão pode existir uma certa frustração: O senhor da Louis Vuitton candidatou-se à nacionalidade Belga por causa dos impostos em França e deslocalizou fábricas deixando vilas francesas em graves crises financeiras.

O senhor do Facebook construiu um império copiando uma ideia de uns remadores da sua universidade e usando os nossos dados para fazer dinheiro e vender eleições.

O senhor da Amazon assenta o seu lucro em mão-de-obra barata e péssimas condições de trabalho, evitando a todo o custo que os seus funcionários, perdão, colaboradores, se sindicalizem.

O último CEO da lista é Elon Musk, que aproveitou aquela aura de salvador do mundo que se tinha perdido quando Steve Jobs morreu. É venerado quase religiosamente e, de facto, criou tecnologias disruptivas e que tornou os carros eléctricos populares para todos aqueles que têm 100 mil euros no banco prontos para salvar o mundo, uma bateria de lítio de cada vez.

O homem compra criptomoedas, diz que as criptomoedas são o futuro, espera que o seu preço cresça exponencialmente, vende as criptomoedas e depois diz que estas não têm futuro pois têm um grave impacto no meio ambiente. Assim um impacto muito negativo como lançar um carro para o espaço só porque sim.

Nada melhor que fazer crescer a sua fortuna com base na boa e velha especulação.

O único que não tem uma profissão com iniciais é Bill Gates e, pensava que, por essa razão, não viveria tão frustrado como os restantes. É verdade que criou o pior sistema operativo do mundo que ao mesmo tempo é o mais utilizado globalmente. Mundo estranho este. Graças a ele existem vírus informáticos a destruir informação e a exigir resgates através de bitcoin.

Mas, talvez para responder a isso, Bill Gates conseguiu ver antes de todos que uma pandemia iria acabar por chegar e que o mundo não estava preparado para isso tal como o Windows não estava preparado para vírus informáticos. Criou uma fundação e um trabalho filantrópico fabuloso, colocando uma grande parte da sua fortuna na criação de um mundo melhor.

No meio de todos estes bilionários, Gates era aquele que, ao não ser CEO e apesar de estar relacionado com algo tão perigoso para a humanidade como os ecrãs azuis do Windows, conseguia ter peso na consciência e tentar ajudar o mundo de outra forma.

Mas, infelizmente, com o início do seu processo de divórcio começaram a aparecer relatos de assédio que o levou a sair da direção da Microsoft que fundou. Nem mesmo esta luz que nos iluminou durante a pandemia é um ser humano íntegro como a maioria dos 60% mais pobres do mundo.

Durante toda a História da Humanidade os ricos nunca foram os bonzinhos e ainda não será agora que isso irá acontecer. Podia agora dizer que cabe-nos contrariar esta tendência natural de concentração de riqueza, mas agora tenho que ir trabalhar para pôr o meu dinheiro num banco controlado por bilionários.

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