Cristiano Ronaldo e Scolari – FOTO DR

O antigo selecionador de Portugal Luiz Felipe Scolari enalteceu hoje o profissionalismo de Cristiano Ronaldo, exemplificado com a vontade do futebolista defrontar a Rússia no apuramento para o Mundial2006 quando estava de luto pela morte do pai.

“Pensou na seleção e disse-me que ia voltar no momento certo. Naturalmente, ficou demasiado triste, mas enfrentou aquela situação jogando muito bem. Ele não é apenas um dos maiores atletas do mundo, mas uma pessoa maravilhosa fora de campo, com atitudes que muitas vezes não são vistas ou divulgadas porque ele não quer, mas que fazem muitas pessoas felizes”, descreveu o treinador brasileiro à agência Lusa.

Em 07 de setembro de 2005, a equipa das ‘quinas’ encaminhou a qualificação para a prova realizada na Alemanha com um ‘nulo’ em Moscovo, incluindo no ‘onze’ o avançado de 20 anos, que soube na véspera do falecimento do pai Dinis Aveiro em Londres, devido a problemas hepáticos e renais.

A notícia foi transmitida por Scolari, que sugeriu ao então jogador do Manchester United um regresso imediato a Portugal, mas Cristiano Ronaldo optou por atuar no Estádio Lokomotiv, palco que pode ter antecedido o seu milésimo jogo na carreira profissional, caso defronte o AC Milan, no domingo, em partida da 12.ª jornada da Serie A, 17 anos após a estreia pelo Sporting.

Na capital russa, o madeirense cumpriu o 25.º jogo pela seleção principal, quase dois anos após a estreia vitoriosa diante do Cazaquistão (1-0), em 20 de agosto de 2003, num particular disputado no Estádio Municipal de Chaves, no qual rendeu Figo ao intervalo.

“Estreou-se muito bem, ainda um pouco jovem e inseguro, mas os jogadores mais experientes deram-lhe a possibilidade de desenvolver o seu futebol. Mostrou que iria ser um jogador de exceção e estava ali para ser mais um a engrandecer o potencial da seleção”, recordou.

Uma semana antes, o atual capitão das ‘quinas’ tinha trocado o Sporting pelo Manchester United, num negócio de 15 milhões de euros potenciado por uma exibição de gala frente aos ‘red devils’ (3-1), no jogo de inauguração do Estádio José Alvalade, em 06 de agosto, que despertou a atenção do escocês Alex Ferguson e confirmou as expectativas do corpo técnico luso.

“Vínhamos seguindo o Ronaldo e o [Ricardo] Quaresma. O meu auxiliar [Flávio] Murtosa foi assistir a um jogo em Alvalade, viu o Cristiano e concluiu que era hora de observar o menino. De seguida foi vendido ao Manchester, mas tivemos a possibilidade de chamá-lo nesse amigável”, elucidou.

Internacional desde os sub-15, ‘CR7’ herdou a camisola de Luís Figo e já se fixou como recordista de encontros pelas ‘quinas’, num percurso de sucesso materializado em 162 jogos, 95 golos e as conquistas inéditas do Europeu2016 e da Liga das Nações 2019.

Com Scolari, o segundo melhor marcador de sempre ao serviço de seleções, atrás dos 109 remates certeiros do iraniano Ali Daei, esteve em dois Europeus (Portugal2004 e Áustria/Suíça2008) e num Mundial (Alemanha2006), competições que espicaçavam o espírito competitivo do “jogador mais exponencial” neste século.

“O descanso dele era com uma bola e ficávamos preocupados porque podia lesionar-se. A nossa grande luta com o Ronaldo era para que não tivesse aquela ideia de estar em campo a toda a hora e pudesse durar mais como atleta profissional”, notou o técnico que levou Portugal ao vice-título europeu em 2004, numa final perdida para a Grécia (1-0), e às meias-finais do Mundial de 2006.

Luís Alegria valoriza poder mental de Ronaldo na formação

O antigo treinador da equipa B do Sporting Luís Alegria, que ajudou a projetar Cristiano Ronaldo no futebol profissional durante a temporada 2002/03, apontou hoje a mentalidade do internacional português como fator determinante para desvendar todo o potencial.

