O Papa Francisco e o Presidente de Moçambique Filipe Nyusi, em Maputo, Moçambique, 05.09.2019. FOTO: MOZAMBIQUE PRESIDENTIAL CABINET/LUSA

O Papa Francisco disse hoje durante o seu primeiro discurso em Moçambique que “sem igualdade de oportunidades” não há paz duradoura.

“Quando [uma nação] abandona na periferia uma parte de si mesma”, não há políticas, nem “forças de autoridade ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade”, referiu, no palácio presidencial da Ponta Vermelha, onde foi recebido pelo Presidente moçambicano, Filipe Nyusi.

O Governo e a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), oposição, celebraram em 06 de agosto um novo acordo de paz, o terceiro do país.

Num salão do palácio e perante o Papa, a comunidade diplomática, membros do Governo, titulares dos órgãos de soberania e figuras políticas, Nyusi chamou, durante o seu discurso, os líderes da oposição no parlamento.

“Estamos aqui com o meu irmão Ossufo Momade, que peço que se levante”, assim como “com Daviz Simango”, referiu o chefe de Estado, num momento de ovação geral na sala.

“Citei estes dois porque são os que representam o nosso parlamento, mas temos muito mais [figuras políticas] que estão aqui e no programa seguinte”, referiu Nyusi.

O Presidente moçambicano saudou as figuras da oposição, defendendo uma cultura “de não violência” em que a política “é feita com força dos argumentos e não pela força das armas”.

 

Primeiras palavras de solidariedade dirigidas às vítimas dos ciclones

O Papa Francisco manifestou hoje solidariedade para com as vítimas dos ciclones Idai e Kenneth, que no início do ano se abateram sobre Moçambique, durante a sua primeira intervenção pública, na visita que está a efetuar ao país.

O Papa Francisco durante um encontro interreligioso em Maputo, Moçambique, 05.09.2019. FOTO: ANTONIO SILVA/LUSA

“Quero que as minhas primeiras palavras de proximidade e solidariedade sejam dirigidas a todos aqueles sobre os quais se abateram os ciclones Idai e Kenneth”, referiu, durante um encontro com o Presidente da República, Filipe Nyusi, no palácio da Ponta Vermelha, em Maputo.

“Infelizmente não posso ir pessoalmente até vós, mas quero que saibam que partilho da vossa angústia e sofrimento”, acrescentou.

“As devastadoras consequências continuam”, referiu.

O líder da igreja católica pediu especial atenção para as zonas onde “ainda não foi possível reconstruir” e faz votos para que “os atores civis e sociais”, centrados no apoio à população, “sejam capazes de promover a necessária reconstrução”.

Na sua intervenção, o Presidente moçambicano referiu que as palavras do Papa após a catástrofe foram importantes para “a mobilização de apoio e conforto moral”.

Filipe Nyusi expressou “profundos agradecimentos” ao Papa Francisco.

O ciclone Idai, que atingiu o centro de Moçambique em março, provocou 604 mortos e afetou cerca de 1,5 milhões de pessoas.

A intempérie provocou cheias intensas que arrastaram aldeias, pontes, estradas e outras infraestruturas, criando lagos gigantescos que levaram semanas a desaparecer.

A cidade da Beira, uma das principais do país, que foi atingida pelo Idai, ficou severamente danificada e serviu de palco a uma gigantesca operação de mobilização de meios internacionais para apoio à população.

A destruição atingiu ainda os países vizinhos do Zimbábue e Maláui.

O ciclone Kenneth, que se abateu sobre o norte do país em abril, matou 45 pessoas e afetou 250.000.

Mais de meio milhão de pessoas ainda vivem em locais destruídos ou danificados, enquanto outros 70.000 permanecem em centros de acomodação de emergência, segundo o mais recente relatório da Organização Internacional das Migrações (OIM), redigido em julho e que alerta para a falta de condições para enfrentar a nova época chuvosa, em novembro, dentro de três meses.

 

Francisco alerta jovens para os que querem “dividir e fragmentar”

 

O Papa Francisco alertou hoje em Maputo os jovens moçambicanos para estarem atentos àqueles que querem “dividir e fragmentar”, apontando a resignação e a ansiedade como duas atitudes que matam o sonho.

“A alegria de viver, como se pode sentir aqui, a alegria partilhada e celebrada, reconcilia e torna-se no melhor antídoto capaz de desmentir todos aqueles que querem dividir-vos”, declarou Francisco, numa mensagem aos jovens de diversas confissões religiosas, no Pavilhão do Maxaquene, na baixa da capital moçambicana.

“[Fiquem] atentos àqueles que vos querem dividir, que vos querem fragmentar”, prosseguiu o chefe da Igreja Católica, muitas vezes ovacionado, durante a sua mensagem de cerca de 30 minutos.

O Papa Francisco durante um encontro interreligioso em Maputo, Moçambique, 05.09.2019. FOTO: ANTONIO SILVA/LUSA

Francisco considerou que a presença de jovens de diversas confissões religiosas no encontro de hoje é prova de que a diferença não é um factor de divisão, mas promove a convivência pacífica.

“Como faz falta nalgumas regiões do mundo a vossa alegria de viver, como faz falta nalgumas regiões do mundo a alegria de estarem juntos, de ter diversas confissões religiosas, mas filhos de uma mesma terra juntos”, afirmou o líder da Igreja Católica.

Os jovens, continuou, devem manter a tenacidade que impede que lhes seja roubado o sonho de um presente e futuros melhores.

“Gostaria de dizer que não deixem que vos roubem a alegria, não deixeis de cantar, de expressar tudo que aprendestes da vossa tradição”, encorajou o Papa.

O chefe da Igreja Católica chamou a atenção dos jovens moçambicanos para o risco de promessas vazias, que resultam no desencanto.

“Quantas promessas de felicidade vazias que acabam por mutilar vidas”, disse.

O Papa Francisco cumpre hoje o primeiro de dois dias da visita a Moçambique, no âmbito de um périplo por África, que o levará também a Madagáscar e às ilhas Maurícias.

Francisco é o segundo chefe máximo da Igreja Católica a deslocar-se a Moçambique, depois de João Paulo II ter visitado o país em 1988.

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