Miguel Silva, psicólogo, escreve semanalmente às terças no LUX24.

As eleições presidenciais portuguesas de 2021 realizar-se-ão a 24 de janeiro e a previsão para os próximos dias será de alerta “vermelho”.

Nos últimos dias verificou-se uma onda de solidariedade em torno da candidata presidencial bloquista, Marisa Matias, a propósito do uso do batom vermelho e dos insultos por parte da extrema-direita. Assim, nasce o movimento #VermelhoemBelém que conta com o apoio de várias pessoas, incluindo, figuras públicas em Portugal.

Do ponto de vista da psicologia política, esta pode ser entendida como o campo da psicologia debruçado no modo como as pessoas pensam os fatores políticos e as consequências dessa forma de pensar sobre o seu comportamento político.

Embora esta vertente da psicologia seja relativamente recente, o interesse pelo cruzamento disciplinar da política e da psicologia é antigo, remetendo para influências do autor como Sigmund Freud (e.g., sobre o mal-estar civilizacional).

De acordo com Baptista e Neto (2019), os tópicos de interesse da psicologia política podem ir desde níveis micro, como a personalidade autoritária, até fatores macro como:
1. Os movimentos de massas;
2. Os fatores institucionais que contextualizam o poder;
3. A dimensão sociomaterial que influencia o comportamento humano.

O impacto do estatuto na saúde mental.

O termo estatuto, ou status, designa da posição que a pessoa ocupa num sistema social e está relacionado com o desempenho de papel ou papéis definidos socialmente (e.g., papel de pai ou mãe, polícia, político, juiz, entre outros.).

Estatuto e papel são, portanto, termos interrelacionados, correspondendo o papel às expetativas da sociedade no que respeita às funções desempenhadas pelo individuo e o estatuto à expectativa do individuo em termos de prestígio, benefícios ou comportamentos por parte da sociedade (Amaro, 2019).

As investigações, em psicologia, têm mostrado haver uma relação entre status e problemas de saúde mental, sendo os determinantes sociais da saúde mental identificados principalmente com os problemas resultantes da estrutura e desigualdade sociais.

Então, o estatuto socioeconómico baixo tem impacto na saúde mental?

Sim. Este impacto tem sido estudado pela comunidade científica. Nesse sentido, destaco o estudo clássico de Faris e Dunham (1939), na cidade de Chicago, mostrou que havia um número mais elevado de pessoas com perturbação metal no centro da cidade, caraterizado pela pobreza, baixas condições de habitação, conflitos étnicos e famílias desorganizadas.

O impacto da violência na saúde mental.

O termo violência tem sido alvo de inúmeras definições, dependendo do contexto (e.g., saúde, bem-estar social ou justiça criminal), bem como de algumas imprecisões e controvérsias (e.g., ausência de distinção entre atos violentos e outros atos diferentes, como acidentes) (Hamby, 2017).

O recurso à violência tem sido percebido como resultado da interação de múltiplos fatores (e.g., individuais, relacionais, sociais, políticos, culturais e ambientais) os quais devem ser considerados de forma a alcançar-se uma compreensão total do mesmo (Saavedra, 2016).

Para tal, de acordo com Caridade (2019), há que atender a quatro aspetos, considerando-se a violência como um comportamento que é, a saber:
1) Intencional;
2) Indesejável;
3) Não essencial;
4) Prejudicial.

Assim, estes aspetos permitirão integrar adequadamente todos os atos que pertencem à categoria e excluir outros atos semelhantes que não são violência, como autodefesa (e.g., uma forma de agressão, mas não uma forma de violência), acidentes, entre outros (Hamby, 2017).

A Organização Mundial de Saúde (OMS, 2002), propõe a existência de três tipos de violência:
1. Violência autoinfligida- ou seja, na qual se incluem comportamentos ou intenções suicidas e automutilação;
2. Violência coletiva- portanto, é dirigida a um grupo ou comunidade, com o objetivo de alcançar determinadas metas políticas, económicas ou sociais;
3. Violência interpessoal- que envolve a violência entre indivíduos, podendo ser subdividida em violência intima e familiar (e.g., manifestada entre membros da mesma família ou parceiros íntimos) e a violência comunitária, a qual ocorre entre pessoas sem qualquer ligação (e.g., violência entre jovens, violência sexual ou violação por desconhecidos).

A violência, do ponto de vista da saúde pública, poderá ter impacto em diferentes áreas, seja na saúde (e.g., física e mental), na justiça criminal ou no bem-estar social, podendo comprometer o desenvolvimento social.

Seja responsável. Pense na sua saúde mental e evite comportamentos à ventura. Um psicólogo pode ajudar.

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