“Faço um elogio a todos os treinadores que teve na formação, pois apanhei o Ronaldo numa fase terminal da evolução. Na altura, destacava-se não só pelas qualidades técnicas, mas também pela autoestima e autoconfiança nas suas capacidades, que lhe permitiam encarar qualquer desafio de forma natural”, referiu o técnico à agência Lusa.

O avançado da Juventus pode cumprir o milésimo jogo na carreira profissional no domingo, na receção ao AC Milan, em partida da 12.ª jornada da Serie A, 17 anos após a estreia pelo Sporting.

Após os primeiros dribles no Andorinha, Cristiano Ronaldo cumpriu duas temporadas nas camadas jovens do Nacional, até ser descoberto por Aurélio Pereira, olheiro dos ‘leões’ que desafiou o madeirense a deixar a família aos 12 anos para lutar pelo sonho de criança.

“Estava ali alguém diferente dos demais, mas não imaginava que pudesse chegar onde está”, reconheceu Luís Alegria, que integrou os primeiros corpos técnicos da equipa B lisboeta, criada em 2000/01 para competir na Zona Sul da II Divisão B, o terceiro escalão do futebol português.

O professor de Educação Física coadjuvou Jean Paul nos dois primeiros anos do projeto, enquanto Ronaldo sobressaía entre os juniores e os juvenis, cenário que não passou despercebido ao romeno László Bölöni, que comandava o Sporting em 2001/02.

Cristiano Ronaldo e João Cancelo – Foto: Cristiano Ronaldo / Facebook

Na época seguinte o ‘salto’ ficou consumado e Cristiano Ronaldo, então com 17 anos, fez a estreia logo no primeiro encontro oficial dos ‘verde e brancos’, em 14 de agosto de 2002, na receção aos italianos do Inter Milão (0-0), da primeira mão da terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões.

Apesar de ser júnior de primeiro ano, o avançado totalizou 31 jogos e cinco golos com Bölöni, intercalados com duas partidas frente ao Lusitânia dos Açores pela formação secundária dos ‘leões’.

“Foi chamado a jogar pela equipa B porque toda a estrutura via nele alguém com valências competitivas capazes de suportar um contexto diferente do campeonato de juniores. Mesmo tendo sido curta a passagem pelos ‘bês’, recordo-me de ele estar perfeitamente à vontade perante jogadores de outra maturidade e experiência”, partilhou Luís Alegria.

A convivência não durou muito tempo, mas deu para o técnico lisboeta observar o espírito de Cristiano Ronaldo, que viria a tornar-se no melhor jogador do mundo e mostrou desde cedo “uma predisposição para melhorar”, como atestam alguns episódios vividos na Academia de Alcochete, onde “ia à noite para o ginásio e ficava de castigo por querer treinar mais”.

“Tive a felicidade de treinar jogadores com muito talento e que tiveram carreiras interessantes, como o Beto [Pimparel], João Moutinho, Custódio, Paulo Sérgio ou Luís Lourenço, embora sem o destaque do Ronaldo. Fiquei alegre por termos contribuído, por pouco que tenha sido, mas nada surpreendido por vê-lo chegar onde chegou”, concluiu.

‘Apadrinhar’ Ronaldo é “prémio pessoal” para Toñito

O antigo futebolista do Sporting Toñito classificou como “prémio pessoal” ter contribuído para a estreia de Cristiano Ronaldo no escalão sénior e assistido o primeiro golo do avançado português com a camisola dos ‘leões’.

“Recordam-me muitas vezes nestas entrevistas e é difícil esquecer. Talvez não seja tão valioso para muita gente, mas para mim é um prémio pessoal ter coincidido com o melhor jogador de todos os tempos e ficar na história por esses dois momentos”, admitiu o ex-médio espanhol à agência Lusa.

Em 14 de agosto de 2002, Antonio Jesús García González, mais conhecido por Toñito, foi titular na receção ao Inter Milão (0-0), na primeira mão da terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões, e acabou substituído aos 58 minutos por Cristiano Ronaldo, então com 17 anos.

“Entrou na primeira equipa pelo caráter competitivo e, acima de tudo, pela sua qualidade. Humanamente, era um miúdo muito humilde e profissional”, frisou o campeão nacional em 1999/00.

