Miguel Silva, psicólogo, escreve semanalmente às terças no LUX24

A parentalidade é definida como o conjunto de ações que os pais realizam para assegurar o desenvolvimento dos filhos. Educar um/a filho/a é um dos desafios mais complexos do mundo moderno. A estrutura da parentalidade é composta por três componentes: cognitiva (e.g., estimular o pensamento crítico), emocional e comportamental (e.g., julgar menos, abraçar mais e impor menos regras).

Educar não é somente impor regras, educar é trabalhar as emoções!

De acordo com o psicoterapeuta Augusto Cury (2014) educar a emoção é a chave: «com palavras inteligentes, os pais transformam cada momento num espetáculo solene. Com um amor maduro, os pais transformam cada minuto numa eternidade. Usando, portanto, as suas palavras e o seu amor, os pais podem mudar o mundo quando mudam o mundo dos seus filhos

Então, o modo como os pais avaliam ou ponderam sobre o papel parental é importante? Sim. Este modo é, desde logo, influenciado pela experiência que tiveram como filhos. Esta herança dos valores e da educação não dura para sempre e precisa, no mínimo, de ser preservada, enriquecida e expandida. Segundo o autor supracitado, tudo aquilo que é de graça tem pouco valor e só os sucessores preservam e enriquecem os bens que receberam.

Na perspetiva de uma nova família, os pais organizam e concretizam o seu papel repetindo, ou procurando contrariar, a forma como os seus próprios pais exerceram a parentalidade. Paralelamente, os pais devem ter em consideração o seguinte: as características da criança (e.g., temperamento, prematuridade ou necessidades educativas especiais); as características dos próprios pais (e.g., personalidade, controlo dos impulsos ou perturbações psicológicas); as características da família (e.g., relação conjugal, número de filhos, presença dos avós ou migrações); e as características do contexto social (e.g., rede social disponível, pobreza ou precariedade do emprego) (Baptista & Neto, 2019).

Assim, surge outro desafio na parentalidade. Este desafio consiste na articulação que ambos os pais têm de fazer dos seus próprios modelos parentais, construindo um modelo conjunto distinto ou articulando, num registo complementar, os seus modelos individuais.

Há crianças que, pelas suas características, podem tornar esta fase muito desafiante. Está disposto a enfrentar este desafio? Afinal, educar nunca foi tão fácil!

Ao longo do tempo têm sido desenvolvidos programas de educação parental para ajudar os pais a desenvolverem padrões de relacionamento saudável com os filhos, que combinem a autoridade, o diálogo e o afeto.

A título de exemplo, se o seu desejo é prevenir que o seu filho/a viva sob a lei do menor esforço, devem ser utilizadas algumas estratégias na relação entre pais e filhos, a saber (Cury, 2011):

  • Use o raciocínio complexo– os elementos mais importantes, que fazem de nós pessoas felizes e realizadas, dependem do uso de um raciocínio “brilhante”. Para tal, será necessária disciplina, agradecimento, gestão da impulsividade, raciocínio profundo e garra!
  • Os grandes sucessos dependem de uma nova agenda– os pais inteligentes devem demonstrar aos filhos que na vida há um processo criativo lento e profundo por trás de tudo.
  • Ensinar o que é a ansiedade produtiva e a ansiedade doentia– A ansiedade produtiva é normal. Ela motiva, anima e gera curiosidade. A ansiedade doentia gera imediatismo, destrói etapas, paralisa e desanima.
  • Invista na felicidade dos outros– Os pais devem ensinar aos filhos uma regra muito importante na psicologia: “a melhor maneira de investir na sua felicidade é investir no bem-estar dos seus amigos, colegas, familiares, no fundo, na humanidade como um todo.”. “Quem vive apenas para si não respira a emoção e precisa de muitos acontecimentos para sentir migalhas de prazer.”.
  • Não seja impulsivo– Não dê respostas rápidas e impensadas. Julgar, sentenciar, comparar, expor os erros dos outros publicamente são grandes exemplos da lei do menor esforço. Use e abuse do silêncio proactivo. É um silêncio em que se cala por fora e se grita por dentro. Este exercício vai promover uma série de questões internas: “devo comprar esta ofensa?”; por que não tenho opinião própria?”.

Erros, falhas e atitudes inapropriadas que os pais cometeram na educação dos filhos não devem ser motivo de desânimo, mas sim de recomeço, de início de uma nova história!

Publicidade
Falhas, erros, imprecisões, sugestões?
Por favor fale connosco.
Publicidade