Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às quintas no LUX24.

É comum vermos discursos dos Primeiros-Ministros britânicos, no meio da rua à frente da porta de uma casa com o número 10 na porta. Trata-se de Downing Street, uma rua com o nome do político Sir George Downing que era dono daqueles terrenos e decidiu construir uma rua sem saída com o seu próprio nome para poder vender casas.

Longe estava ele de saber que aquela sua rua iria, ela própria, entrar por milhões de casas adentro em todo o mundo séculos depois.

O cenário desses discursos é criado à imagem do próprio regime britânico. Um cenário simples e austero na fachada, mas luxuosamente complexo no seu interior. Parece a porta de uma casa simples numa rua simples que por acaso tem um palanque plantado no meio do asfalto. Mas não é bem assim.

O palanque é posto no meio da rua porque não passam ali carros. A rua sem saída de aparência simples nunca é acedida pelo cidadão comum, já que a sua entrada está barrada por uma fortaleza de grades, câmaras e polícias.

E a casa, que se apresenta como residência oficial do primeiro-ministro, é onde reside o ministro das finanças.

Ainda acredito que um dia, no final de uma conferência de imprensa, Boris Johnson tenta abrir a porta e esta está fechada, até que Rishi Sunak a abra, saído do banho e com a toalha à cintura para deixar o primeiro-ministro entrar na sua própria casa só para ficar bonito na fotografia.

Na verdade, Boris Johnson vive na porta ao lado, o número 11 (naquela rua não usam o padrão pares de um lado e ímpares do outro). Isto porque é um apartamento bem mais espaçoso que o oficial. É assim desde Tony Blair, o primeiro-ministro vai para a casa do Ministro das Finanças e manda-o ir viver para a sua.

A novidade desta semana é que o seu antigo assessor, Dominic Cummings, que saiu pela porta pequena do Número 10 há uns meses, decidiu libertar a notícia que Boris Johnson teria renovado aquele apartamento com gastos de 230.000 euros de uma forma irregular.

É que a verba anual destinada a remodelações é de apenas de 35.000 euros. Ou seja, ou foi pago com dinheiro indevido do Estado ou foi financiado um “amigo” ilegalmente. Ou foi ele próprio, mas decidiu ser um benemérito sem dizer nada a ninguém.

Parece já ponto assente que os primeiros-ministros não conseguem resistir a um belo apartamento com todos os luxos. É assim em Lisboa e é assim em Londres.

Falta só agora saber se o melhor amigo de Boris Johnson está ao nível dos melhores amigos portugueses.

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