Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às quintas no LUX24.

Tive o privilégio de ir a Portugal no último fim-de-semana antes das eleições autárquicas e confesso que fiquei deveras surpreendido.

Todos conhecemos o potencial humorístico destas eleições e ninguém se esquece de muitos tesourinhos que têm aparecido nas redes sociais na última dezena e meia de anos. Essa estava a ser a tendência, pouco dinheiro disponível para campanha na rua e tantas oportunidades a abrirem-se pelos facebooks e instagrams da vida.

Para quê gastar dinheiro num cartaz em cima de uma rotunda quando “Todos pela Branca” pode ser um slogan que entra nos ouvidos de dez milhões de pessoas?

Para quê encher um pavilhão gimnodesportivo de cadeiras de plástico quando o nome do Sr. Chocolate Contradanças pode ser conhecido nacionalmente como alguém capaz de revolucionar a toponímia municipal?

Acontece que este ano parece que tudo mudou. Subitamente parece que por baixo de todos os edifícios das Uniões de Freguesia existe um poço de petróleo e uma mina de ouro.

Todas as bandeiras, cartazes e momentos musicais regressaram em força como se de repente se tivesse cortado uma fita de anos que vão de 1999 a 2020. Fui completamente atropelado pela força das campanhas eleitorais.

Também não é muito difícil ser atropelado nos dias de hoje, tal o número de automóveis que circula nas caravanas, sobretudo nas zonas rurais. Se nas cidades as arruadas são mais comuns, com Zés Pereiras a bombardear os ouvidos dos transeuntes, fora das zonas urbanas, como é muito cansativo calcorrear todas as ruas das freguesias, é a caravana automóvel a marcar o ritmo da propaganda eleitoral.

Isso deu-me que pensar. Quando voto nas autárquicas procuro uma solução política que reduza o congestionamento automóvel, que aposte nos transportes suaves e nos transportes públicos, que resolva problemas como o ruído e a poluição atmosférica e que tenha preocupação com as alterações climáticas.

Ora, uma fila de 322 automóveis, entre o pára-arranca e os 10 km/h de velocidade, a apitar e a deitar gases dos escapes, assustando e atrasando o cidadão comum, não será propriamente algo que me vai seduzir para eu colocar a cruzinha à frente do seu nome.

Mas estas mudanças em termos de investimento na campanha também se refletiram nas velhas e boas redes sociais.

Já não há tantos vídeos feitos por aquele senhor que aos sábados filmava casamentos e produzia um conteúdo familiar em VHS por umas dezenas de contos.

Ao nível audiovisual aquele travelling tremido foi substituído por drones que filmam em 4K e aquele som ventoso que cobria os discursos foram substituídos por Surround 5.1.

Até as músicas já não são tiradas daquele DVD de karaoke, sendo produzidas em estúdios onde gravaram grandes nomes como Augusto Canário ou Rosinha.

No meio disso tudo, só é pena que a lírica continue um bocado aquém do profissionalismo. Também é um trabalho difícil para poetas e letristas meter na mesma estrofe ideias como repavimentação e capela mortuária, essenciais para bons resultados nestas eleições.

Mas, para finalizar posso deixar umas quadras que poderão ser musicadas no futuro:

 

Vamos trazer à sua área

A repavimentação

E terá a capela mortuária

Num local sempre à mão

 

Vamos meter piso sintético

No nosso campo de jogos

E no plano ético

Vamos acabar com os fogos

 

Vamos melhorar acessibilidade

Às cadeiras de rodas

E às árvores na Avenida da Liberdade

Vão ser feitas podas

 

Vota no nosso movimento

Na tua freguesia

Não votes no jumento

Que só merda fazia

 

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