Um dos réus no caso dos ataques à Academia do Sporting, em Alcochete – FOTO LUSA

O futebolista Marcus Acuña relatou ontem as agressões que sofreu durante o ataque à academia de Alcochete, revelando que os agressores o ameaçaram de morte e disseram que sabiam onde morava e onde era a escola dos filhos.

O jogador argentino, de 28 anos, que actua a médio e defesa-esquerdo no Sporting, foi ouvido na 14.ª sessão do julgamento da invasão à academia ‘leonina’, em 15 de maio de 2018, com 44 arguidos, incluindo o antigo presidente do clube Bruno de Carvalho, que decorre no Tribunal de Monsanto, em Lisboa.

“O William [Carvalho] tentou fechar a porta [do balneário], mas eles entraram. Perguntaram por mim e pelo Battaglia, dirigiram-se a nós e começaram a atacar-nos. Dirigiram-se a mim quatro a cinco pessoas. Primeiro, deram-me uma bofetada e depois murros e pontapés, enquanto diziam ‘não mereces essa camisola’. Tentaram tirar-me o equipamento, não conseguiram, e ameaçaram-me. Disseram que me iam matar, que sabiam onde é que eu vivia e onde é que os meus filhos iam à escola”, relatou Acuña.

Após o ataque, o internacional argentino, que tem dois filhos, telefonou para a família.

“A minha mulher estava com a minha enteada. A minha primeira reacção foi ligar para a minha família, para fechar a porta e ligar o alarme”, descreveu.

O futebolista assumiu sentir “medo, mais pela mulher e pelos filhos”, revelando que, durante algum tempo, andava sempre a “olhar para trás, para ver se estava a ser seguido”.

“Em cada jogo que jogamos e não vencemos, penso que isto pode acontecer de novo”, declarou o internacional argentino.

Acuña contou que não reagiu às agressões, apenas que se tentou defender, acrescentado que, no momento em que “entraram 30 a 40 pessoas, com cara tapada”, estava todo o plantel no interior do vestiário, excepto o holandês Bas Dost, e fisioterapeutas do clube.

O jogador, que chegou ao Sporting em 2017, declarou ao colectivo de juízes, presidido por Sílvia Pires, que outros elementos abordaram o compatriota Battaglia, atingido com um garrafão de água, não visualizando mais agressões, pois “também estava a ser alvo do ataque”.

Os invasores mencionaram ainda os nomes de Rui Patrício e de William Carvalho.

“Só vi o William sofrer agressões. Mais do que um indivíduo a dar socos e bofetadas na cabeça”, afirmou Acuña, relatando que alguns dos invasores “estavam a cobrir [tapar] a porta para que ninguém saísse” do balneário.

Acuña disse não se recordar de muitas palavras proferidas pelos elementos, mas lembra-se de ouvir: “se não ganhássemos o próximo jogo no domingo [final da Taça de Portugal contra o Desportivo das Aves], não sabíamos o que é que nos ia acontecer.”

Após estas frases, disse que “largaram o fumo e saíram” todos ao mesmo tempo do balneário.

Após o ataque, o internacional argentino referiu ter visto feridos Bas Dost e o preparador físico Mário Monteiro, não tendo, durante a investigação, reconhecido algum dos agressores.

Depois do jogo com o Marítimo, já no Aeroporto do Funchal, a testemunha disse que se apercebeu de “um indivíduo que andava” à sua procura, mas que ele foi levado para o embarque.

Foi nesse contexto que ouviu a frase: “na academia, logo falamos”, proferida por Fernando Mendes, antigo líder da claque Juventude Leonina, que Acuña hoje chamou de Jorge Mendes.

Disse que viu depois Fernando Mendes à conversa no aeroporto com William Carvalho, Battaglia e Jorge Jesus.

O atleta esteve na reunião de 14 de maio de 2018, véspera do ataque, entre o plantel e o então presidente do clube Bruno de Carvalho, na qual estiveram presentes outros elementos do conselho de administração.

Nessa reunião “falou-se do que se tinha passado no jogo” com o Marítimo, no dia anterior, no qual o Sporting perdeu por 2-1 e ficou afastado da Liga dos Campeões.

No final da partida, relatou Marcus Acuña, o plantel dirigiu-se à zona onde estavam os adeptos do Sporting para os cumprimentar, mas só receberam “insultos”, razão pela qual o plantel virou costas e dirigiu-se para o balneário.

“Pedi-lhes apoio e ajuda e só ouviamos insultos. Não os insultei”, explicou.

Nessa reunião de 14 de maio, Bruno de Carvalho partilhou com Acuña que os adeptos lhe disseram que “sabiam” onde é que o internacional argentino vivia e que “iam à sua procura”.

