Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às quintas no LUX24.

Não gosto da sensação de ter pena. Nunca gostei que tivessem pena de mim e quando aquele frango de cabidela ainda tem restos de penas, ponho essa pele de lado e não lhe toco. No entanto há três situações que me causam pena: golfinhos presos nas redes dos pescadores, gatinhos abandonados em lixeiras e pessoas que vão a festas por engano quando pensam que estão a ir a reuniões de trabalho. E, esta semana, tive pena de Boris Johnson pela primeira vez.

Não porque se tenha transformado num golfinho ou tenha feito um vídeo no tiktok com um filtro a transformar a sua cara num gatinho, mas sim porque foi a uma festa no dia 20 de Maio de 2020, no pico do confinamento, realizada no seu próprio jardim, quando pensava tratar-se de uma tarde normal de trabalho.

Quem nunca confundiu um copo de balão de gin com um candeeiro de secretária? Ou mesmo um sommelier com o Guedes do economato? Até parece que um senhor a cortar presunto não passa perfeitamente por uma máquina trituradora de documentos. Muitas vezes, eu próprio, enquanto estou em frente ao computador a bater código, fecho os olhos e penso que estou no Lux (sem o 24).

A forma ritmada com que bato nas teclas parece um transe psicadélico. E agora, com o advento do trabalho remoto, toda a música que se ouve enquanto se trabalha de casa pode ser considerada House Music.

Para além do mais, os partidos em inglês são parties, pelo que é muito fácil um Primeiro-Ministro confundir uma despedida de solteiro com um trabalho partidário sobre veados (quem souber inglês ou usar o Google Translate vai-me entender).

Quando Boris Johnson desceu as escadas de sua casa para juntar-se a pessoas com flutes de Moët & Chandon nas mãos pensou inocentemente que estava a entrar num partido. E quando recebeu um email convidando-o para uma “Good Party” por certo lembrou-se dos tempos de faculdade em que ainda diziam que ele era um bom partido.

Além disso, com o disseminar da notícia pelo mundo, divulgou a todos uma velha tradição britânica até aqui desconhecida no estrangeiro, o BYOB, que significa “Traga a Sua Própria Bebida Alcoólica”. Claro que existem tradições semelhantes noutros países, mas o BYOB destaca-se de todas.

Ainda me lembro do tempo em que os meus pais cobravam multas aos convidados das suas festas de S. Martinho nos anos 90 e os autuados eram obrigados a trazer um salgado, um doce e uma bebida.

Mas sempre foi um conceito demasiado abrangente, enquanto o BYOB é único porque concentra todo o foco na bebida alcoólica, fundamental para o sucesso de um evento britânico. Não há aqui ninguém a trazer rissóis de camarão e Um Bongo, no mínimo é de esperar que cada convidado traga seis latas de Stella Artois ou Heineken.

E não se pense que é um conceito que se limita a festas de escritório, o BYOB é tão transversal que há restaurantes sem licença para vender álcool que permitem que os seus clientes levem de casa as suas bebidas cobrando uma taxa para retirar a rolha (mesmo que as bebidas não tenham rolha eles cobram a taxa, porque os donos dos restaurantes são suficientemente sóbrios para não serem estúpidos).

Daí que Boris Johnson, ao ser do Partido Conservador, não fez mais do que a sua obrigação de conservar uma velha tradição do país e divulgá-la pelo mundo todo, mesmo que por engano tenha ido a uma festa pensando ser trabalho.

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