Os três satélites Ceres (Capacité de Renseignement Électromagnétique Spatial) da França - FOTO DR

França juntou-se aos três países que detêm satélites militares que detectam “comunicações militares inimigas” com o lançamento de três destes engenhos capazes de recolher informações a partir do espaço.

Os três satélites Ceres (Capacité de Renseignement Électromagnétique Spatial) foram lançados da base francesa de Kourou na Guiana.

Dispostos em posição triangular a 700 quilómetros de altitude, os satélites têm capacidade para “cartografar os sistemas inimigos, sejam radares ou postos de comunicação e identificar a actividade electromagnética numa determinada zona”, disseram à agência France- Presse os responsáveis do Ceres, organismo que depende da tutela da Direção-Geral de Armamento francês.

De acordo com Hervé Grandjean, porta-voz do Governo francês, apenas os Estados Unidos, a Rússia e a República Popular da China possuem equipamentos de vigilância semelhantes aos satélites Ceres.

Para “muscular” posições espaciais, Paris estabeleceu em 2019 uma estratégia de Defesa que prevê o gasto de cinco mil milhões de euros, no quadro da Lei de Programação Militar.

A França já tinha lançado no passado dia 24 de outubro três outros satélites de comunicações militares de nova geração – Syracusa 4-A – e deve lançar em 2022 o novo satélite CSO-3, de observação ótica.

Nos últimos anos, a questão espacial tem conhecido novos contornos, sobretudo militares.

Em outubro, o investigador e jornalista britânico Tim Marshall, autor do livro “O Poder da Geografia”, disse à Lusa que o estabelecimento da fronteira espacial e os tratados sobre a Lua vão desempenhar, a breve prazo, um papel vital junto das potências mundiais.

“Temos de olhar par o Espaço como uma região geográfica, porque desta forma podemos enquadrar o Espaço em relação à Terra. Isto não é ficção científica e tudo isto está a acontecer agora por causa da importância que os satélites têm para a economia, atualmente”, disse à Lusa o investigador.

“Por cada satélite que deixa de funcionar, a economia mundial vai ressentir-se. Os russos, por exemplo, já têm armas espaciais e o abate de satélites pode vir a ser uma realidade”, alertou Tim Marshall.

Para a Federação Aeronáutica Internacional, instituição com sede na Suíça e que ratifica recordes aeronáuticos, o Espaço começa a 100 quilómetros acima do nível do mar.

“Digamos que o país A define o limite em 100 quilómetros, mas o país B entende que são 80. Dita a lógica que, se o país A levar um satélite 90 quilómetros acima do limite do país B, o país A corre o risco de lhe abaterem o satélite”, explicou Marshall.

Para resolver estas questões foi criada a Agência para o Espaço Exterior das Nações Unidas, com sede em Viena, a que está ligado o Comité para a Utilização Pacífica do Espaço Exterior (COPUS), que reporta ao Quarto Comité da Assembleia Geral da ONU.

Mesmo assim, na opinião de Tim Marshall, existem “defeitos” porque o Tratado da Lua desenvolvido pelo COPUS e que data de 1979 não foi ratificado por países como a Rússia, Estados Unidos e a República Popular da China.

“Quando ouvimos falar da colonização da Lua, não estamos a falar do futuro. É evidente que existem cenários de futuro, mas também já existe uma realidade atual”, diz Tim Marshall, sublinhando que os tratados sobre o Espaço são mais importantes agora do que foram no passado.

“(…) é precisa legislação e ratificação dos tratados para que exista um enquadramento legal sobre o ‘novo’ Espaço”, defendeu o investigador.

Em outubro de 2020, Estados Unidos, Japão, Itália, Reino Unido, Canadá, Luxemburgo e Austrália assinaram os Acordos Artemis, que regem a exploração da Lua e a extracção de recursos lunares.

Os signatários devem informar-se mutuamente das atividades que desenvolvem no sentido do desembarque da primeira mulher ou o envio do décimo terceiro homem na Lua até 2024, sendo que a criação de bases na Lusa para a extração de minério pode ocorrer antes de 2028.

Segundo o acordo Artemis, essas bases podem ser a rampa de lançamento para “fomentar a expansão humana pelo sistema solar”.

Mas nem Moscovo nem Pequim assinaram o acordo Artemis.

A Rússia, apesar de ser parceira da NASA na Estação Espacial Internacional, ficou de fora depois de a recém-formada Força Espacial dos Estados Unidos ter acusado Moscovo de rastrear satélites espiões norte-americanos.

PSP // PAL

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