De acordo com o «Manual de diagnóstico e estatístico das perturbações mentais (DSM-V) «, o trauma psicológico pode ocorrer quando uma pessoa vivencia diretamente um evento que envolve a morte, risco de vida, ameaça à integridade física, do próprio ou de terceiros (e.g., com especial incidência em amigos e familiares).

Portanto, uma situação traumática é um evento que é extraordinária e que ultrapassa os mecanismos de gestão de stress, bem como os recursos psicológicos de que o indivíduo dispõe. Neste sentido, um trauma psicológico pode provocar na pessoa uma reação emocional intensa e atípica, de medo, impotência, horror, durante e após o evento. Esta reação pode ter um efeito negativo duradouro ao nível dos comportamentos, atitudes e funcionamento psicológico em geral (Baptista & Neto, 2019).

Segundo os psicólogos Richard Tedeschi e Lawrence Calhoun (1990), a teoria do crescimento pós-traumático sugere que os indivíduos podem emergir de traumas ou adversidades tendo alcançado um crescimento pessoal positivo. Esta teoria pressupõe que as pessoas desenvolvem uma nova compreensão de si mesmas, do mundo em que vivem, de como se relacionar com outras pessoas, do tipo de futuro que podem ter e de uma melhor compreensão de como viver a vida.

Crescimento pós-traumático não é sinónimo de resiliência!

Nas palavras de Kanako Taku (1995), professor associado de psicologia na Oakland University, “resiliência é o atributo pessoal ou capacidade de se recuperar. Paralelamente, a resiliência é definida como o processo de adaptação em face de adversidades, traumas, tragédias, ameaças ou fontes significativas de stress (e.g., problemas familiares e de relacionamento, graves problemas de saúde ou fatores de stress financeiros e no local de trabalho). Por mais que a resiliência pressuponha a “recuperação” dessas experiências difíceis, também pode envolver um crescimento pessoal profundo.

Por outro lado, o crescimento pós-traumático refere-se ao que pode acontecer quando alguém que tem dificuldade de se recuperar experimenta um evento traumático que desafia as suas crenças centrais, enfrenta uma luta psicológica (e.g., por exemplo, perturbação de stress pós-traumático) e, em seguida, no final das contas encontra um sentido de crescimento pessoal. No fundo, é um processo que requer muito esforço, tempo e energia.

Antes de semear, seja o que for, é importante ter fé!

Ter fé em tempos de crise é imprescindível. Evidências científicas demonstram que é possível encontrar paz durante, por exemplo, a pandemia da COVID-19.

Miguel Silva, psicólogo, escreve semanalmente às terças no LUX24

A religião e a crença são vistas como uma forma importante de lidar com traumas e angustias (Pargament, 2013). Então, qual o impacto da religião na saúde mental das pessoas? Os resultados dos estudos científicos indicam que existem formas positivas e negativos sobre o enfrentamento religioso, bem como evidências de que a forma como as pessoas vivenciam e expressam a sua fé tem implicações para seu bem-estar e saúde (Raiya & Pargament, 2014).

As formas positivas são:

  1. A religião pode ajudar as pessoas a lidar com as suas dificuldades encorajando-as a reformular os eventos através de uma visão de esperança;
  2. Promover um senso de conexão (e.g., isto pode acontecer através de uma oração, da meditação ou de uma caminhada ao ar livre);
  3. É importante as pessoas usarem as suas crenças de uma forma que as faça se sentirem fortalecidas e esperançosas.

As formas negativas são:

  1. Sentir-se punido por Deus ou sentir raiva de um ser superior;
  2. Colocar tudo nas “mãos de Deus” (e.g., acreditar que Deus está encarregado do seu bem-estar e não tomar as medidas necessárias de proteção);
  3. Enfrentar dilemas morais (e.g., quando as pessoas têm dificuldade em conciliar o seu comportamento com os seus valores morais e espirituais). Um exemplo disso, são os profissionais de saúde que estão na linha da frente no combate à COVID-19. Eles podem descrever a angústia que sentem ao serem forçados a decidir como alocar recursos de manutenção de vida, decisões que os colocam no incômodo papel de “representar Deus”.

A semente do crescimento permitir-nos-á colher uma mudança positiva.

Em primeiro lugar é importante deixar claro que a semente do crescimento, geralmente, leva muito tempo para se concretizar. Para muitas pessoas, esta pandemia tem sido uma espécie de holofote sobre as coisas que são mais importantes (e.g., reservar mais tempo para as coisas/pessoas que nos fazem felizes).

Para avaliar em que medida a pessoa atingiu o crescimento após um trauma, os psicólogos (Tedeschi & Calhoun) usam uma variedade de escalas de autorrelato que procuram avaliar cinco áreas, a saber:

  1. Valorização da vida;
  2. Relações com outras pessoas;
  3. Novas possibilidades na vida;
  4. Força pessoal;
  5. Mudança espiritual.

Um psicólogo pode ajudar as pessoas a desenvolver uma estratégia adequada para seguir em frente!

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