Bruno Gonçalves Gomes, dirigente da Associação Letras Nómadas AIDC.

Periferias, para muitas pessoas esta palavra pode ser sinónimo de muitas coisas, muitas vezes assustadora quando se fala em bairros sociais, sim, porque grande parte dos bairros sociais das nossas cidades foram estrategicamente construídos pelos políticos em zonas periféricas, longe do olhar dos demais, inaudíveis, concentrados, isolados.

Posso considerar-me um cidadão periférico, pois sou português cigano e fui “empurrado” a viver num bairro social durante 28 anos, e o facto de ser português cigano é implicitamente associado aos bairros “guetos” sociais periféricos.

Os pobres, os indesejados da sociedade, as minorias étnicas e grupos de imigrantes vistos como os “ranhosos” por grande parte da sociedade. Esta sociedade pressiona politicamente de maneira a que aconteça uma espécie da lei do degredo do século XX e XXI, só que agora os indesejados e os ciganos já não vão fazer trabalhos forçados nas galés ou colonizar as novas terras achadas ou descobertas, dependendo da interpretação de cada um, são enviados para os bairros periféricos…

As políticas de habitação do século XX e XXI em Portugal são do mais terrível que nos podia ter acontecido, a ‘guetização’ de pessoas ou de grupos é um descalabro total, pois a política habitacional nunca teve como objetivos a melhoria habitacional ou a integração das pessoas.

O único desejo político era afastar dos centros das cidades os indesejados, os “ranhosos” para assim facilitar o controlo policial (ter um único foco de problema), guetos apenas com uma entrada e uma única saída para tornar as investidas policiais mais eficazes, guetos construídos sem estarem capacitados com infraestruturas de apoio, vetados ao abandono, cidadãos que foram encaixotados num apartamento de construção duvidosa, materiais de construção de última categoria…

Pela falta de sensibilidade, subserviência a algumas elites de pessoas, alguns autarcas foram pressionados a construir bairros sociais, assistimos hoje a territórios “barris de pólvora”, estas zonas deprimidas além da pobreza são caracterizadas pelas várias culturas dos moradores que origina também uma cultura de bairro que se sente revoltada com a sociedade, sentem-se abandonados e assim desejam a todo o custo manter e conservar traços e as características do bairro, tornando-se algumas vezes inflexíveis às sugestões do exterior…

Seria descabido e injusto dizer que não há agora autarcas e pessoas preocupadas com a problemática das políticas de habitação, mas ainda há alguns que não estão preocupadas com as ditas pessoas dos bairros sociais, estão sim interessados em pacificar esses territórios porque pouco a pouco as cidades têm necessidade de crescer e as ditas periferias têm deixar de ser para serem assimiladas pelo crescimento da cidade, e aí há um despertar de interesses de novas construções, comerciais, industriais etc.

 

Os ‘guetizados’ são sempre pessoas multiplamente discriminados, excluídos socialmente, porque normalmente pertencem a um grupo minoritário, porque é pobre, fatores para os afastar sobretudo do mundo do trabalho. Quantos são aqueles que quando apresentam os Currículos Vitae têm de dar uma outra morada para que não sejam afastados à partida de uma oferta de emprego…

O pensamento de um ‘guetizado’ da periferia é fácil de descortinar: «sou indesejado pelos de fora do bairro, sou visto como inimigo, para quê estudar? Quem nos vai dar emprego? Porque nos olham ou fogem de nós quando vamos ao centro da cidade? Porque sussurram quando nos veem? Não sou encarado como um cidadão mas sim como um estorvo!…».

Apesar da exclusão e processos de autoexclusão, há ‘guetizados’ que conseguem também reconhecer e serem conscientes dos seus problemas e barreiras, também se questionam, e nada melhor que os mesmos para identificarem e priorizarem os seus problemas, elaborarem propostas e contribuírem para a implementação da proposta, certamente que uma ajuda do exterior para organizar ideias é bem-vinda!

Há 20 anos, eu, Bruno Gonçalves, juntamente com outros ‘guetizados’ ciganos e não ciganos decidimos tentar mudar o panorama do gueto onde vivíamos, face ao enorme absentismo escolar nos bairros sociais do Planalto do Ingote, em Coimbra.

 

Assim, em 1999, legalizamos a Associação Cigana de Coimbra que teve como prioridade um projeto de mediação intercultural para a escola, esta tinha 43% de absentismo. No primeiro ano baixou-se para 13% e sucessivamente nos anos seguintes conseguiu-se uma maior normalização escolar e sucesso escolar, a escola que era vista como a pior e mais assustadora de Coimbra, hoje é encarada como uma escola dita “normal”.

Depois de anos de intervenção, 3 antigos alunos entraram na universidade, outros tiveram percursos profissionais de sucesso.

A minimização da problemática nos bairros sociais periféricos passa por uma real vontade política, por uma aposta nas pessoas que lá vivem, possuidoras de enorme talento e competências ainda por descobrir e acima de tudo, delinear estratégias de trabalho não para os, mas com os residentes, o processo diz respeito a eles, eles têm as suas ideias, as suas estratégias, os seus sonhos, senão tiveram o direito de escolher onde deveriam habitar, devem ter o direito de desenhar uma melhor vida de acordo com as bases legais do país, no bairro para onde foram “empurrados” e que os levou a uma desintegração forçada da sociedade…

A política habitacional correta é a disseminação destas pessoas pela malha urbana, fazer como se fazem noutros países, onde os municípios negoceiam com os construtores, terrenos municipais são vendidos a preços mais baixos para construção, com o contrato que um ou dois apartamentos serão para habitação social, requalifiquem-se os centros da cidade, juntem-se que vão ver que não dói!

Bruno Gonçalves Gomes, dirigente da Associação Letras Nómadas AIDC, escreve quinzenalmente ao sábados no LUX24.

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