Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às quintas no LUX24.

No domingo estou a contar votar nas Eleições Presidenciais. Eu sei, não é uma grande novidade. A maioria dos portugueses está também a pensar o mesmo e, mesmo quem pensa abster-se, não iria escrever um artigo inteiro sobre a sua própria abstenção.

O que torna este meu ato pessoal de ir votar tão especial está nas circunstâncias. Estamos a meio de uma pandemia e eu vivo no estrangeiro, numa cidade a quase 90 quilómetros da capital.

Caso não saibam, ao contrário do que acontece nas legislativas, não existe voto postal para os emigrantes e estes têm que se deslocar ao consulado mais próximo para ir votar. No meu caso isso corresponde a uma viagem de quase 200km mas para outros será uma viagem muito maior.

É este o outro lado da vida de emigrante. Completamente desprotegida em termos de apoio consular, com regras parvas que nos põem mais longe da democracia e do nosso país. Não se admirem, por isso, pelos números da abstenção.

Nem todos os emigrantes podem ou têm a pachorra de percorrer centenas de quilómetros, desviando-se de coronavírus que pululam por todo lado, para enfiar um papelinho num buraquinho.

Mas eu vou, porque nestas eleições está muito mais em jogo do que eleger aquele que já ganhou à partida. Nestas eleições vamos também definir qual é a percentagem de portugueses que é capaz de votar num candidato que tem um discurso misógino, homofóbico, xenófobo e racista.

Vamos conhecer a percentagem de portugueses que não se importa de votar em alguém que atropela todos os outros, que chama bêbados a adversários políticos, que não aceita que as pessoas possam decidir o que vestem ou o que usam nos lábios e que diz que se deviam cortar as mãos a pessoas que roubam. É um excelente teste à democracia portuguesa e eu estou disposto a participar.

O meu voto fará diminuir a percentagem de portugueses que acredita em alguém assim e estou disposto a fazer 200 quilómetros para vincar a minha opinião.

Estas eleições têm um lote de candidatos interessantes à esquerda e à direita. Temos conservadores, democrata-cristãos, temos liberais, temos socialistas e sociais-democratas, temos comunistas. E, para os anti-sistema, até temos o calceteiro que ganhou mais dinheiro à custa do “Pão com Manteiga” do que da política. Haverá alguém mais anti-sistema do que ele?

Porque o outro candidato que se diz anti-sistema é um antigo inspetor da Autoridade Tributária que pediu uma licença sem vencimento para trabalhar numa empresa que “planeia” a fiscalidade dos mais ricos, ajudando-os a evitar o pagamento de impostos. Ou seja, está a ajudar os outros a fugir dele próprio.

Diz-se anti-sistema e anti-corrupção mas apoia o presidente do seu clube mesmo sabendo que este deve milhões ao BES. Uma única pessoa deve ao BES cerca do dobro do que o Estado gasta anualmente no Rendimento Social de Inserção, mas mesmo assim critica este apoio tão essencial à vida de milhares que não tiveram as mesmas oportunidades que ele teve.

Sabem o que é mais estranho do que haver alguém que ataca minorias enquanto defende uma única pessoa que provoca mais despesas ao Estado que essas minorias? É haver alguém que vote nele.

Curiosamente a sua fanfarronice e má-educação foi deitada por terra num debate com o verdadeiro candidato fora do sistema e com umas simples pedras. Ainda não decidi, provavelmente nem irei votar no Tino de Rans, mas ele mostrou que ser simples não significa ser burro e subscrever ideias tão ignóbeis.

Sei que o meu percurso vai ser em vão. Aconteça o que acontecer o tal candidato vai cantar vitória, mas pelo menos não será por minha culpa. Será por todos aqueles que acreditam no discurso fácil ou que preferem ser “anti-sistema” para disfarçar outros ódios que estão mal resolvidos no seu interior.

E será também por causa de todos aqueles que não irão percorrer centenas de metros até ao local de voto por comodismo. Antes de pensarem nisso lembrem-se de mim e de todos os emigrantes que vão fazer um esforço muito maior porque acreditam na democracia e acreditam num futuro sem ódios no nosso país. Mesmo que já lá não morem.

Domingo temos uma das poucas oportunidades de dizer: Não, não queremos esse futuro.

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