É provavelmente o sector económico mais afectado no Luxemburgo por causa da pandemia da Covid-19. O sector da hotelaria e restauração está a braços com uma das maiores crises de que há memória no país e, por outro lado, o Governo, pressionado, está com uma bomba-relógio prestes a explodir em mãos.

“Não aguentamos mais. Basta. É a hora de nos ouvirem”. O desabafo de uma empresária do sector da restauração (que solicitou anonimato) ao LUX24 é o espelho do estado de espírito do sector por estes dias.

Mais dias fechados do que abertos em 2020 e em 2021 ainda não se estrearam. E, pelo menos, até ao fim do mês não terão portas abertas.

“Não sei o que pode acontecer, mas antevejo uma crise inédita no sector no país e temo que muitos dos nossos colegas não consigam sobreviver. É possível que o desemprego no sector venha a aumentar”, lamenta a empresária.

A verdade é que, à imagem de outros países, como França e Alemanha, os cafés, restaurantes e similares continuam de portas fechadas. Em França, por exemplo, só deverão reabrir em meados de fevereiro.

“Aqui se calhar vai acontecer o mesmo. Logo veremos. Uma coisa é certa, não aguentamos mais”, diz esta empresária que tem 6 trabalhadores ao seu encargo (“todos devidamente legalizados e com ordenados e as cotizações em dia”).

Uma cozinheira prepara comida – FOTO: JOSÉ SENA GOULÃO / LUSA

O desemprego parcial, medida incentivada pelo Governo, alivia as “contas”, mas a empresária diz que essa ajuda não é suficiente: “Não temos dinheiro a entrar e continuamos a ter que pagar à mesma as rendas, fornecedores e outros encargos, tanto com os nossos espaços como com os trabalhadores”, explica.

 TEMOS QUE FAZER OUVIR A NOSSA VOZ 

A paciência tem limites, lá diz o povo. E os empresários da restauração, onde se incluem cafés e bares, estão “esgotados”. “Atingimos o limite da nossa capacidade de compressão, apesar de entendermos que se vive uma situação complicada para a sociedade em geral”, salienta, ao LUX24, Rui (nome fictício a pedido do empresário), proprietário de vários cafés no país.

“Parece que vivemos um período igual ao da Lei Seca nos Estados Unidos”, lamenta.

(Na história dos Estados Unidos, a Lei Seca, entre 1920 a 1933, proibia a fabricação, transporte e venda de bebidas alcoólicas para consumo. NOTA DE EDITOR)

A “incompreensão” dos empresários do sector da Horesca aumenta quando, por estes dias, o Governo anuncia a reabertura de escolas, comércio não essencial, espaço públicos desportivos e culturais.

“Todo o mundo pode trabalhar, mesmo que com medidas, e nós parece que somos os ‘portadores’ do vírus. É preciso mudar o paradigma e temos que fazer ouvir a nossa voz. Este sector emprega muita gente e movimenta milhões e milhões de euros”, defende Rui ao LUX24.

A impaciência dos restauradores “chegou ao fim” e fartos de reclamarem e não serem ouvidos começaram a juntar forças em dois grupos distintos na rede social Facebook: “Laissez-nous travailler” e “HORECA Tous ensemble“.

Nestes dois grupos são muitos os comentários que espelham a incompreensão do sector perante as decisões do Governo, liderado pelo primeiro-ministro Xavier Bettel.

Com posições mais radicais ou mais conversadores, certo é que o “caldeirão” está em ebulição e o leite pode derramar a qualquer momento.

“A Horesca é neste momento uma bomba-relógio prestes a explodir nas mãos deste Governo se não nos ouvirem, se não nos ajudarem e se não nos deixarem trabalhar”, antevê Rui, que se confessa ser contra qualquer forma radical de protesto.

“Somos gente boa, trabalhadora, honesta e só queremos uma coisa: Deixem-nos trabalhar. Não somos nem mais nem menos do que os outros. Tomamos todas as precauções e regras, mas deixem-nos ganhar o nosso pão e sustentar as nossas famílias e negócios”, apelou Rui.

O Governo está a par da “efervescência” que circula nas redes sociais e que pode sair à rua a qualquer momento. Aliás, para o próximo dia 16 está prevista uma “acção pacífica” de manifestação do sector no Luxemburgo. O grupo “Laissez nous travailler” fez o pedido às autoridades competentes e aguarda resposta.

Em declarações citadas ontem pelo jornal L’Essentiel, o secretário-geral da Horesca lançou um apelo à calma.

“Compreendemos as nossas empresas, o seu desânimo e a necessidade de manifestarem a sua insatisfação, mas queremos que isso seja feito com paz, dignidade, respeito pelas normas e instituições”, disse François Koepp.

O apelo do dirigente tem um motivo: Evitar que o sector perca a razão, no caso de se registarem desacatos ou alguma desordem durante alguma iniciativa mais radical.

Segundo François Koepp foi pedida uma “ajuda especial” ao Governo para o sector durante uma reunião com o ministro do Turismo e das Classes Médias, Lex Delles.

Communiqué de l'HorescaSuite à une entrevue aujourd'hui avec Monsieur le Ministre des Classes Moyennes Lex Delles,…

Posted by Horesca Luxembourg on Thursday, January 7, 2021

 

A reunião com Delles parece ter corrido bem, até porque ainda ontem o Governo anunciou que o sector da Horesca vai ter mais um auxílio para compensar “custos não cobertos”, para o período entre novembro de 2020 a março de 2021.

Esta nova ajuda pretende “minimizar” o encerramento prolongado dos estabelecimentos que, por determinação do Governo, vão continuar encerrados, pelo menos, até 31 de janeiro de 2021.

Outras ajudas e compensações deverão ser anunciadas nos próximos dias.

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