“Respondi que queria falar com eles [adeptos] para esclarecer o que se tinha passado na Madeira”, explicou.

Na resposta, Bruno de Carvalho informou de que iria ele falar primeiro com os adeptos.

Battaglia assume ainda recear que ataque volte a acontecer

O futebolista Rodrigo Battaglia assumiu em tribunal sentir medo pelo ataque à academia de Alcochete, local de trabalho dos jogadores, admitindo receio que o episódio volte a repetir-se sempre que o Sporting perde um jogo.

O médio argentino, de 28 anos, foi ouvido hoje na 14.ª sessão do julgamento da invasão à academia ‘leonina’, em 15 de maio de 2018, com 44 arguidos, incluindo o antigo presidente do clube Bruno de Carvalho, que decorre no Tribunal de Monsanto, em Lisboa.

“Fiquei com medo. Desde essa altura, sempre que perdemos um jogo, fico com receio que isto volte a acontecer. Isto aconteceu no nosso local de trabalho. Após o ataque, liguei para a minha namorada para não sair de casa. Se no nosso local de trabalho nos conseguiram fazer isto, o que seria na rua”, questionou Battaglia.

A testemunha contou que entraram no balneário “entre 30 a 40 pessoas com o rosto tapado” em grupos de duas a três pessoas e gritaram pelo seu nome e dos de Rui Patrício, William Carvalho e Marcus Acuña.

“Nunca tentaram falar connosco. Disseram que não merecíamos usar a camisola do Sporting e começaram a pancadaria”, descreveu o médio, relatando as agressões de que foi alvo, assim como as de Rui Patrício, de William e de Acuña.

“Vieram ter comigo quatro a cinco indivíduos. Deram-me socos na cara, no peito e nos braços. Ameaçaram-me de morte e atiraram-me um garrafão de água de 20 a 25 litros”, explicou médio argentino.

Quanto a Acuña, afirmou que o compatriota “ficou sentado e tentou proteger-se”, mas que foi atingido na cara com socos e pontapés nas pernas por “um grupo de cinco a seis pessoas”.

Rui Patrício e William Carvalho “tentaram parar com aquilo”, mas também foram agredidos com pancadas na nuca e no corpo, enquanto Fredy Montero “levou um soco na cara”.

Após o ataque, o médio viu o então presidente do clube Bruno de Carvalho e André Geraldes, diretor desportivo, na academia.

“Só o vi [Bruno de Carvalho] perguntar o que é que tinha acontecido“, afirmou.

O atleta esteve na reunião de 14 de maio de 2018, véspera do ataque, entre o plantel e Bruno de Carvalho, na qual estiveram presentes outros elementos do conselho de administração.

Nessa reunião, segundo Battaglia, abordaram-se os motivos pelos quais o Sporting perdeu o jogo contra o Marítimo, no dia anterior, assim como a reação do Acuña no final da partida, quando o plantel se deslocou para a zona dos adeptos sem, no entanto, concretizar que reação foi essa do compatriota.

O ex-presidente disse que “os adeptos passaram a noite a ligar-lhe a pedir a morada do Acuña“, propondo uma conversa entre o internacional argentino e os adeptos, o qual aceitou. Battaglia acrescentou que Bruno de Carvalho também perguntou aos atletas se estavam com ele, “acontecesse o que acontecesse”.

Após a derrota com o Marítimo, na Madeira, em 13 de maio de 2018, Battaglia explicou que estavam adeptos à espera junto do autocarro, e que foi falar com eles para os “tranquilizar”.

Quando chegaram ao Aeroporto do Funchal “havia quatro a cinco pessoas, entre eles o Fernando Mendes”, antigo líder da claque Juventude Leonina, a perguntar pelo Acuña, relatando agressões insultos ao compatriota.

“Eu, o William Carvalho e o Jorge Jesus estivemos a falar com esses adeptos. Falei com eles e disse-lhe que somos seres humanos e que também erramos”, elencou, esclarecendo que cada um dos três falou com diferentes adeptos.

Battaglia foi ainda questionado sobre uma outra reunião, realizada em 07 de abril de 2018, entre o plantel e Bruno de Carvalho, dois dias após a derrota com o Atlético de Madrid, e o ‘post’ publicado na rede social Facebook pelo antigo presidente do clube, a criticar os jogadores.

“Foi uma reunião muito nervosa. O presidente teve discussões com Rui Patrício e William Carvalho. Eles eram os capitães e defenderam-nos. O presidente acusou-os de não defenderem o Sporting”, referiu.

O julgamento prossegue na quinta-feira com as inquirições de manhã dos fisioterapeutas Ludovico Marques e Gonçalo Álvaro, prosseguindo à tarde com a continuação da inquirição a Battaglia, seguindo-se a audição de Sebastien Coates.

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