Ainda que o resultado não tenha mudado e o Sporting falhasse a passagem à fase de grupos no final desse mês, ao perder 2-0 em San Siro, aquela noite iniciou a carreira sénior do avançado pela mão do romeno László Bölöni, técnico com o qual somou 31 jogos e cinco golos em 2002/03.

O primeiro tento do antigo apanha-bolas da equipa principal apareceu dois meses depois, em 07 de outubro, aos 34 minutos do triunfo caseiro sobre o Moreirense (3-0), da sexta jornada do campeonato luso.

Toñito e Cristiano Ronaldo – FOTO DR

Ao receber um toque de calcanhar de Toñito, o camisola 28 acelerou em direção à baliza vimaranense e fintou vários adversários, antes do remate cruzado que fez rejubilar a plateia do antigo Estádio José Alvalade.

“Sendo sincero, foi um passe quase no meio-campo e ele teve de fazer muita magia para chegar ao golo”, admitiu o ex-jogador de Vitória de Setúbal, Santa Clara, Boavista e União de Leiria, que representou o Sporting por 113 vezes em quatro épocas.

O bielorrusso Vitali Kutuzov inaugurou o marcador à meia hora e o madeirense cabeceou para o primeiro ‘bis’ da carreira nos descontos, após livre lateral de Rui Jorge, piorando a noite do angolano João Ricardo, que ficou na história como o primeiro guarda-redes sénior a ser batido por ‘CR7’.

As duas efemérides revelaram a nova joia das camadas jovens ‘leoninas’, na senda de extremos como Paulo Futre, Luís Figo, Simão Sabrosa ou Ricardo Quaresma, e acentuaram a relação com Toñito, motorista do internacional português, com quem aproveitava as viagens entre o centro de Lisboa e a Academia do clube, em Alcochete, para falar “um bocadinho de tudo”.

“Aconselhava-o a ter paciência, já que estava com muita fome em termos futebolísticos”, sublinhou o antigo jogador, de 42 anos, mais oito do que Ronaldo, com quem partilhou o relvado em 25 ocasiões.

Os primeiros meses da carreira profissional auguraram um futuro risonho ao dianteiro da Juventus, que pode cumprir o milésimo jogo na carreira profissional, na receção ao AC Milan, em partida da 12.ª jornada da Serie A, 17 anos após a estreia pelo Sporting.

“Pensávamos que ia ser um grande jogador, mas era muito difícil prever até onde podia chegar porque isto é um trabalho diário, semanal e anual”, argumentou Toñito, que dirige uma escola de futebol nas Ilhas Canárias, batizada de Sporting Clube de Tenerife, e perdeu o contacto com Ronaldo desde a transição do Real Madrid para a octocampeã italiana.

Bölöni acredita que conto de fadas de Ronaldo está para durar

O antigo treinador do Sporting László Bölöni, responsável pelo lançamento de Cristiano Ronaldo no futebol profissional, garantiu hoje que a carreira do internacional português está longe do fim, apesar de completar 35 anos em breve.

“Estou esperançado que ele se mantenha neste nível, porque tem um poder mental forte. Com essa característica, consegue fazer tudo e certamente vai continuar a aparecer nos jogos grandes”, frisou o técnico romeno à agência Lusa, aludindo ao avançado da Juventus, que pode cumprir o milésimo jogo enquanto profissional no domingo, na receção ao AC Milan, em partida da 12.ª jornada da Serie A, 17 anos após a estreia pelos ‘leões’.

László Bölöni resolveu integrar o madeirense nos trabalhos da equipa principal do Sporting durante a temporada 2001/02, que desvendou o último campeonato conquistado pelo Sporting, lembrando-se de uma jovem promessa de 16 anos que evoluiu os níveis de maturidade e compromisso, enquanto repartia a competição entre os juvenis e os juniores do emblema lisboeta.

Boloni e Cristiano Ronaldo – FOTO DR

“Tenho memórias muito boas e foram momentos especiais, porque houve a oportunidade de trabalhar com alguém com qualidade para ser realmente grande. O Ronaldo era fantástico física e tecnicamente e já cuidava da sua famosa mentalidade, uma das melhores qualidades que vi nele ao longo destes anos. Talvez seja por isso que consiga disputar tantos jogos”, avaliou.

Cristiano Ronaldo ambientava-se ao futebol sénior pela convivência com jogadores experientes, mas demorou algum tempo a convencer o atual treinador dos belgas do Antuérpia.

