Marcha e vigília por Luís Giovani no Luxemburgo, 11.01.2020 – IMAGEM: Screenshoot / Finkapé / LUX24

Várias vigílias de homenagem ao estudante cabo-verdiano Luís Giovani, assassinado em Bragança, realizaram-se hoje em Lisboa, Bragança, Praia (Cabo Verde), Londres (Inglaterra), Paris (França) e no Luxemburgo.

Na cidade do Luxemburgo, a grande comunidade cabo-verdiana residente no país realizou uma marcha, que arrancou cerca das 14:00 do parque de estacionamento Bouillon, em Hollechich, rumo ao Consulado/Embaixada de Portugal no Luxemburgo.

No final da marcha, que decorreu sem incidentes, realizou-se um minuto de silêncio e os discursos proferidos pediam todos o mesmo: que seja feita Justiça.

No Luxemburgo, a marcha, que juntou largas dezenas de participantes, foi organizada por diversas associações cabo-verdianas e africanas.

Publiée par Finkapé sur Samedi 11 janvier 2020

 

Vigília de homenagem a estudante cabo-verdiano em Lisboa cortou Av. da Liberdade

A vigília em homenagem ao estudante cabo-verdiano que morreu depois de uma agressão em Bragança acabou por se transformar hoje, em Lisboa, numa marcha que percorreu a Avenida da Liberdade, obrigando ao corte de trânsito naquela artéria.

De acordo com fonte do Comando Metropolitano da PSP de Lisboa, em declarações à Lusa, depois de terem estado reunidas no Terreiro do Paço, para onde estava marcada a vigília, pelas 16:45 “cerca de três mil pessoas” começaram a dirigir-se para o Rossio, iniciando depois a partir daí uma marcha até ao Marquês de Pombal.

A PSP, que “acompanhou sempre a marcha”, acabou por optar por cortar ao trânsito as faixas centrais da Avenida da Liberdade.

A marcha, que “decorreu sem incidentes”, chegou ao Marquês de Pombal pelas 17:30. Alguns minutos depois, os cerca de três mil manifestantes fizeram o mesmo percurso em sentido contrário, em direção ao Rossio.

Ainda segundo a mesma fonte, pelas 18:30 a circulação de trânsito na Avenida da Liberdade já tinha sido reposta e os manifestantes começaram a desmobilizar.

Hoje, estavam marcadas várias vigílias de homenagem ao estudante cabo-verdiano Luís Giovani, que morreu a 31 de dezembro no hospital de Santo António, no Porto, dez dias depois de ter sido vítima de uma agressão em Bragança, onde estudava.

Pouco depois da hora marcada para o início da vigília em Lisboa (15:00), centenas de pessoas juntaram-se no Terreiro do Paço, muitas vestindo ‘t-shirts’ brancas com a fotografia do jovem e segurando panfletos onde podia ler-se #justiçaparaogiovani.

Os participantes começaram a juntar-se frente à estátua de D. José I onde estiveram em silêncio, formando primeiro um círculo que no seu interior tinha velas e flores brancas.

No Terreiro do Paço, onde eram visíveis muitas bandeiras de Cabo Verde, reuniram-se pessoas de todas as idades, que respeitaram o silêncio pedido pelos organizadores, empunhando cartazes exigindo justiça.

Na estátua de D. José I foi colocada uma tarja onde se lia: “Contra o Racismo do Estado, Punição dos Crimes Racistas”.

À Lusa, José Pereira, que pertence aos movimentos Consciência Negra e Em Luta, explicou a necessidade de, “acima de tudo e em primeiro lugar o Estado português esclarecer o que se passou”.

“O Estado tem o dever de esclarecer”, disse José Pereira avançando haver um “duplo padrão de comportamento do Estado quanto à prática deste tipo de crimes”.

José Pereira denunciou também que as autoridades “agridem e brutalizam” quando vão aos bairros onde vivem pessoas “racializadas, negros, emigrantes e ciganos”, acrescentando que “agem de forma diferente quando se tratam de não brancos”.

“Tire o seu racismo do caminho” ou “Nu kre justiça” [Queremos justiça, em crioulo], eram outros dos cartazes empunhados pelas pessoas, entre alguns balões brancos e pretos espalhados pela praça.

