Miguel Silva, psicólogo, escreve semanalmente às terças no LUX24

Já ouviu falar na palavra empatia? Sabia que este conceito foi aprofundado mais a fundo através das investigações de Theodor Lipps, na Alemanha, no início do século XX? O filósofo e psicólogo alemão decidiu colocar a empatia no centro das suas investigações. Nas décadas subsequentes à sua investigação, verificou-se um aumento significativo do interesse pela empatia, desenvolvendo-se em âmbitos muito diferentes desde a filosofia moral à psicologia e da estética à economia (Caruana, 2019).

Em pleno século XXI, paremos um momento para pensar no seguinte: em que pensa quando se fala de empatia?

Talvez, alguém pensou na questão de ser-se educado, em ter compaixão ou ajudar quem está a atravessar dificuldades na vida. Ou ainda, pensar na facilidade com que algumas pessoas são contagiadas pelas emoções ou, inclusivamente, pelos comportamentos dos outros. Em contrapartida, muitos poderão ter pensado na capacidade de nos pormos na pele do outro para compreender o que pensará ou como reagirá a uma notícia que lhe vamos dar, de percebermos imediatamente o que os outros pretendem e sabermos prever como se comportarão.

Existe também a empatia enquanto aptidão para sabermos acolher o próximo e gostarmos dos outros. Recorda-se do cantor Kurt Cobain, vocalista da banda Nirvana? Numa breve carta de despedida, o cantor mencionou quatro vezes a palavra “empatia” para se referir à capacidade de socializar e de saber estar na companhia dos outros.

  1. «(…) parece ser tão fácil para quem tem empatia dar-se bem com os outros.
  2. (…) tenho uma mulher que é uma deusa e que transpira ambição e empatia.
  3. (…) ainda não consigo ultrapassar a frustração, a culpa e a empatia que tenho por todos.
  4. (…) paz, amor, empatia».

Efetivamente, para analisarmos os mecanismos mentais e neuronais da empatia na compreensão humana devemos ter em linha de conta duas grandes categorias de empatia: a empatia afetiva (e.g., está presente na capacidade de compreender as emoções dos outros) e a empatia cognitiva (e.g., está mais relacionada com o facto de sabermos prever o que outros estão a pensar).

Comecemos pela empatia afetiva. Esta pode estar associada a uma forte motivação que pode verificar-se em duas direções muito diferentes, a saber: por um lado, evoca um sentimento altruísta, pró-social, orientado para a ajuda do próximo, semelhante ao que chamamos “compaixão” ou “piedade”. Por outro lado, a empatia afetiva pode sugerir a resposta contrária, ou seja, um sentimento aversivo, de certa forma egoísta, motivado pelo desejo de nos protegermos dos sentimentos negativos transmitidos pelo indivíduo que estamos a observar (e.g., mudar de canal para não vermos mais notícias sobre a atual pandemia) (Decety & Ickes, 2009).

Relativamente à empatia cognitiva, imaginemos o seguinte exemplo. Imaginemos que temos de levar um gato doente ao veterinário para ser abatido, o animal não está triste, porque não sabe para onde vamos, mas nós sabemos e sentimo-nos tristes por ele. Numa situação desta natureza, o que está em jogo não é o reconhecimento dos sentimentos alheios, mas sim o facto de nós mesmos termos sentimentos suscitados por outros (Gazzaniga, Mangun & Ivry, 2006).

É importante referir que o ser humano não está imune ao sofrimento associado a objetos não sensíveis. Por exemplo, sofrer por causa de um lugar, uma planta ou outras coisas que não suscitam empatia afetiva.

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