Após marcar aos espanhóis do Bétis na pré-época, o dianteiro realizou a estreia absoluta com a camisola do Sporting em 14 de agosto de 2002, já com 17 anos, no primeiro jogo oficial de 2002/03.

O camisola 28 participou 32 minutos como suplente utilizado no ‘nulo’ caseiro diante dos italianos do Inter Milão, que afastariam o conjunto ‘verde e branco’ da fase de grupos da Liga dos Campeões com um triunfo por 2-0 na segunda mão.

“Nessa altura, não estava tão certo de que pudesse ser um dos melhores jogadores do mundo, mas estava certo de que seria um dos melhores. Lá confiei num jogador como ele, que não se encontra com tanta frequência – e hoje até encontramos dois, o Ronaldo e o [Lionel] Messi”, referiu.

Aquela noite no antigo Estádio José Alvalade, em Lisboa, começou a colocar no caminho das estrelas um dos futebolistas “mais famosos de todos os tempos”, cuja saída para o estrangeiro era “uma questão de meses” e ficou consumada em agosto de 2003, na sequência de um particular diante do Manchester United (3-1), que inaugurou o novo recinto do Sporting e convenceu o escocês Alex Ferguson.

Com o passar dos anos, ‘CR7’ transformou-se numa máquina goleadora, com recordes atrás de recordes e um palmarés interminável, panorama que leva Bölöni a enaltecer o capitão das ‘quinas’ com um misto de “emoção paternal e realismo”.

“Para mim, Ronaldo é o melhor, porque fui treinador dele. Mas, mais importante DO que a minha opinião, ele é considerado um dos melhores jogadores de todos os tempos pela maioria das pessoas. Estou muito feliz pelo seu sucesso. Tem o nome ao lado de históricos do futebol como Pelé, [Diego] Maradona, [Alfredo] Di Stéfano, Messi ou Johan Cruyff”, finalizou.

Aurélio Pereira compara chegada de Ronaldo a um óvni caído do céu

Aurélio Pereira, líder do departamento de prospeção do Sporting, comparou hoje a chegada do futebolista Cristiano Ronaldo aos ‘leões’ com o aparecimento de um talento de origem desconhecida, que já jogava como gente grande nos infantis.

“Não vi o primeiro treino, mas os técnicos disseram-me que o miúdo era muito bom jogador. No dia seguinte, encostei-me ao banco de suplentes, e parecia que tinha caído ali um óvni, pela maneira desembaraçada como jogava, com uma técnica individual incrível. Não foi preciso ser engenheiro para perceber que era de outro nível”, analisou o ‘senhor formação’, de 72 anos, à agência Lusa.

O avançado da Juventus pode cumprir o milésimo jogo na carreira profissional no domingo, na receção ao AC Milan, em partida da 12.ª jornada da Serie A, 17 anos após a estreia pelo Sporting.

Cristiano Ronaldo – Juventus – Foto: DR / Facebook Cristiano Ronaldo.

‘CR7’ nasceu para o futebol com oito anos no Andorinha, um pequeno clube da Madeira em que o pai era roupeiro, e não demorou muito a despertar o apetite dos dois maiores clubes da ilha. O extremo esteve no Nacional duas épocas, até ser descoberto por Aurélio Pereira em 1997, com o auxílio de João Marques de Freitas, presidente do núcleo ‘leonino’ da região.

“Foi uma situação um bocado chata. O Nacional devia 25.000 euros ao Sporting e como ele não tinha dinheiro para pagar a transferência, avisou-me que havia alguém com potencial para ser um jogador fantástico. Face à amizade que nos une, sugeri que pudesse estar connosco”, rememorou.

Com 12 anos, Cristiano Ronaldo foi atrás do sonho de criança e aterrou em Lisboa para treinar à experiência, acompanhado pelo padrinho Fernão Sousa. Uma semana bastou para convencer Aurélio Pereira a elaborar um relatório endereçado à administração do clube, “sugerindo que o Sporting ficasse sem 5.000 contos, que não era pouco, mas com um predestinado”.

“Sendo mais novo e tendo sido criado no futebol de rua, pedia aos mais velhos para terem calma”, contou o antigo jogador e treinador dos ‘leões’ e atual olheiro, que serve os ‘leões’ há 50 anos e formou 10 campeões europeus por Portugal em 2016.

