Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente no LUX24.

A Rainha Isabel II morreu. Para quem não sabe Isabel II em inglês diz-se Elizabeth II, mais uma prova que em Inglaterra gostam de fazer tudo ao contrário, não basta a condução pela esquerda e as unidades de medida que também trocam Isabel por Elisabete.

A minha relação com a monarquia é muito semelhante à que tenho com a religião. Apesar de não a professar, respeito quem acredita e não sou pessoa para discutir muito a fundo porque há pessoas que a levam demasiado a sério.

O facto de respeitar também se deve ao facto da Rainha ter sido sempre uma pessoa que se deu a respeitar e que, apesar de sempre muito próxima do poder, optou pelo protocolo e cometeu poucos erros em 70 anos de reinado. Agora imaginem se D. Duarte Pio reinasse Portugal durante 70 anos? Seria bem mais deprimente. Ou então mais divertido.

Todos nós temos recordações da Rainha, quase sempre através da televisão, mas eu posso dizer que tive uma relação bastante mais próxima que o comum dos mortais portugueses. Faço mesmo parte do grupo restrito dos milhões de pessoas que a viram ao vivo, mas já lá vamos.

Em 1985, quando eu ainda tinha três anos, Isabel II deslocou-se propositadamente à minha cidade do Porto, numa visita de Estado que, muito provavelmente, aconteceu quando ela teve a notícia do meu nascimento. Todos sabemos que uma Visita de Estado da Rainha demora mais de três anos a preparar.

Dez anos mais tarde pude retribuir essa amabilidade, viajando até Londres, onde tive a oportunidade de ver o render da guarda no Palácio de Buckingham num dia em que a bandeira que assinala a presença da Rainha no palácio estava hasteada. Foram apenas metros a separar-nos.

Mas só em 2011 trocámos olhares. Num local bastante óbvio, claro. Estava eu a caminhar em direção ao estádio para ver um jogo de futebol entre o FC Porto e o SC Braga quando subitamente pelas ruas desertas vem um Range Rover em que uma senhora no banco de trás acena veementemente com o rodar de pulso.

De certeza que me estava a reconhecer, caso contrário não acenaria, duvido que ela acene para desconhecidos. Não a vi no estádio, mas devia estar no meio dos Super Dragões, não fosse o Santo Padroeiro do país alguém com uma ligação forte a dragões.

No ano seguinte emigrei para o seu país e a partir daí passei a andar sempre com uma recordação sua na carteira. Seja na forma de retrato estampado em papel retangular seja com o seu perfil gravado em peças de metal circulares. Durante dez anos foi, e é, uma presença constante no meu dia-a-dia.

Em 2018, tive que lhe jurar fidelidade para obter um passaporte que me permite ter menos problemas ao entrar no país. Apesar de não ser monárquico, não foi difícil jurar fidelidade, nunca me passou pela cabeça traí-la com alguém de outra família real. Seria terrível para a Rainha saber que um súbdito teve um caso com uma prima.

Esta semana, na terça-feira, recebeu Boris Johnson e Liz Truss, despedindo-se do seu penúltimo primeiro-ministro e dando um olá e um adeus à sua última primeira-ministra. Aquela que há uns anos tinha dito que “ninguém devia ser Chefe de Estado só porque veio de determinada família”.

Por coincidência, dois dias depois falecia. Resistiu a uma guerra mundial, setenta anos de reinado e a 170 primeiros-ministros (incluindo países que ainda a tinham como líder), mas não ao governo de Liz Truss.

Talvez já fosse demasiado, sobretudo tendo em conta que o primeiro de todos tinha sido Winston Churchill.

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