Facebook
Twitter
Pinterest
WhatsApp
Bruno Gonçalves Gomes, dirigente da Associação Letras Nómadas AIDC, escreve quinzenalmente no LUX24. FOTO: Sérgio Aires

Atravessamos os momentos mais difíceis desde o início da pandemia, a rutura do sistema nacional de saúde está por um fio, infelizmente já ultrapassámos a barreira das 3 centenas de mortos e a dos 15 mil infetados diários.

O humano tem necessidade de encontrar culpados para este terror que nos sobreveio, a satisfação de encontrar a culpa de alguém é maior do que a solidariedade. Ao governo são direcionados os ataques e cobram-se erros de gestão das vagas da pandemia, não compreendo o porquê de tanta cobrança quando tudo indicava que o governo limitasse os ajuntamentos nas festas de natal e ano novo e os portugueses e determinados partidos políticos ficaram logo de bicos de pé e “exigiram” que as festas se realizassem dentro de regras mais flexíveis.

Estamos hoje a viver momentos dramáticos em grande parte pela flexibilidade cobrada ao governo. Marta Temido, a Ministra da Saúde, tem sido incansável dentro das condicionantes impostas pelo vírus, corroboro quando diz que é criminoso que se responsabilize só o governo pelo galopar do vírus, ela tem razão, “todos” os portugueses são culpados, pois desde o final do verão que temos vindo a subestimar o vírus, até para alguns já é banal o elevado numero de mortos e casos de infeção diária.

Com este vírus a relação tem que ser de hostilidade, não podemos aceitar coexistir ou conviver com ele, para tal temos todos que fazer a nossa parte e isso não tem acontecido.

Como um mal nunca vem só, no domingo passado, as eleições presidenciais em certa parte trouxe uma enorme alegria, a continuidade da democracia, 88% dos eleitores portugueses não querem que a democracia adoeça e estes votos representam o antibiótico mais eficaz no combate ao fascismo.

Mas o vírus do fascismo quer ganhar passos, para surpresa de todos, um país que saiu de uma ditadura fascista há 46 anos, obteve cerca de 500 mil votos. O populismo e a propagação do ódio venceram sobretudo nas regiões do Alentejo e interior do país, o fascismo teve luz verde.

Os especialistas políticos encontram teorias para este voto naquelas regiões, uns falam de voto de protesto, outros falam em voto jovem conservador pela primeira vez, outros falam de voto vindo de apoiantes da tauromaquia, mas sobretudo no Alentejo, as regiões que mais votaram no candidato da extrema-direita têm também comunidades ciganas com população expressiva.

Após as eleições conseguimos perceber que o voto foi de ódio e contra os ciganos, pois segundo alguns alentejanos entrevistados numa reportagem na aldeia de Póvoa de São Miguel em Moura, que segundo eles não encontram grandes atritos na relação com as comunidades ciganas, mas a justificam o voto ou não conceberem que as famílias ciganas locais se reproduzam tanto, que na escola tenham 50 alunos ciganos e só seis da sociedade maioritária.

Infelizmente há um sentimento de medo em serem uma minoria no futuro e não percebem que a escola já não lá estaria se não tivesse 50 alunos ciganos, que os filhos ou netos teriam que andar kms para estudarem noutra escola e que o envelhecimento da população da sociedade maioritária implicará que a aldeia fique deserta nos próximos anos.

O analfabetismo político é sem dúvida difícil de perceber, como é que o voto é direcionado para a extrema-direita por causa de 50 mil portugueses ciganos?!

Será que os grandes problemas de Portugal como são os 2 milhões de pobres, os problemas da educação e formação, a falta de competitividade das empresas, o envelhecimento da população e a baixa natalidade, o desemprego jovem, os níveis altíssimos de corrupção do país, as assimetrias entre o litoral e o interior, o défice no combate às alterações climáticas e a falta de educação ambiental e ainda os 11% dos portugueses trabalhadores assalariados que não conseguem sair da pobreza são culpa dos ciganos?!

Publicidade
Falhas, erros, imprecisões, sugestões?
Por favor .
Publicidade