Miguel Silva, psicólogo, escreve semanalmente às terças no LUX24

Alguma vez ouvir falar no termo «introspeção»?

Introspeção significa olhar para dentro, examinar os próprios estados, conteúdos ou processos mentais conscientes. Este conceito foi desde os primórdios da filosofia até aos finais do século XIX, o método por excelência da psicologia enquanto parte da filosofia (Baptista & Neto, 2019).

No entanto, desde a primeira metade do século XIX este método já era fortemente contestado pela comunidade científica. Inclusive, as mais conhecidas críticas surgiram de Auguste Comte (1848), que negava que uma mesma mente pudesse ser simultaneamente pessoa e objeto de uma observação.

Então, focar a atenção em aspetos que vivem dentro da mente sem enviesar as próprias observações e a dificuldade de expressar por palavras a experiência subjetiva são, portanto, obstáculos importantes a ter em conta quando desejamos “olhar para dentro”.

Este exercício mental implica um estrito controlo dos estímulos e das condições da sua apresentação. Dada a sua complexidade e face às dificuldades vigentes naquela época, a introspeção acabara por cair em decréscimo de popularidade e das próprias questões ligadas aos conteúdos e estruturas da mente consciente.

No entanto, este método está longe de ser démodé. A introspeção é considerada indispensável na avaliação psicológica clínica, sobretudo através de entrevistas e questionários, e usado dessa forma no estudo de numerosas e importantes variáveis psicológicas (e.g., atitudes, opiniões, crenças, emoções e raciocínios) (Baptista & Neto, 2019).

Estudos científicos indicam que a introspeção tem surgido frequentemente associada a estudos neurológicos, correlacionando relatos de experiências subjetivas com a simultânea deteção por meios objetivos (e.g., ressonância magnética funcional) de alterações ocorridas no cérebro. Concomitantemente, os estudos mais recentes permitiram também compreender melhor os limites da introspeção, sabendo-se hoje que os processos cognitivos não são geralmente acessíveis à introspeção e que os relatos a esse respeito resultam de inferências semelhantes às que resultam da observação de outras pessoas (Albertazzi, 2020; Dygert & Jarosz, 2020).

As leituras internas que realizamos diariamente ao nosso “eu” não estão isentas de distorções cognitivas sistemáticas e, por vezes, acabam por carecer de validade em muitas circunstâncias, como na ausência de relação entre a certeza de um julgamento e a sua veracidade.

Se sente que está na hora de alterar a rota da sua visão, então, eis o momento de conectar-se com o seu interior. Esta ligação permitirá analisar os seus pensamentos e é efetivamente uma forma saudável de se conhecer melhor.

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