Assinalam-se hoje, 04 de junho de 2019, os 30 anos desde que as tropas chinesas abriram fogo para pôr fim aos protestos liderados por estudantes, na Praça de Tiananmen, em Pequim. O número de mortos causados pela repressão nunca foi revelado.

Os acontecimentos sangrentos ocorridos na noite de 3 para 4 de junho de 1989, quando os tanques do exército foram enviados para pôr fim a sete semanas de protestos, são esta semana lembrados em várias partes do mundo.

Contudo, na China, as autoridades conseguiram com sucesso assegurar uma amnésia colectiva sobre o sucedido.

A organização não-governamental Human Rights Watch instou o Governo chinês a assumir a responsabilidade pelo massacre de um número incontável de manifestantes pró-democracia em junho de 1989.

“Trinta anos após o massacre de Tiananmen, as autoridades chinesas não reconheceram a atrocidade ou forneceram justiça para as vítimas e as suas famílias”, alertou Yaqiu Wang, investigador da Human Rights Watch (HRW).

Esta ONG considerou que “as autoridades devem cessar todo o assédio de ativistas e familiares de vítimas para comemorar a ocasião”.

“O encobrimento de Tiananmen e o aumento da repressão em toda a China alimentaram a determinação dos ativistas de lutar pelos direitos humanos”, salientou Wang.

O massacre de Tiananmen continua a ser um dos assuntos mais censurados da Internet chinesa.

Segundo a HRW, o Governo “nunca aceitou a responsabilidade pelo massacre ou deteve quaisquer funcionários legalmente responsáveis pelos assassínios”.

Esta ONG referiu ainda que o Governo “não está disposto a conduzir uma investigação sobre o acontecimento ou divulgar dados” sobre aqueles que foram mortos, feridos, presos ou que desapareceram.

A organização não-governamental Tiananmen Mothers estabeleceu os detalhes de 202 pessoas que foram mortas durante a repressão do movimento em Pequim e outras cidades.

A HRW instou o Governo do Presidente chinês, Xi Jinping, a assinalar o 30.º aniversário de 04 de junho de 1989, abordando as violações de direitos humanos relativas ao acontecimento.

“O Presidente Xi Jinping deve reconhecer (…) que as exigências por responsabilidade e direitos humanos permanecem fortes”, argumentou Yaqiu Wang.

Entre 15 de abril e 04 de junho de 1989, estudantes e jovens intelectuais chineses usaram a Praça Tiananmen como palco de contestação ao governo, que consideravam demasiado repressivo e corrupto.

Os protestos terminaram a 04 de junho de 1989, depois de os líderes do Partido Comunista da China terem ordenado aos militares que retomassem a Praça Tiananmen.

O ataque, ocorrido na noite de 03 para 04 de junho de 1989, provocou centenas a milhares de vítimas entre os manifestantes, conforme os números que foram publicados pela imprensa internacional da época, os divulgados pela Cruz Vermelha e os anunciados pelos sobreviventes.

Tiananmem, que significa Paz Celestial, ficou desde então associada ao massacre.

Massacre de Tiananmen noticiado em Portugal como “um banho de sangue”

A imprensa portuguesa noticiou, há 30 anos, o massacre de Tiananmen como “um banho de sangue”, com multidões a defenderem-se com paus e pedras dos tanques e balas com que o governo chinês tentava aniquilar o movimento pró-democracia.

Havia seis semanas que os estudantes ocupavam a praça de Tiananmen, no centro de Pequim, para exigir reformas democráticas, num movimento a que se juntaram muitos cidadãos e que começava a ter eco em outras cidades chinesas.

Na noite 03 para 04 de junho, os confrontos com o exército intensificaram-se e tropas forçaram a entrada no reduto ocupado pelos estudantes.

Um telex emitido pela Lusa reportava: “Pequim entrou hoje no caos, com os soldados a dispararem indiscriminadamente sobre multidões exasperadas de cidadãos desarmados, enfrentando a morte para protestarem contra o que descrevem como os seus dirigentes fascistas”.

As embaixadas estrangeiras preparavam planos de retirada dos seus cidadãos e aconselhavam os residentes a não saírem de casa.

Os jornais davam conta de milhares de vítimas, com base em testemunhos, manifestantes e fontes diplomáticas. A China apenas reconheceu algumas centenas, entre soldados e manifestantes, invocando razões de segurança nacional para justificar o massacre.

