Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às sextas no LUX24.

A relação dos ingleses com a sua seleção de futebol numa grande competição faz lembrar a dos adeptos do Sporting com o seu clube, no início acham que vão ser campeões mas quando chega o Natal as esperanças acabam rapidamente. O Natal é quando o homem quiser e o deles surge por volta dos quartos-de-final.

O ano passado, por acaso, o Natal chegou um bocado mais tarde, e chegaram mesmo a acreditar que era possível ganhar um Mundial, recuperando um hino do Euro 96, chamado “It’s coming home”. Eles acham que são a casa do futebol e que um dia ele vai voltar a casa sob a forma de um título internacional.

Mas não aconteceu, pois perderam para a Croácia nas meias-finais e, mais uma vez, Bruxelas levou a melhor no jogo de atribuição do terceiro lugar. A única coisa que resta do futebol estar em casa é um monumento construído aqui em Cambridge, no local onde foram criadas algumas regras do jogo, com granito vindo de uma pedreira situada perto do Estádio do Dragão (sim, é mesmo verdade).

O futebol até vai voltar a casa este ano mas não na forma que eles esperavam, em lugar de títulos de seleções, os ingleses vão ganhar os dois títulos europeus de clubes.

Ao fim e ao cabo faz sentido, se a seleção é composta por jogadores ingleses bacteriologicamente puros (segundo o Rui Santos), os clubes são um caldo de culturas. E toda a gente sabe que este país não vai a lado nenhum sem imigrantes, seja no Sistema Nacional de Saúde, seja no futebol. Quatro equipas inglesas, quatro treinadores de quatro diferentes países e dezenas de nacionalidades nos plantéis (incluindo Inglaterra também, claro), dezenas de origens diferentes, tudo a demonstrar que é na diversidade que está o ganho (e no dinheiro também, vá).

A única parte do futebol inglês em que os imigrantes não estão bem representados é no público dos estádios e isso nota-se.

Ao contrário de alguns mitos que circulam por outros países, na maioria dos estádios, o ambiente que se vive parece saído de um longo bocejo. Já tive oportunidade de ir a alguns estádios e, na generalidade, a maior parte do tempo os adeptos estão vestidos, quietos, sem dizer nenhuma palavra além de oh, uh, yeah.

Volta e meia de um canto qualquer alguém decide cantar uma música básica e o cantar vai-se estendendo lentamente a outros espectadores. Muito longe do ambiente fervilhante do futsal no Luxemburgo ou mesmo de vermos pessoas em tronco nu, com 10 graus negativos, de costas para o campo durante 90 minutos a cantar músicas de lírica extravagante através de um megafone fazendo com que milhares de espectadores os acompanhem empurrando a equipa para a frente.

Quando os ingleses descobrirem a força das claques portuguesas iremos ver pessoas como o Fernando Madureira a ganhar salários milionários e a conduzir Porches pelas ruas de Wolverhampton. O José Castelo Branco, por exemplo, já descobriu este filão, como demonstra o vídeo que publicou após o Rio Ave – Porto.

A única excepção que conheci foi Liverpool, não sei se têm muitos imigrantes na bancada de topo (chamada Kop), mas aquele ambiente é diferente de qualquer outro lugar.

Confesso que me alegrou ver uma equipa internacional, liderada por um Alemão anti-Brexit a trazer a felicidade a milhares de ingleses. Foi daquelas bofetadas de luva branca que não servem para nada mas que nos fazem ficar contentes.

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