Manifestação e marcha silenciosa de “Homenagem a Giovani / Não à violência”, Cidade da Praia, Cabo Verde, 11 de janeiro de 2020. O jovem cabo-verdiano Luís Giovani Rodrigues, estudante do Instituto Politécnico de Bragança, foi encontrado ferido numa rua de Bragança na madrugada de 21 de dezembro e morreu 10 dias depois, num hospital do Porto. FERNANDO DE PINA/LUSA

“Esta marcha tem por intuito demonstrar a indignação perante a violência que vitimou o nosso colega, solidariedade e homenagem a Luís Giovani”, lia-se na mensagem que acompanhou a convocatória para a vigília marcada para o Terreiro do Paço, em Lisboa, que foi organizada pelos Caloiros de Cabo Verde, colegas do jovem, e difundida através da rede social Facebook.

Morte de Giovani encenada junto à Embaixada de Portugal em Paris

Este protesto juntou mais de uma centena de pessoas, na sua maioria da comunidade cabo-verdiana em Paris, e incluiu uma encenação simbólica do jovem cabo-verdiano.
A comunidade cabo-verdiana manifestou-se este sábado junto à embaixada portuguesa em Paris pedindo justiça no caso de Luís Giovani, jovem morto em Bragança a 31 de dezembro, encenando a sua morte de forma simbólica.

“Estamos aqui para dizer que o povo cabo-verdiano em Portugal, em Cabo Verde e no mundo inteiro está ciente dos seus direitos e deveres e que achamos que a forma como foi tratado o caso não foi natural e normal. Estamos indignados. O mínimo que se espera é que se faça justiça”, afirmou Isabel Borges Voltine, uma das organizadoras da manifestação, em declarações à Agência Lusa.

Este protesto juntou mais de uma centena de pessoas, na sua maioria da comunidade cabo-verdiana em Paris, e incluiu uma encenação simbólica da morte de Luís Giovani através de expressão dramática, assim como palavras de ordem.

“Como mãe, quando soube o que se passou, deu-me a volta ao estômago. Não podia ficar silenciosa. Muitas vezes ficamos calados, compartilhamos nas redes sociais, mas não agimos. Portanto, eu decidi agir e pedir para que as pessoas comparecessem para lutar contra esta injustiça”, disse Edna Rosa Semedo, outra das organizadoras do protesto.

A ideia inicial destas ativistas era a de fazer o percurso entre a Embaixada de Portugal e a Embaixada de Cabo Verde na capital francesa, mas devido ao conflito entre esta manifestação e as já habituais manifestações de sábado devido ao projeto de reforma das pensões, a Prefeitura de Paris não aceitou esse plano, limitando-se assim o protesto à frente da embaixada portuguesa.

Os manifestantes referiram mais o tema da injustiça e o atraso na investigação a este caso, mas a questão do racismo e da negrofobia esteve presente nesta manifestação.

“Não é o primeiro a morrer desta forma e isto continua. Não queremos uma justiça com dois pesos e duas medidas. […] É preciso que as pessoas se mobilizem para que este tipo de atos negrofóbicos não aconteçam mais. Não falamos em racismo, mas a verdade é que são jovens negros que acabam sempre mortos”, indicou Edna Rosa Semedo.

O sentimento era partilhado em quem respondeu ao apelo das ativistas. “Não posso dizer [que foi um crime de racismo], não sei o que as pessoas sentiram quando fizeram aquilo. Mas, normalmente, se fosse um branco na discoteca, acho que não fariam isso. […] E quando vivi em Portugal senti isso. Tive um primo e conhecidos que foram mortos pela polícia e nunca tiveram justiça”, disse Lenia Correia, natural de Cabo Verde, nascida em Portugal e que há cinco anos está em França.

Lenia trouxe à manifestação os seus dois filhos pequenos para que eles “cresçam com força” e afirma não querer despertar qualquer ódio contra os portugueses ou franceses. “Queremos paz e justiça, porque nada vai trazer a vida do Giovani de volta”, afirmou.

Esta vontade de paz foi uma constante durante todo o protesto, com a maior parte dos manifestantes a envergarem camisolas brancas com a cara de Luís Giovani e balões brancos entre as bandeiras de Cabo Verde.

