Miguel Silva, psicólogo, escreve semanalmente às terças no LUX24

Os relacionamentos entre irmãos têm um papel importante no desenvolvimento e construção da personalidade. Algumas características destes relacionamentos fraternos colocam a própria relação entre irmãos em risco para frequentes conflitos, que podem terminar em violência.

Do ponto de vista social, a sociedade reconhece a existência de violência contra as crianças, parceiros íntimos e idosos, contudo, a consciência da violência fraterna como uma forma séria de violência familiar permanece desconhecida (Monteiro & Cunha, 2019).
Sabia que a violência entre irmãos pode ser a forma mais comum de violência familiar (Straus, Gelles & Steinmetz, 1980)?

A psicologia diz-nos que a desigualdade parece ser um dos motivos principais para os conflitos e para a violência e com poucas exceções, ela atravessa todas as sociedades e todas as épocas da humanidade (Scheidel, 2018). As famílias estão inteiramente incluídas nestas dinâmicas porque não há sociedades sem famílias, e vice-versa.

Segundo Chesnais (1981), as famílias são os grupos sociais mais geradores de violência, ao ponto de dizer-se que há mais probabilidade de se ser morto na família do que fora dela. A título de exemplo, relativamente ao tema da violência doméstica, em Portugal, os números falam por si e morre-se mais por mãos e ódios familiares.

Dentro da família existem muitos subgrupos, com funções e relações diferenciadas (e.g., violências parentais, de pais para filhos e de filhos em relação aos pais e conflitos fraternais.). Evidências científicas indicam que os conflitos entre irmãos parecem ser mais frequentes do que qualquer outro conflito na família (Widmer, 1999).

Quando nasce o segundo filho, nasce a fratria. Portanto, a fratria é o conjunto dos irmãos e as relações nesse grupo são normalmente designadas por relações fraternais como já referido anteriormente.

No início estas relações podem ser menos “positivas” devido à disputa do amor parental e ao desenvolvimento de relações ambivalentes, de amor e ódio, de inveja e ciúme, de solidariedade e empatia, mas também de antagonismo e violência (Fernandes, 2002).

Assim, os conflitos fraternais são, portanto, normais e, quase sempre, passageiros e contornáveis! Em termos de frequência, são o primeiro conflito familiar e podem manifestar-se com uma certa naturalidade, porque o medo da rutura definitiva é menor do que nas outras relações familiares e, até, sociais.

Então, como gerir os conflitos entre irmãos?

Em primeiro lugar, os conflitos na fratria dependem, então, e essencialmente, da forma como a família (sobretudo os pais) lida com os comportamentos violentos entre as crianças. Os pais, logo após o nascimento do segundo filho, sabem que têm de cuidar dos filhos, mas também gerir as relações entre eles.

Efetivamente, são os pais que, em grande medida, vigiam, controlam, delimitam e estabelecem a qualidade e a quantidade dos comportamentos de rivalidade entre os filhos (mesmo o modo como o casal gere os seus próprios conflitos serve de modelo para os filhos).

Em segundo lugar, perante as pequenas ou grandes discussões diárias entre os irmãos, a melhor atitude dos pais é:

1. Fazerem “vista grossa”. Deixarem que os filhos regulem os problemas entre eles (Oliveira, 1994);

2. Fundamental que os pais não se envolvam demasiado na gestão das relações entre irmãos, pois correm o risco de “triangulá-las nas situações de tensão ou de conflito” e abrirem “as portas para as alianças e coligações transgeracionais que em nada facilitam a comunicação e o funcionamento dos subsistemas familiares” (Alarcão, 2000);

3. Intervir em casos de desigualdades existentes entre os irmãos, derivadas das suas diferentes idades (e.g., os mais velhos estarão em vantagem, por serem mais fortes, do ponto de vista físico, cognitivo, afetivo e social e sem a interferência dos pais, os mais novos seriam, quase sempre, esmagados pelo poder dos mais velhos);

4. Os pais devem ter presente que é um facto normal e natural ter sentimentos diferentes em relação a crianças diferentes e que apreciar a individualidade de cada criança é considerá-la tal qual ela é, agindo de forma a que cada criança se sinta a primeira.

Portanto, cada filho recebe segundo a sua necessidade individual e os pais descobrirão uma forma nova, libertadora, de serem justos (Faber e Mazlish, 1995).

A ocorrência de conflitos entre irmãos, apesar de assumir aspetos positivos, podem evoluir para outros patamares mais complexos com sérias ou dramáticas consequências para os seus intervenientes. Compreender já é um passo para a remediação. Um psicólogo pode ajudar.

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