Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente às quartas no LUX24.
Silvina Queiroz, professora.

Olá a todos! Desejos de saúde e bem-estar. Tantas coisas “estranhas” têm acontecido nos últimos tempos, que estou cansada de tantas notícias e pseudo-notícias, ora tristes, infelizes, ora apalermadas, desculpem os “modos” como falo mas é mesmo assim que tenho sentido estes primeiros dias de começo de ano.

Resolvi “mudar a agulha” e vou hoje falar de algo que muito me diz – a cultura popular nas suas diversas formas: o folclore, os cantares típicos daqui e dali, as máximas repletas de sabedoria, os adágios.

Como o tempo é curto, tive de fazer uma escolha, optando por lembrar “as arremedas” e o seu contraponto, “as desarremedas”, “filosofia” ancestral que a muitos guiou nas suas actividades agrícolas e pecuárias, quando não havia boletim meteorológico e mesmo depois, quando este instrumento era acessível a poucos ou simplesmente incompreensível na sua linguagem técnica.

As “arremedas” procuram confirmar o aforismo popular que reza: ”Em Janeiro, vê o ano inteiro” e há duas “versões” das mesmas consoante diferentes regiões e ainda a conjunção de ambas numa espécie de dupla confirmação.

Então: Diz o Povo na sua imensa sabedoria, de experiências feita, que os doze primeiros dias de Janeiro indicam, imitam, arremedam os doze meses do ano que acabou de nascer! Isto com apontamentozinhos distintos, lembramos “Março, Marçagão, de manhã cara de Inverno, à tarde cara de Verão!”.

O dia 3 (o Março “pequenino”) não foi assim exactamente, aqui por estas bandas, mas foi gelado e com um solinho bom, especialmente da parte da tarde, embora embotado por umas névoas para o seu final. Escrevo estas linhas no dia 14 e 14º mês só existe (e muito bem) nos proventos de quem trabalha ou trabalhou! E no sábado, 12, esteve frio, bastante frio mesmo, mas exibindo um céu lindo e um sol esplendoroso! Acredito que seja este o cenário do próximo Dezembro!

Mas vamos às “desarremedas”! Estas seguem fielmente a lógica das suas congéneres e vão de 13 a 24 de Janeiro. A fazer fé nestes ensinamentos, Novembro será igualmente bonito, luminoso mas bastante geladito” (E quem ainda não teve a oportunidade, venha à Figueira da Foz neste mês e observe o pôr do sol, o mais espectacular de todo o ano e de todo o lugar!).

Para além destas “ferramentas” de conhecimento meteorológico, têm os pescadores e agricultores um outro precioso auxiliar: o Borda D´Água, publicado desde 1929, sem interrupções, pela Editorial Minerva. Porque o meu gosto por tudo o que deriva do Povo e das suas inestimáveis experiências, (tantas vezes apropriadas por outros), me atrai, “mea culpa”, ainda não adquiri o livrinho este ano. Mas não falharei!

Uma coisa me aborrece: a ilustração da capa. Tendo em conta o objecto do almanaque – conselhos sobre culturas agrícolas, fases da Lua, marés, provérbios e “medicinas” populares, qual o sentido do figurão emproado, anafado e bem vestido, um fidalgote que, se tivesse vida real, provavelmente não distinguiria uma sachola de uma enxada?!

Mantendo o Borda D’Água a sua linha editorial desde os seus princípios, nem quero pensar que o gordinho do chapéu alto e lustrosas vestes fosse a imagem do “dono daquilo tudo”, ideia que se me afigura possível dada a época em causa: o ascenso do famigerado Estado Novo!

Concluindo: Muito sabe o Povo, pena é que nem sempre o levem tão a sério como mereceria! “Janeiro fora, cresce o dia uma hora”, também nos ensinaram. E as noites de luar magnífico estão mesmo, mesmo a chegar!

Fiquem bem. Um abraço amigo.

 

Silvina Queiroz, professora, escreve às quartas no LUX24.

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