Também na capital britânica se realizou uma concentração em homenagem ao jovem cabo-verdiano morto em Bragança.

Várias dezenas de pessoas juntaram-se durante a tarde junto do consulado de Portugal em Londres, segurando rosas e balões brancos e bandeiras de Cabo Verde.

Alguns participantes levaram cartazes, onde se podia ler “Eu sou Giovani” ou “Queremos justiça“.

O protesto, que durou pelo menos duas horas, apesar do frio, incluiu ainda discursos espontâneos e intervenções emocionadas em solidariedade com a família e amigos do jovem cabo-verdiano.

Marco Lopes, um dos organizadores, disse à agência Lusa que a mobilização foi feita sobretudo através das redes sociais, e que levou pessoas a viajar centenas de quilómetros, de localidades como Birmingham, Manchester, Peterborough ou Ipswich.

Manifestantes forçam barreiras policiais junto à Embaixada portuguesa na Praia

Mais de um milhar de manifestantes forçaram este sábado todas as barreiras policiais e conseguiram chegar à porta da Embaixada portuguesa na Praia, ilha de Santiago, em Cabo Verde, gerando-se momentos de tensão, constatou a Lusa no local.

Pelas 16:40 locais (mais uma hora em Lisboa), os manifestantes que participavam numa marcha de homenagem ao jovem Luís Giovani, morto em 31 de dezembro, em Bragança, forçaram as barreiras policiais e conseguiram chegar à porta da Embaixada portuguesa.

A polícia reforçou os efetivos e, pela mesma hora, rodeava todo o edifício.

Vivem-se momentos de tensão e os manifestantes gritam “justiça para o Giovani”.

Manifestantes forçaram hoje todas as barreiras policiais e conseguiram chegar à porta da Embaixada portuguesa na Praia, ilha de Santiago, em Cabo Verde, gerando-se momentos de tensão, constatou a Lusa no local, Cidade da Praia, Cabo Verde, 11 de janeiro de 2020. FOTO: FERNANDO DE PINA/LUSA

Bragança homenageou o jovem cabo-verdiano, em silêncio

Um faixa com o nome de Giovani e a frase “Não à violência” segurada por várias entidades locais encabeçou hoje a marcha silenciosa de homenagem, em Bragança, ao estudante cabo-verdiano que morreu a 31 de dezembro.

A marcha partiu do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), onde chegaram ao início da tarde autocarros com colegas da escola superior de Mirandela que o estudante cabo-verdiano frequentava há pouco mais de um mês.

Estava na cidade de Bragança, com amigos cabo-verdianos também estudantes, quando na madrugada de 21 de dezembro foi encontrado pela polícia caído na rua, depois de uma alegada rixa num bar da cidade em que terá sido agredido.

As circunstâncias em que ocorreu o ferimento na cabeça, que lhe provocou a morte depois de dez dias internado num hospital do Porto, estão a ser investigadas pela Polícia Judiciária e ainda não foram revelados oficialmente suspeitos.

Manifestação e marcha silenciosa de “Homenagem a Giovani / Não à violência”, em Bragança, 11 de janeiro de 2020. O jovem cabo-verdiano Luís Giovani Rodrigues, estudante do Instituto Politécnico de Bragança, foi encontrado ferido numa rua de Bragança na madrugada de 21 de dezembro e morreu 10 dias depois, num hospital do Porto. FOTO: PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA

Para este sábado foram marcadas várias marchas de solidariedade em Portugal e noutros países de homenagem ao jovem cabo-verdiano de 21 anos, que deverá ser sepultado em Cabo Verde no próximo sábado, segundo informação avançada pela família ao presidente do politécnico de Bragança, Orlando Rodrigues.

O responsável máximo da instituição de ensino superior com nove mil alunos, um terço dos quais estrangeiros de 70 nacionalidades, foi um dos representantes das entidades locais que se juntaram à marcha de hoje, em Bragança.

A iniciativa significa para o presidente do IPB “solidariedade para com a família” num “momento muito difícil, e todo o povo Cabo Verdiano”.

Orlando Rodrigues sublinhou que este momento serve para “afirmar os valores da não violência, do respeito pelos outros e da paz, da multiculturalidade”.

