Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente às quartas no LUX24.
Silvina Queiroz, professora.

Bom dia, meus caros. Ontem, 20 de Novembro, cumpriram-se 29 anos sobre a assinatura da Convenção dos Direitos da Criança, pela Assembleia Geral das Nações Unidas. É de algum modo estranho que um assunto tão sensível só tivesse sido “escrito” há pouco mais de uma década da entrada no século XXI!

A preocupação, contudo, vinha de longe. Homenageando todos os que batalharam para que os direitos das crianças fossem reconhecidos e respeitados, venho hoje lembrar a história de vida de Mary Ellen Wilson, uma menina americana nascida em Março de 1864.

Pouco depois do seu nascimento, Thomas Wilson, o pai, faleceu, deixando a viúva, Frances de seu nome, na mais completa vulnerabilidade, precisando arranjar trabalho fora de casa. Para o poder fazer e assim garantir a subsistência de mãe e filha, Frances fez o que, na altura, era muito comum: Entregou Mary Ellen a uma ama, em regime de internato, pagando pelo serviço e visitando a criança conforme o contratualizado.

Mas como “uma desgraça nunca vem só”, Frances perdeu o emprego e deixou de poder pagar à ama, não visitando mais a menina. Mary Score, então, entregou a criança a uma instituição e quando Frances apareceu, foi-lhe dito que a filha havia morrido! Imaginemos o desespero da pobre mãe!

Entretanto, Mary Ellen foi entregue, ilegalmente, ao casal McCormack, tendo estes recebido contrapartidas financeiras. Thomas McCormack falece e a esposa, Mary, passa a maltratar severamente a menina: sovando-a, chicoteando-a, obrigando-a a trabalhos pesados, não a alimentando nem vestindo convenientemente.

 

Mary Ellen Wilson

 

Pouco depois, Mary casa de novo, desta vez com Francis Connolly. Mudam-se os três para um apartamento na Rua 41, em Nova York e aqui os vizinhos começam a aperceber-se da situação, porque ouvem a criança, batendo nas paredes e gritando, quando é deixada sozinha e fechada num cubículo sem qualquer luz.

Contactam a missionária Etta Wheeler, que desenvolvia trabalho social na área. Esta sob o pretexto de pedir apoio para uma doente crónica e acamada do bairro, consegue entrar na casa e ter um vislumbre de Mary Ellen: lavando uma panela pesada, envergando um andrajoso vestidito absolutamente inadequado para a época, descalça, num gélido dia de Dezembro, e com marcas visíveis de agressões.

Etta “move os céus e a terra”, revoltada com a situação. Contacta as autoridades que dizem nada poder fazer, por falta de legislação enquadradora! As crianças eram consideradas “propriedade” dos pais, podendo estes dispor delas a seu belo prazer! Etta não desiste.

Aborda uma organização de defesa animal, porque os bichos já tinham seus direitos reconhecidos! Argumentando que Mary Ellen era também um animal, e, portanto, abrangida pelos seus direitos, conseguem a retirada da criança de casa dos McCormack. Mary McCormack é levada a tribunal.

Aí a menina profere um testemunho arrepiante: “A mãe batia-me e chicotava-me quase todos os dias e nunca dizia nada. Não sei por que me batia. Fazia-me nódoas negras e azuis e cortou-me com uma tesoura na testa….”. Acrescenta que nunca saiu à rua ou falou com qualquer pessoa. Apenas a deixavam ir, de noite, ao saguão da casa.

A horrível mulher foi condenada a um ano de prisão com trabalhos forçados e Mary Ellen adoptada posteriormente pela família de Etta. O seu caso levou à criação da primeira organização destinada a proteger crianças em risco.

Mary Ellen é, finalmente, feliz! Casa aos 24 anos, tem dois filhos e mais tarde adopta uma menina órfã. Morreu aos 92 anos, deixando-nos esta história de sofrimento e amor.

Vivam os direitos das crianças! Elas são a nossa maior riqueza! Um beijinho especial para as vossas, meus amigos.

*Silvina Queiroz, professora, escreve às quartas no LUX24.

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