Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às segundas no LUX24.

As estátuas são obras de arte e na sua maioria não nos ensinam História. Na maioria dos casos homenageiam alguém e é por aí que devemos olhar.

Quando em Bristol, no passado dia 7 de Junho, a estátua de Edward Colston for derrubada e atirada para o fundo do Rio Avon, o que se pretendeu foi terminar com uma homenagem da cidade a uma pessoa. O que aconteceu daí em diante um pouco por todo o mundo não deve ser nunca visto da mesma forma.

Edward Colston era um mercador inglês dos séculos XVI e XVII que foi membro e governador-adjunto da Royal African Company, uma empresa que durante os anos de Colston transportou cerca de 84.000 escravos de África para a América, tendo morrido nessas viagens cerca de 19.000 pessoas.

Depois de sair dessa companhia continuou como negociador privado de escravos tendo-se envolvido igualmente noutros negócios e chegado a deputado. Até aqui parece estranho alguém assim ter uma estátua, certo?

A questão é que ele ficou rico, muito rico com a valorização das ações desta companhia devido ao sucesso do comércio de escravos. E não deixou descendentes, pelo que toda a sua fortuna foi doada a instituições de caridade (alinhadas politicamente com ele e o Partido Conservador) que financiaram diversas obras como hospitais ou escolas que foram batizados com o seu nome. Hoje, em Bristol existem diversos edifícios, ruas, memoriais e esta estátua em sua homenagem.

Por muito que ele tenha dado a uma comunidade que partilhava os seus ideais, aquele dinheiro estava manchado com o sangue de dezenas de milhares de vida e, no meu ponto de vista, alguém assim não merece homenagem. Por muito boas que sejam as suas obras, elas existem à custa da escravatura e eu não me sentiria bem em ter que passar todos os dias pela estátua de alguém assim.

E ao longo dos anos houve várias tentativas de removê-la por vias legais ou mesmo de adicionar à sua placa mais informações sobre quem realmente foi Edward Colston mas esbarraram sempre no seu próprio partido, o Conservador. Por isso não posso criticar o povo de Bristol por fazer História ao desfazer-se da estátua. Tal como não posso criticar o povo iraquiano por deitar estátuas de Saddam Hussein abaixo, ou os Húngaros que fizeram o mesmo à estátua de Estaline em 1956, ou os Albaneses que destruíram a estátua de Enver Hoxha em 1990.

Mas parece que o mundo se dividiu entre os que defendem as estátuas e os que as querem derrubar. Nem todas as estátuas são iguais. Lá por defender o derrube da estátua de Colston não quer dizer que apoie a detonação das estátuas de Buda feita por Talibans, ou que apoie os graffittis naquela escultura estranha de Leça da Palmeira ou que seja a favor da vandalização feita esta semana às estátuas de Churchill e do Padre António Vieira.

Churchill ficou na História por ter um papel fundamental na libertação da Europa da Alemanha Nazi, e isso é mais importante do que tudo o resto que ele fez e pensou. Sim, Churchill foi um racista e nisso não tem desculpa, mas apesar de ser racista ajudou a derrubar um regime ainda mais racista.

Não existem pessoas perfeitas, não sou o maior admirador de Churchill, prezo mais personalidades como Gandhi e Mandela, mas mesmo eles têm lados negros na sua vida. Não acredito em generalizações, como se tudo fosse igual, deve haver ponderação e capacidade de separar os Colstons dos Churchills.

Até porque parece que existem apenas os extremistas que querem derrubar as estátuas de todos aqueles que não foram perfeitos em toda a sua vida e os outros extremistas que querem enviar os pretos todos de volta para África.

Mas até aqui se deve separar as águas. Não estou com isto a dizer que os extremistas devem ser postos todos no mesmo saco, como muitos gostam de fazer. Lutar de uma forma completamente errada por um objectivo justo (o fim do racismo sistémico) não é a mesma coisa do que lutar por algo abominável como a supremacia branca. São coisas completamente diferentes: uma é parva, a outra é nazi.

Tudo isto está relacionado com as pessoas gostarem cada vez mais de sacos enormes, curiosamente desde que os sacos passaram a ser pagos nos supermercados. Se dividirmos as coisas em múltiplos saquinhos talvez passamos a entender melhor o nosso mundo.

Publicidade
Falhas, erros, imprecisões ou sugestões?
Por favor fale connosco.
Publicidade

Todas as notícias e conteúdos no LUX24 são e continuarão a ser disponibilizadas gratuitamente, mas nunca como agora precisamos da sua ajuda para continuar a prestar o nosso serviço público.

Somos uma asbl – associação sem fins lucrativos – e não temos qualquer apoio estatal ou institucional, apesar do serviço público que diariamente fazemos em prol da comunidade portuguesa e lusófona residente no Luxemburgo, e já sentimos o efeito da redução da publicidade, que nos garante a manutenção do nosso jornal online.

A imprensa livre não existe nem sobrevive, sem o suporte activo dos seus leitores – sobretudo em épocas como esta, quando as receitas de publicidade se reduziram abruptamente, e nós continuamos a trabalhar a 100%.

Só lhe pedimos que esteja connosco nesta hora e nos possa ajudar com o seu donativo, seja ele de que valor for. Prometemos que continuaremos a ser a sua companhia de todas as horas.

Pode fazer o seu donativo por transferência bancária para a conta do LUX24:
IBAN: LU790250045896982000
Código BIC: BMECLULL

LUX24 asbl
#VaiFicarTudoBem

Publicidade