“Neste momento em que estes valores são postos em causa queremos dizer que a nossa comunidade é uma comunidade pacífica, que estes atos são absolutamente excecionais e não são a regra e, sem hesitações queremos afirmar esses valores”, frisou.

Tal como já tinha anunciado, o presidente do IPB irá ao funeral do estudante a Cabo Verde, no próximo sábado.

Também o bispo da Diocese de Bragança-Miranda se juntou à marcha, mas numa “presença de silêncio, de proximidade”, deixando as palavras para a homília na catedral de Bragança, o último ponto da homenagem de hoje.

Antes de chegar à catedral, na Praça da Sé, o centro da cidade de Bragança, a homenagem inclui uma vigília, velas e flores.

A Associação de Estudantes Africanos do IPB mandou fazer ‘t-shirts’ brancas com o rosto de Giovani e símbolos da paixão do jovem pela música, que os participantes usaram na marcha, como explicou, o presidente, Wanderley Antunes.

Este movimento, concretizado em manifestações, em Portugal, na Europa e países de África, servem, no entender do dirigente associativo, para “passar a mensagem de união e de força, que a paz tem de prevalecer em todos os momentos”.

“Todos estamos juntos, condenamos o ato que aconteceu com o nosso colega”, afirmou, reiterando o apelo geral de justiça e punição dos autores.

A multiculturalidade do politécnico de Bragança esteve representada na marcha por Giovani com Marcos Silva, um estudante brasileiro a vestir a camisola de homenagem e a expressar “tristeza” pelo que aconteceu.

“Espero que a Justiça possa averiguar tudo o que está a acontecer”, afirmou o jovem brasileiro que está em Bragança desde outubro e testemunha que “as pessoas se dão bem” no IPB.

O papel da polícia e a pouca informação disponibilizada é do desagrado de outras duas jovens estrangeiras que se juntaram à marcha por solidariedade.

A italiana Elisa Legrenzi está em Bragança há seis meses. O único problema que tem é com a língua. Por não saber falar português passa mais tempo com a comunidade internacional do politécnico do que com a cidade.

A polaca Evilina Wielgat chegou há quatro meses fala de uma cidade “calma” onde “as pessoas são simpáticas e juntou-se hoje à marcha para mostrar “preocupação” com o que aconteceu e com a postura da polícia, de pouca informação.

Alguns dos residentes na cidade marcaram também presença com flores e para expressar tristeza com o caso.

“Acho muito triste, devíamos ser todos irmãos, unidos, ninguém tem o direito de tirar a vida a ninguém”, apontou Lília Fernandes, de 73 anos.

Vários autarcas e políticos da região juntaram-se à iniciativa com o presidente da Câmara de Bragança, Hernâni Dias, a manifestar “pesar pelo que aconteceu” e a desejar que a marcha sirva para mostrar que “a comunidade brigantina é pacífica, acolhedora e que isto não passa de um ato isolado”.

“Estou certo também que toda esta comunidade académica reconhece esse sentimento. Esta situação não pode, em circunstância alguma, manchar aquilo que é o bom acolhimento que Bragança tem proporcionado à comunidade estudantil”, disse.

Os amigos com quem a vítima saiu dizem que um grupo de “cerca de 15 pessoas” alegadamente de Bragança, os aguardavam na rua “com cintos, paus e ferros” e terão atingido Giovani com uma paulada na cabeça.

Por esclarecer continua o que se passou entre o momento da alegada agressão e o local onde Giovani foi encontrado caído no chão sozinho, mais de meio quilómetro e a alguns minutos a pé do bar, na madrugada do dia 21 de dezembro.

A direção nacional da PSP esclareceu, na sexta-feira, que a vítima foi encontrada pela polícia que comunicou o caso ao INEM (Instituto Nacional de Emergência Médica) como sendo um alcoolizado caído na rua.

Terão sido os bombeiros que prestaram socorro que se aperceberam do ferimento e foi o hospital de Bragança que comunicou à PSP que a vítima que tinha encaminhado apresentava sinais de ter sido agredida.

O jovem cabo-verdiano foi transferido para o hospital de Santo António no Porto, onde morreu na madrugada de 31 de dezembro.

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