“Mãe, Doce Mar”, de João Pinto Coelho

D. Quixote, 2022

“Mãe, Doce Mar”, ou uma canção de 200 páginas.

Uma narrativa peculiar, que me embalou num ritmo constante. Se há uma métrica oculta? Um propósito do autor para desacelerar leitores apressados? A mim, o texto obrigou a essa cadência. Musicalidade? Poesia? Ou somente o embalo do mar?

Dúvidas que devem permanecer. A sugestão do que poderá ser é parte da magia dos livros.

Não faço questão nas respostas, um bom livro deixa sempre mais perguntas.

Não que, neste caso, deixe pontas soltas, pois é um romance (bem) fechado. Estrutura admirável, bem pensada, uma partitura crescente. As pistas são muitas, mas a última laçada surge onde deveria acontecer. Uma flecha.

Um livro estudado e trabalhado, com nada a apontar.

Tenho muita pena de me deixar levar mais pela estrutura ou forma do que pela história, que é belíssima. Desvantagens de ler como eu leio, sempre a desfazer um entrançado, na busca constante do “como foi feito”. É uma sede “estraga-finais” que só se satisfaz com livros excecionais. Como é o caso.

Sinopse

Deixando a Europa em guerra dos romances anteriores, João Pinto Coelho viaja desta vez até aos EUA para nos oferecer a história fascinante de uma família que não consegue fugir ao seu destino.

Depois de passar a infância num orfanato, Noah conhece finalmente Patience, a mãe, aos doze anos. Mas, apesar de ela fazer tudo para o compensar, nunca se refere ao motivo do abandono; e, por isso, seja na casa de praia de Cape Cod, onde passam temporadas, seja no teatro do Connecticut onde acabam a trabalhar juntos, há um caminho de brasas que teima em separá-los mas que nenhum ousa atravessar.

Quando Noah encontra Frank O’Leary – um jesuíta excêntrico que guia um Rolls-Royce às cores –, descobre nele o amparo que procurava. Mesmo assim, há coisas que o padre prefere guardar para si: os anos de estudante; o bar irlandês de Boston onde ele e os amigos se encharcavam de cerveja e recitavam poemas; e ainda Catherine, a jovem ambiciosa que não temeu desviá-lo da sua vocação.

É, curiosamente, a terrível experiência de solidão num colégio religioso o primeiro segredo que Patience partilhará com Noah; contudo, quando essa confissão se encaixar no relato do padre Frank, ficará no ar o cheiro da tragédia e a revelação que se lhe segue só pode ser mentira.

As leituras de Márcia Balsas quinzenalmente no LUX24. FOTO © Gil Cardoso

[Márcia Balsas nasceu em Coimbra, em 1977. Foi na infância, na Figueira da Foz, que se apaixonou pelos livros. Descobriu, com o tempo, que a leitura é a melhor das viagens e nunca sai de casa sem (pelo menos) um livro. Procura o silêncio. Esquece-se do relógio e do telemóvel sempre que pode. Um dia vai acordar numa casa feita de livros. Talvez amanhã.]

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