As imagens que chegavam de Pequim chocavam o mundo. À comunidade internacional exigiam-se medidas e criticava-se a falta de ação.

Os jornalistas debatiam-se com apreensões de material, censura e uma lei marcial que duraria um ano, como noticiava a Capital em 1990: “Tiananmen limpa de tropas. Levantada Lei Marcial em Pequim em oito meses”.

O movimento ganhara força nas universidades meses antes do massacre, onde os estudantes decretaram uma greve geral.

Em maio, a demissão de Deng Xiaoping e dos principais líderes chineses, como o primeiro-ministro, Li Peng, era exigida nas ruas de Pequim por um milhão de pessoas, numa manifestação de apoio a “centenas de estudantes em greve de fome”, conforme noticiou o Europeu.

O Independente, à época dirigido por Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, revelava o plano da diplomacia portuguesa para lidar com o problema, dias depois do massacre.

“Portugal manda Roberto Carneiro avisar a China” foi a manchete de 09 de junho do semanário, para noticiar a viagem do então ministro da Educação a Macau, a pretexto do 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

A ideia colhia o apoio do Presidente da República, Mário Soares, e do primeiro-ministro, Cavaco Silva, evitando-se assim envolver diretamente o ministro dos Negócios Estrangeiros, João de Deus Pinheiro, o que daria “um caráter internacional” à viagem.

De acordo com o jornal, Roberto Carneiro levava no bolso uma mensagem de Soares e recados de Cavaco.

Na mensagem, citada pelo jornal, Soares transmitia “grande preocupação” pela situação na China, afirmando esperar que não ameaçasse “a liberdade e segurança” do território de Macau, então sob administração portuguesa.

O chefe de Estado português falava ainda da “necessidade de restabelecimento dos equilíbrios sociais e políticos na China” como única forma possível de “cumprir em absoluto” a Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre o Futuro de Macau, a que Portugal se afirmava “inteiramente fiel”.

Durante a deslocação, Roberto Carneiro deveria também manter contactos com políticos e empresários, para aferir “sentimentos e intenções”, e proferir duas declarações, a primeira, à chegada, para manifestar a “solidariedade de Lisboa” com a população portuguesa de Macau, e uma segunda com alusão aos acontecimentos de Pequim, “condenando o uso arbitrário de violência sobre civis desarmados”.

A perseguição contra os líderes do movimento estudantil continuou muito para além de junho de 1989, com alguns a procurarem asilo nos Estados Unidos e na Europa.

 

Amnistia assinala massacre de Tiananmen e pede libertação de ativista

 

A Amnistia Internacional (AI) Portugal assinalou os 30 anos do massacre de Tiananmen com uma manifestação em Lisboa, um abaixo-assinado em defesa de um ativista preso na China e o envio de mil postais ao Presidente chinês.

A manifestação realizada ontem, 03 de junho, data que marca o início da “invasão da Praça de Tiananmen” pelo exército chinês, evocou “as imensas mortes” civis que nunca foram reconhecidas pelas autoridades chinesas.

“Temos também postais já editados, dirigidos a Xi Jinping, dizendo que as famílias das vítimas ainda esperam que seja feita justiça, 30 anos depois”, indicou Teresa Nogueira, coordenadora da AI Portugal para as questões da China, alertando que continuam a ser detidos cidadãos por lembrarem os acontecimentos que culminaram no massacre de estudantes e outros civis reunidos na principal praça do centro de Pequim em defesa de reformas democráticas.

Paralelamente, decorreu uma recolha de assinaturas pela libertação de Chen Bing, “um ativista que está preso por querer relembrar” o massacre, frisou.

Nos postais a enviar ao Presidente da República Popular da China constará a foto que celebrizou um dos manifestantes, sozinho frente a uma fila de tanques, e cujo nome e paradeiro permaneceram desconhecidos até hoje.

Macau, Taiwan, Hong Kong, Estados Unidos e Reino Unido são alguns dos territórios onde a data será lembrada, com vigílias, debates e outros eventos públicos.

Algumas secções da Amnistia Internacional decidiram também pedir aos parlamentos dos respectivos países que leiam um de três textos enviados pelo secretariado internacional: a declaração escrita em cativeiro pelo falecido activista Liu Xiaobo, quando da atribuição do Prémio Nobel da Paz, a Carta 08, um manifesto de que foi o primeiro subscritor e que esteve na origem da detenção ou uma carta das “Mães de Tiananmen”.

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