O presidente do Sporting Clube de Portugal, Frederico Varandas (E), à chegada para ser ouvido no âmbito do julgamento do processo do ataque à academia de futebol do Sporting, no Tribunal de Monstanto, em Lisbboa, 07 de fevereiro de 2020. JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA
O presidente do Sporting Clube de Portugal, Frederico Varandas, à chegada para ser ouvido no âmbito do julgamento do processo do ataque à academia de futebol do Sporting, no Tribunal de Monstanto, em Lisboa, 07 de fevereiro de 2020. FOTO: JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

O presidente do Sporting, Frederico Varandas, afirmou hoje em tribunal que após a invasão à academia “havia um sentimento de revolta, desespero e pânico” entre os jogadores, que se recusaram a treinar para a final da Taça de Portugal.

“Imediatamente a seguir à invasão havia um sentimento geral de revolta, desespero, pânico, os jogadores estavam completamente chocados com o que tinha acontecido, e recusaram-se a regressar à academia e a treinar. Nessa altura ninguém pensava muito no jogo”, afirmou Frederico Varandas, que à data dos factos era diretor clínico dos ‘leões’.

Na 27.ª sessão do julgamento, Frederico Varandas explicou que “entre terça-feira e sábado os jogadores treinaram por si”, acrescentando que na final da Taça, disputada no domingo seguinte, e que os ‘leões’ perderam por 2-1 com o Desportivo das Aves, “o ambiente era um terror”.

“Os jogadores disseram que preferiam estar em casa, queriam vencer o jogo, mas do ponto de vista emocional não estavam preparados”, afirmou o médico, que começou a trabalhar no Sporting em 2011 e que foi ouvido na qualidade de representante do clube, assistente no processo.

Frederico Varandas, que estava na academia em 15 de maio de 2018, explicou que estava no seu gabinete quando “pelo barulho e agitação” se apercebeu de que algo anormal estava a acontecer.

“Saí do meu gabinete, vi elementos da equipa técnica a correrem em sentido contrário, vi uma fumarada no balneário, a visibilidade estava muito reduzida. (…) Quando me virei para o balneário vi um elemento encapuzado que acendeu uma tocha, a cerca de cinco, seis metros de mim e a atirou na minha direção, a tocha acertou no Mário Monteiro que estava atrás de mim”, afirmou.

O médico explicou que quando ia entrar no balneário viu “o Bas Dost de braço dado com Rolin [secretário técnico adjunto] e ferido na cabeça”.

Frederico Varandas, que assumiu a presidência do Sporting em setembro de 2019 após a destituição de Bruno de Carvalho, disse ter acompanhado o avançado holandês à sala de enfermagem, onde este foi suturado no gabinete médico, onde estava um enfermeiro e o médico Virgílio Abreu, e referiu ter mantido contacto com os jogadores nos dias seguintes.

“Fui sempre falando com ele, recusou-se a treinar, fui a casa do Bas Dost para lhe retirar os pontos, tinha segurança privado à porta, era um jogador traumatizado”, referiu.

Frederico Varandas considerou que a principal ferida do jogador Bas Dost, que atualmente alinha no Eintracht Frankfurt, “é o trauma”.

“A principal ferida que o Bas Dost leva é o trauma, e não é só o Bas Dost. Muitos daqueles jogadores são miúdos, e pensam: ‘será que aquilo pode votar a acontecer?’. Isso deixa marcas”, afirmou.

O atual presidente do clube disse ter visto “pessoas encapuzadas dentro do balneário” e “de relance uma de cara destapada com uma atitude desafiadora”, e de ter ouvido frases como: “Se vocês não ganham o próximo jogo vão morrer”.

O clínico disse ter vista “os jogadores em pânico” após a invasão “todos viveram um sentimento de pânico” e descreveu o estado em que ficou o balneário: “Completamente virado do avesso, a máquina da água virada ao contrário e roupas espalhadas por todo o lado”.

Frederico Varandas afirmou ter presenciado os desacatos no aeroporto da Madeira, depois da derrota (2-1) com o Marítimo, que afastou o clube do segundo lugar da Liga.

“O Fernando Mendes [antigo líder da claque Juventude Leonina] parecia ligeiramente alcoolizado e entrou em discussão com o Acuña. O Battaglia intrometeu-se e tiveram de ser separados, e eu fui uma das pessoas que larguei o meu trolley e fui separá-los. Também havia elementos da PSP e ‘spotters’”, disse.

Frederico Varandas, que antes de liderar o departamento médico dos ‘leões’ trabalhou no Vitória de Setúbal, afirmou “nunca ter visto um estado tão grande de intolerância para com os jogadores” como o que se viveu no Sporting na fase final da época 2017/2018, e afirmou: “Há sempre muita tensão no futebol e é obrigação de quem está à frente saber resolver esse assunto”.

Após a audição de Frederico Varandas, o advogado Amândio Madaleno, pediu a alteração da medida de prisão preventiva imposta ao arguido Elton Camará, invocando questões de saúde.

Também o advogado Rocha Quintal solicitou a alteração da medida de coação de Nuno Mendes ‘Mustafá’ de prisão preventiva, para prisão domiciliária.

Advogado de Bruno de Carvalho acusa Varandas de “faltar à verdade”

O advogado de Bruno de Carvalho acusou hoje o actual presidente do Sporting, Frederico Varandas, “de faltar à verdade”, na audição do julgamento do ataque à academia, onde foi ouvido como representante do clube.

“Faltou à verdade de muito largo. Pior do que isso: ele põe quase 50 pessoas a mentir”, afirmou Miguel Fonseca, acrescentando: “Não sendo testemunha, não prestou juramento. Se não prestou juramento, não podia mentir. Mentir é um crime, isso não posso dizer, porque ele não prestou juramento”.

O advogado do ex-presidente do Sporting, um dos 44 arguidos do processo, disse que gostava de ter ouvido Varandas como “testemunha” pois isso obrigava-o “ao dever da verdade”.

No final da audição de Frederico Varandas, durante a 27.ª sessão do julgamento, Miguel Fonseca pediu a acareação entre o atual presidente a várias testemunhas que participaram numa reunião com Bruno de Carvalho, na véspera da invasão à academia.

A juíza Sílvia Pires indeferiu o pedido, considerando-o “descabido” e referindo que “as discrepâncias eram normais”.

O representante de Bruno de Carvalho considerou ainda que Frederico Varandas, que estava na academia no dia 15 de maio de 2018 na qualidade de diretor clínico do clube, falou em tribunal segundo “uma agenda de quem tem uma Assembleia Geral para ir”, aludindo à atual contestação ao presidente leonino.

Miguel Fonseca garantiu que Bruno de Carvalho, que não esteve presente “devido a compromissos profissionais”, tem “as declarações preparadas e vai prestá-las na condição de ser o último a falar” em tribunal.

O ex-Presidente do Sporting, Bruno de Carvalho. FOTO: LUSA

“Por vontade dele, já tinha falado logo no primeiro dia, chegava aqui e estávamos uma semana inteira a ouvir o discurso dele. Entretanto, tivemos que sanear o que havia de dizer ou não e cheguei a um acordo com ele: primeiro vamos ouvir o que há e selecionar o que vamos dizer e o que não interessa”, explicou o advogado.

O processo tem 44 arguidos, acusados da coautoria de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e de 38 crimes de sequestro, todos estes (97 crimes) classificados como terrorismo.

Bruno de Carvalho, à data presidente do clube, ‘Mustafá’, líder da Juventude Leonina, e Bruno Jacinto, ex-oficial de ligação aos adeptos do Sporting, estão acusados de autoria moral de todos os crimes.

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