O Povo do Abismo, Jack London

Edição Antígona, 9/2019, 3ª edição

Tradução Ana Barradas

Jack London escreve a miséria como nunca a tinha lido. O Povo do Abismo vive para lá do limiar da dignidade, um passo dentro do buraco é queda no East End londrino, escarpa de pobreza, fome e doença.

O que nos narra um Jack London de aparência transformada, um habitante do abismo procurando empatia com os reais indigentes, é que a vida humana nada vale.

Quartos esconsos que acolhem famílias de 6 pessoas ou mais, gente que nasce e é empilhada onde exista espaço. Falta dignidade, há fome, milhares de pessoas para o mesmo trabalho, salários insignificantes, uma vida a pouco mais do que pão e água. A doença persegue os corpos como uma sentença de morte.

Como se permitiu este cenário, numa Londres no início do século XX? Como se criou o abismo de East End, oposição insalubre e de fronteira estanque com o West End?  Como se convive a dois passos do abismo com tamanha normalidade? Isso tenta perceber London (Jack), como tal apresenta-nos factos e cálculos, exibe uma vivência impressionante do que é ter nada, viver perseguido por ser pobre, ser preso por dormir na rua e encontrar a única solução na morte.

Ser um dos habitantes deste lugar é ao que se propõe o autor, mantendo ligação próxima com a população. Os testemunhos do East End como uma porta que se fecha à esperança.

Bem-vindos ao Abismo. Uma leitura de onde não sairão os mesmos.

“Se é isto que a civilização tem para oferecer ao homem, então mil vezes o estado selvagem, a nudez e os uivos, mil vezes viver no deserto e na brenha, no covil e na caverna, em vez de trucidado pela máquina e pelo Abismo!”

“Quando morre uma criança, e é certo e sabido que algumas têm de morrer, porque 55 por cento das crianças do East End morrem antes dos 5 anos, o corpo é colocado na única divisão da sala. Se forem pessoas muito pobres, o pequeno cadáver aguardará o tempo necessário para se poder reunir o dinheiro do funeral. Durante o dia, o corpo ficará em cima da cama e, durante a noite, como os vivos ocupam a cama, será colocado em cima da mesa onde no dia seguinte comerão o pequeno almoço, depois de voltarem a pousar o corpinho morto em cima da cama.”

As leituras de Márcia Balsas quinzenalmente no LUX24. FOTO © Gil Cardoso

[Márcia Balsas nasceu em Coimbra, em 1977. Foi na infância, na Figueira da Foz, que se apaixonou pelos livros. Descobriu, com o tempo, que a leitura é a melhor das viagens e nunca sai de casa sem (pelo menos) um livro. Procura o silêncio. Esquece-se do relógio e do telemóvel sempre que pode. Um dia vai acordar numa casa feita de livros. Talvez amanhã.]

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