A coesão entre profissões e sindicados, dificilmente encontrada em França nos últimos anos, foi conseguida esta quinta-feira (05) na greve geral e nas manifestações com ela relacionadas que em Paris, segundo os sindicatos, contaram com mais de 250 mil pessoas.

A convicção de sindicalistas ouvidos pela agência Lusa é que o protesto só acaba quando o Governo recuar no projecto de reforma do sistema de pensões, ideia reforçada pelo facto de a greve se ter generalizado a todos os sectores da sociedade francesa, com cortejos nalguns pontos perturbados por ‘black blocs’ [grupos que se reúnem, mascarados e vestidos de preto, para protestar em manifestações de rua].

“Em 1995 partimos dos mesmos princípios, mas não tivemos o tempo de preparação que tivemos agora. Nessa altura era muito mais os regimes especiais e hoje está toda a gente na rua. Estamos muito mais num modelo 1968 do que em 1995”, afirmou Bertrand Hammache, secretário-geral da CGT-RATP em declarações à Agência Lusa, que já trabalhava na empresa de transportes de Paris em 1995 quando houve uma greve que durou três semanas também devido a uma proposta do Governo para mudar o sistema de pensões.

“O Governo não recuou na sua proposta apresentada em Julho, portanto o que aconteceu foi que fomos angariando mais apoio para a nossa causa em todo o país. A reforma não é só dos regimes especiais, é de todos como se pode ver”, indicou o secretário-geral da empresa que gere os transportes de Paris e que esteve na vanguarda desta greve.

Para informar os utentes sobre a iniciativa de hoje e lutar contra a reforma do sistema de pensões, o sindicato da RATP distribuiu milhões de panfletos nos últimos meses numa ação sem precedentes.

“Fizemos muita pedagogia, distribuímos muito material. Tivemos panfletos com tiragens de dois milhões de exemplares, algo que nunca tínhamos feito antes. Assim, toda a gente que precisava saber o que é a reforma por pontos e a posição da CGT, já sabe. Esta reforma não é credível”, disse Hammache.

Mas não foram só sindicatos e pessoas preocupadas com as pensões que responderam à chamada. O cortejo em Paris viu o trajecto cortado devido a incidentes entre a polícia e ‘black blocs’ que não permitiram o avanço dos tradicionais carros com os símbolos dos sindicatos que assinalam a presença das diferentes classes profissionais.

Prevendo já a degeneração dos protestos, a prefeitura de Paris reforçou a segurança da capital com seis mil polícias, mas isso não impediu desacatos, incluindo alguns pequenos incêndios na Praça Republique.

Para quem veio protestar pelas suas condições de trabalho e o possível novo sistema de pensões, as respostas do Governo não são suficientes.

“Os professores arriscam-se a perder entre 300 a 800 euros, quer sejam do sector público ou do sector privado. Isto acumula-se com o descontentamento geral da profissão e as respostas dadas até agora não nos satisfazem. Vamos mobilizar-nos até este projecto ser retirado”, disse Maud Ruelle-Personnaz, co-secretária-geral da FSU Versalhes, o maior sindicato do sector da educação.

Do outro lado, os estudantes também não estão satisfeitos.

“Este sistema de pontos que o Governo quer introduzir diz-nos respeito directamente porque com o novo sistema, todo o tipo de trabalhos que temos enquanto jovens e estudantes, vão contar para a nossa carreira contributiva, enquanto que agora contam os melhores 25 anos”, indicou Helno Eyriey, vice-presidente da União Nacional de Estudantes de França (UNEF) lembrando uma exigência antiga desta associação para que os anos de universidade ou formação contem para a idade da reforma já que actualmente a idade média de entrada no mercado de trabalho em França se situa nos 28 anos.

Mas as desigualdades deste novo sistema universal que quer unir os 42 sub-sistemas de pensões através da atribuição de pontos não se fica por aqui.

“As pensões das mulheres vão diminuir porque com o novo projecto vai ser considerada toda a carreira e até agora tinha-se em conta os melhores 25 anos. Assim, como são as mulheres que trabalham mais a meio tempo e têm contratos mais precários, são as que mais vão perder neste sistema de pontos”, afirmou Ana Azaria, presidente da Organização de Mulheres Igualdade.

Segundo relata esta dirigente associativa, as mulheres reformadas estão entre as classes mais afectadas pela pobreza em França, com uma disparidade média face aos homens na pensão mensal de quase 700 euros.

Com estes dados e sem recuos por parte do Governo, a greve vai continuar. A RATP já anunciou que os transportes na região parisiense vão estar parados até segunda-feira, assim como é também para continuar a paralisação no sector ferroviário.

Segundo dados recolhidos pela agência de noticias francesa, AFP, mais de 510.000 pessoas participaram nas manifestações de hoje, associadas à greve geral, em 70 cidades francesas.

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