E como fica a situação das femmes de ménage que trabalham em privados?”, questiona Amélia. Mas, esta é na realidade a pergunta que mais tem chegado ao e-mail do LUX24 por estes dias de incerteza e medo causados pela pandemia do coronavírus Covid-19, que afecta também o Luxemburgo.

O sector da limpeza é considerado essencial. Diria mais, vital nesta luta contra o ‘inimigo invisível’. Nos hospitais, escritórios, em serviços que não podem encerrar, elas, as “femmes de ménage”, assumem hoje o papel de ‘herói’ improvável!

As mulheres, mas também os homens, na maioria portugueses, que trabalham no sector das limpezas no Luxemburgo, seja em empresas ou em patrões privados, têm medos, receios. Quem não os têm nos dias que correm?

O primeiro-ministro do Grão-Ducado colocou as mulheres e homens da limpeza na “linha da frente” no combate ao Covid-19.

“Agora já sabem que somos essenciais, não é? Pode ser que nos passem a valorizar mais”, escreveu Ana, em jeito de crítica, num email enviado ao LUX24.

A caixa de correio electrónico do nosso jornal online está cheia de mensagens com dúvidas e denúncias: faltam máscaras, faltam luvas, faltam desinfectantes.

“Vou trabalhar e muitas vezes ainda tenho que levar as minhas coisas para me poder proteger”, lamenta Carla, empregada numa das maiores firmas de limpeza do país.

Muitas destas mulheres denunciam que têm trabalhado apenas por “medo de serem dispensadas”. O desemprego assusta mais que o Covid-19. É o trabalho que mete o pão na mesa e o futuro “só Deus sabe”.

Se as empresas não podem dispensar as suas funcionárias, mesmo que muitos clientes tenham fechados os seus escritórios e estabelecimentos por ordem do Governo, estas mulheres e homens têm que continuar a limpar.

Mas, e quanto às mulheres de limpeza que trabalham para patrões privados? Com contractos individuais?

“O trabalho a negro já o deixei todo. Seja o que Deus quiser quando este inferno acabar”, desabafa Cristina.

Contudo, com os patrões privados não é bem assim. Há um contracto a cumprir.

Recentemente, o primeiro-ministro Xavier Bettel aflorou ao de leve este assunto dos “patrões privados” e em conferência de imprensa afirmou que “cabe aos [patrões] privados decidirem” o que fazer: manter o serviço ou dispensar a empregada.

“Estamos nas mãos de Deus. Vamos trabalhar com medo de levarmos o bicho para casa dos nossos patrões e depois de o levarmos para nossa casa, contagiando os nossos familiares. O que devemos fazer? Quem nos ajuda?”, questiona Flora, também num e-mail enviado ao LUX24.

Em declarações ao nosso jornal online, Jessica Lopes, secretária central adjunta do sindicato das limpezas da OGBL, refere que os “serviços de limpeza foram considerados como essenciais, tais como os serviços de cuidado à pessoa, os serviços de saúde, os transportes, etc”.

Jessica Lopes, secretária central adjunta do sindicato das limpezas da OGBL – FOTO DR Todos os Direitos de Autor Reservados

“Como as limpezas são consideradas essenciais, não há obrigação por parte dos patrões de parar a actividade ou de dispensar os empregados”, observa a sindicalista.

Mas, e no que toca à situação das empregadas de limpeza com contractos em patrões privados?

“Se os privados tem uma empregada de limpezas e a dispensam de ir trabalhar, têm na mesma de continuar a pagar o ordenado na sua totalidade. Os particulares não tem direito a pedir desemprego parcial (‘chômage partiel’)”, explica Jessica Lopes.

“Se é a empregada a tomar a decisão de deixar o trabalho, o ordenando e o trabalho podem estar comprometidos e os patrões não tem obrigação de continuar a pagar”, sublinha a sindicalista luso-luxemburguesa.

“No caso da empregada trabalhar para uma empresa, é mais fácil, pois as empresas podem pedir o desemprego parcial (‘chômage partiel’)”, remata.

Jessica Lopes admite que esta é uma situação “difícil” de lidar por várias razões:

“Primeiro porque sabemos que vai haver abusos e que vai ser uma luta para obrigar todos os patrões a pagar os ordenados e a cumprir com a lei. Muitos vão querer suspender o serviço o que na verdade não é legal. O código do trabalho continua em vigor e não se pode despedir uma pessoa de um dia para o outro”, explicou a jovem sindicalista.

“Depois, porque muitas mulheres não são dispensadas, mas têm receio de ir trabalhar porque trabalham em casa de pessoas vulneráveis. Tem medo pelos patrões, por elas próprias e as suas famílias. Em casa de privados, não há, na maioria das vezes, equipamento adicional para se protegerem”, admite Jessica Lopes.

Limpeza – FOTO DR / Todos os Direitos de Autor Reservados

A central sindical OGBL, a maior do país, lança um apelo “à solidariedade” dos patrões privados para que entendam a situação difícil que o país atravessa e, sobretudo, para que não despeçam neste momento de crise pandémica.

“Enquanto OGBL sabemos que isto é uma situação muito difícil e que mesmo para o Governo não há solução perfeita. Existem directrizes que explicam os comportamentos a adoptar para evitar a contaminação como manter distância, lavar bem as mãos ou não tocar na cara. Tentamos também sensibilizar os nossos membros. Pedimos também solidariedade aos patrões para que sejam justos e que não deixem pessoas sem rendimento numa fase tão difícil para todos”, apelou Jessica Lopes, em declarações ao LUX24.

Assim, e na ausência de directrizes governamentais para este tipo de caso concreto, resta às mulheres de limpeza de patrões privados o bom senso dos seus empregadores.

“Tenho ido para casa todos os dias em lágrimas, aflita e angustiada sem saber se levo o vírus ou não comigo e o espalho à minha família. O meu marido [que está a beneficiar do desemprego parcial] fica em casa com o nosso filho e eu tenho que ir trabalhar para os privados. Não sei quanto tempo vou aguentar”, resume Clara, num email enviado ao LUX24.

 

Publicidade
Falhas, erros, imprecisões ou sugestões?
Por favor fale connosco.
Publicidade

Todas as notícias e conteúdos no LUX24 são e continuarão a ser disponibilizadas gratuitamente, mas nunca como agora precisamos da sua ajuda para continuar a prestar o nosso serviço público.

Somos uma asbl – associação sem fins lucrativos – e não temos qualquer apoio estatal ou institucional, apesar do serviço público que diariamente fazemos em prol da comunidade portuguesa e lusófona residente no Luxemburgo, e já sentimos o efeito da redução da publicidade, que nos garante a manutenção do nosso jornal online.

A imprensa livre não existe nem sobrevive, sem o suporte activo dos seus leitores – sobretudo em épocas como esta, quando as receitas de publicidade se reduziram abruptamente, e nós continuamos a trabalhar a 100%.

Só lhe pedimos que esteja connosco nesta hora e nos possa ajudar com o seu donativo, seja ele de que valor for. Prometemos que continuaremos a ser a sua companhia de todas as horas.

Pode fazer donativo via PayPal, ou então uma transferência bancária para:
IBAN: LU79 0250 0458 9698 2000
Código BIC: BMEC LU LL

LUX24 asbl
#VaiFicarTudoBem

Publicidade