O psicólogo Miguel Silva, escreve semanalmente no LUX24.

O número de vítimas de acidente vascular cerebral (AVC), a nível mundial, ascende os 5,5 milhões de pessoas. Esta é considerada a segunda causa de morte nos países desenvolvidos e a terceira causa de incapacidade, com cerca de 80 milhões de sobreviventes estimados (Silva. 2021).

Um AVC surge quando não há circulação sanguínea suficiente no cérebro que, por sua vez, leva a danos permanentes nos tecidos, causados por eventos trombóticos, embólicos ou hemorrágicos (Robinson & Jorge, 2016). As consequências são várias e vão das limitações físicas, às alterações cognitivas, psicoemocionais e comportamentais, com todo o impato que daí advém (Taylor, Todman & Broomfield, 2011).

A pandemia da COVID-19 colocou uma enorme pressão sobre os serviços de saúde, com maior implicação nos cuidados de saúde prestados quer aos doentes COVID-19, quer aos doentes não COVID-19.

A nível neurológico, o vírus pode atingir o cérebro e os sintomas mais comuns são:

  1. Cefaleia (dor de cabeça)
  2. Anosmia (perda de olfato)
  3. Ageusia (perda de sabor)
  4. Outras manifestações neurológicas (a doença vascular cerebral; as infeções do sistema nervoso central; as crises epiléticas; e as manifestações neuromusculares)

Relativamente ao risco de AVC nas pessoas infetadas com o vírus, cerca de 1,5% dos doentes com COVID-19, em especial as pessaos com infeções mais graves, têm AVC e este tende a ser mais grave o que leva a uma maior mortalidade (Fonseca, 2021).

A função do psicólogo no trabalho com pessoas que sofreram um AVC pressupõe, portanto, que simultaneamente se avalie e se atue sobre vários componentes (por exemplo, cognitivo; psicoemocional; e alterações familiares).

As alterações cognitivas têm um impacto muito forte na qualidade de vida de uma pessoa após um AVC, reduzindo frequentemente o nível de independência indivídual (Hoffmann, Bennett, Koh, & McKenna, 2010). Naturalmente que estas alterações, após o AVC, dependem da zona da lesão e dificilmente se centram num só domínio, incluindo normalmente a atenção, a memória, o funcionamento executivo e as alterações metacognitivas (Barrett, 2010; Leung & Liu, 2011).

As alterações psicoemocionais decorrentes do AVC são, geralmente, resultado da reação face à incapacidade e às alterações que se produziram nas redes neuronais que processam as emoções.

De um modo geral, as lesões do lado direito reduzem a ativação das emoções, o que resulta em disprosódia emocional, e as lesões esquerdas podem resultar numa reação emocional exacerbada, caracterizada por frustração, depressão e raiva, que tende a desaparecer e reaparecer repentinamente, sobretudo quando a pessoa enfrenta tarefas que não é capaz de realizar (Albert, 2018).

Por último, mas não menos importante (bem pelo contrário!), temos as alterações familiares.

Um AVC afeta todo o sistema familiar. Na maioria das situações, o suporte é prestado por um familiar, que, para além do apoio direto, se confronta repentinamente com várias responsabilidades emocionais, sociais, estruturais e financeiras, colocando-o muitas vezes em risco, com consequências negativas para a sua saúde (Greenwood, Mackenzie, Cloud & Wilson, 2010).

A intervenção com a família deve começar antes da integração do familiar com AVC no meio natural. É importantíssimo facilitar a compreensão do tema e das suas características, promover o treino das estratégias de comunicação e gestão comportamental mais eficazes e, por fim, antecipar os desafios e a possível necessidade de redefinição de papéis (Silva, 2021).

O AVC pressupõe uma intervenção multidisciplinar com o intuito de promover a funcionalidade e a qualidade de vida da pessoa que o sofreu.

Um psicólogo pode ajudar!

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