Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às quintas no LUX24.

Cansaudade: n. f. 1. Sensação de ausência de pessoas gratas e lugares durante cansaço extremo devido a ações nesses lugares com essas pessoas.

Desde pequenos, os portugueses estão habituados a ter um verão com sol, calor e emigrantes. E se no caso do sol e do calor, pode haver um ou outro ano que estes estejam mais ou menos desaparecidos, no caso dos emigrantes a sua presença está sempre assegurada.

Tal como em todos os casamentos há sempre aquele casal que faz muito estardalhaço na pista de dança, nas praias portuguesas há sempre aquela família que faz dançar palavras em francês e português como ninguém.

Para os que nunca emigraram existe uma vaga ideia de como serão os preparativos da viagem para Portugal. Uma seleção minuciosa da agência de aluguer de automóveis para levar aquele SUV preto capaz de sobressair na aldeia-natal. Depois disso, contar todas as poupanças do ano para ver se chegam para o aluguer (99% do orçamento) e para a viagem em si.

Estando estes dois problemas resolvidos é hora de se lançarem à estrada, tentando fazer uma velocidade média superior à de Lewis Hamilton no Grande Prémio do Barém. Já em Portugal, é hora de mostrarem a sua vida bem sucedida, feita de roupas de marca, um SUV novo a cada ano e um domínio perfeito da língua estrangeira. Ao fim de um mês é hora de regressarem, devolverem o carro alugado e passarem mais um ano a comer bolachas de água e sal para poderem repetir a façanha no verão seguinte.

Esta era a minha ideia das férias dos emigrantes, mas não podia estar mais errado. Pode ter sido verdade para uns, mas hoje em dia, nenhum dos emigrantes que eu conheço tem esta vida.

Os preparativos para a viagem começam com a compra de um bilhete de uma companhia aérea de baixo custo, que só é de baixo custo em época baixa, já que aumentam os preços 400% durante o verão. Depois segue-se a ginástica de conseguir enfiar prendas para a família numa mochila do tamanho de um esquilo onde não cabe mais nada, o que significa que se vai usar o mesmo par de cuecas durante as duas semanas de férias (e não um mês, como eu pensava).

Chegados a Portugal é hora, aí sim, de alugar um veículo, já que o país não é muito conivente com outros modos de transporte. Só que em lugar de um SUV topo de gama, o único disponível a preços acessíveis é um Opel Corsa de 1988 com vidros que abrem com manivelas. Por “preços acessíveis” refiro-me a um rim e dois fígados em bom estado para transplante.

E quando estamos preparados para mostrar todo o nosso domínio de duas línguas misturadas, apercebemo-nos que está tudo a arder á nossa volta e que temos imensos fogos para apagar. Há problemas pessoais e familiares em que temos que descobrir porque é que o sobrinho da cunhada do sogro do primo dos nossos pais não falam com eles. Há periquitos a necessitar de ajuda veterinária de emergência após terem ficado com o bico preso num osso de lula. São equipamentos eletrónicos que têm vida própria e que apanham vírus sem que lhes toquem. É aquele anexo de quatro assoalhadas que não se constrói sozinho.

Pelo meio lá se consegue pôr meio pé na areia da praia com um peso enorme na consciência por não se ter ido ao E. Leclerc comprar aquela tarte de amêndoa que só há lá para se levar a mais um jantar de família onde vamos enfardar bacalhau assado com batatas a murro pela oitava vez nas últimas seis refeições. É que, o facto de termos refeições com diferentes pessoas em diferentes casas, implica que repitamos pratos constantemente.

Com tanta acção, as duas semanas passam a correr, e o regresso a casa torna-se iminente, chegando aquela sensação estranha do desejo de voltar a casa, deitar no sofá e esperar que uma sonda nos meta comida na boca para que recuperemos do burnout que tivemos em Portugal.

Ao mesmo tempo a saudade terrível de deixarmos a família e os amigos rodeados de reacendimentos dos fogos que apagámos muito mal. É como uma Síndrome de Estocolmo que ocorre em emigrantes quando voltam da sua terra natal para o país de acolhimento.

É essa sensação que eu tenho, que muitos de nós temos quando regressamos, a Cansaudade.

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