Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente no LUX24.

Na última semana, José António Saraiva escreveu sobre o futebol feminino, desporto que tem ganho projeção mediática durante os últimos grandes torneios, incluindo os atuais Euros (como se diz em Inglaterra) onde os bilhetes para a fase a eliminar esgotaram todos.

José António Saraiva não está de acordo com esta tendência, porque o futebol foi “quase exclusivamente um jogo de rapazes” e “coisas ou são naturais ou não funcionam”.

Obviamente o futebol é a coisa mais natural do mundo, e por isso funciona, quem nunca viu uma linha de formigas? Elas estão sempre a tentar colocar as cigarras adversárias em fora-de-jogo. E já alguém viu um chimpanzé a atrasar a bola para o guarda-redes? Claro que não, é natural que eles saibam que isso iria dar um livre indireto.

Outro problema é que o “futebol é um desporto de grande contacto físico, um jogo ‘viril’” “pouco adequado a pessoas frágeis ou com certas características físicas”. Está mais que provado que um jogador argentino com 1.69m de altura e 67 kg nunca poderá ganhar oito prémios de melhor jogador do mundo. Isto é para homens rijos.

Não tenho dúvidas, José António Saraiva é uma pessoa culta que fala com propriedade. O futebol no Século XIX, a época em que ele vive, era praticamente desconhecido em Portugal mas ele já está a par da nova modalidade. Acredito que até saiba que se joga com o pé e com onze jogadores, mas, como é óbvio, ainda lhe faltam alguns conhecimentos.

Quando José António Saraiva vê um jogo de futebol feminino (por engano, claro) arrepia-se “ao ver certos choques, ao assistir a lances em que as jogadoras levam violentas pancadas no peito”. E pergunta: “será que não sofrem com isso? Que, no futuro, não virão a ter problemas por causa disso?”.

Existe alguma confusão naquela cabeça, é certo que naquela época os Castrati ainda andavam pelas óperas a cantar com as suas vozes peculiares, mas o que ele não sabe é que as equipas de futebol não são constituídas por cantores sem testículos e que é bem visível na marcação dum livre a necessidade que jogadores masculinos têm de proteger certas zonas do corpo.

Se pancadas no peito de mulheres lhe fazem confusão, não percebo como é que bolas mais abaixo nos homens não o deixam em risco de enfarte.

Além disso, tantos homens juntos todos nus em balneários é meio caminho para o contágio de doenças como a gripe. E toda a gente sabe como a Gripe dos Homens é bem pior do que qualquer dor que uma mulher possa ter, inclusive no parto.

Temos que desculpar alguém que apesar de uma enorme cultura é traído pela época em que vive. Muitos heróis do passado, hoje em dia não o seriam. Por exemplo, Egas Moniz ganhou o Prémio Nobel da Medicina por achar que retirar partes do cérebro a pessoas vivas era uma boa ideia.

Só que, nos dias de hoje com esta ditadura do politicamente correto, há quem critique a lobotomia. Eu, por exemplo, aceitaria sem restrições que retirassem parte ou mesmo a totalidade do pequeno cérebro de quem escreve barbaridades em jornais. Mas isso é uma opinião muito pessoal.

Temos que colocar as pessoas no tempo em que vivem, e José António Saraiva não pode ser criticado no Século XXI pelas ideias que tem no Século XIX. É preciso olhar para todo o contexto. Só assim a nossa sociedade pode integrar pessoas de diferentes origens cronológicas.

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