O Sporting perdoou a dívida e abriu caminho à maturação do dianteiro, que adolesceu sozinho em Lisboa, fez-se homem em Manchester, celebrou o auge em Madrid e mantém a cadência em Turim.

“A partir daí foi estar sempre à frente, querer ganhar e não ter medo de nada. A capacidade mental ainda hoje é a marca dele, mas muito mais no passado. Eu estava habituado a receber jogadores das ilhas que ao fim de duas horas já estavam com a mala feita para voltar. Com ele foi diferente”, estabeleceu Aurélio Pereira, distinguido com a Ordem de Mérito da UEFA em 2018.

Volvidas duas décadas sobre o primeiro olhar, o histórico dirigente ‘leonino’ ainda mantém um “contacto quase semanal” com ‘CR7’, como indicou a homenagem protagonizada antes da partida entre Portugal e Luxemburgo (3-0), em 11 de outubro, de qualificação para o Euro2020.

Num encontro entre ambos no relvado do Estádio José Alvalade, em Lisboa, Aurélio Pereira recebeu uma camisola autografada das ‘quinas’ pela mão de Fernando Gomes, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, e Frederico Varandas, líder máximo do Sporting.

“É uma partilha de amizade”, felicitou Aurélio Pereira, que lançou há 31 anos o departamento responsável pelo desenvolvimento de Figo e Cristiano Ronaldo, dois dos três portugueses que conquistaram a Bola de Ouro, entregue pela revista France Football ao melhor futebolista do ano.

Convicto de que o madeirense “vai demorar muito tempo a sair da competição”, o garimpeiro de craques admite as dificuldades em encontrar sucessores: “É um miúdo com paixão pelo treino, pelo jogo e pela profissão. Se tiver esses três níveis com certeza só vai parar no céu”.

Ronaldo chegou ao topo no Manchester United ‘moldado’ por Ferguson

O futebolista português Cristiano Ronaldo ‘aterrou’ no Manchester United como uma promessa, em forma de miúdo franzino e habilidoso, e, em seis épocas, ganhou músculo e, ‘moldado’ por Alex Ferguson, chegou ao topo do mundo.

Pelos ‘red devils’, cumpriu quase um terço (292) dos 1.000 jogos de carreira, que pode completar no domingo, e arrebatou os principais troféus individuais e coletivos, nomeadamente a Liga dos Campeões e o prémio de melhor do ano (FIFA e Bola de Ouro).

De 2003/04 a 2008/09, o português também conquistou para sempre o coração dos adeptos do United, que ajudou a conquistar nove títulos, com uma série de exibições empolgantes e memoráveis, muitas nem coroadas com golos. Era, de início, um extremo puro.

Cristiano Ronaldo e Alex Ferguson – FOTO DR

No total, foram, ainda assim, mais de uma centena (118) os tentos que marcou com a camisola do conjunto de Manchester, 46 dos quais (39%) na gloriosa época 2007/08, a da conquista da ‘Champions’, a terceira e ainda última da história do clube.

A aventura de Ronaldo no United começou ainda com a camisola Sporting, na inauguração da nova casa dos ‘leões’, com o ‘28’, colocado à esquerda do ataque, a convencer Ferguson com o seu estonteante drible em velocidade.

Seis dias depois, a 12 de agosto de 2003, assinou pelos ‘red devils’, a troco de 15 milhões de euros, e, nas costas, foi-lhe colocado o ‘7’, de ‘monstros’ como George Best, Brian Robson, Eric Cantona ou David Beckham. Uma premonição.

O ‘miúdo’ não se assustou e, quatro dias e dois treinos volvidos, estreou-se na Premier League: 29 minutos chegaram para encantar, numa atuação com personalidade, velocidade e eficácia, tudo pautado com toques de ‘imensa’ classe.

Foi, pode dizer-se, ‘amor à primeira vista’, com Ronaldo a justificar a aposta de Ferguson, que, sabiamente, lhe doseou os minutos em 2003/04 – só 24 de 40 jogos como titular -, época em que, ao 93.º jogo da carreira, conquistou a Taça de Inglaterra, com um golo na final ao Milwall (3-0), em 22 de maio, em Cardiff.

As duas épocas seguintes foram de consolidação individual e afirmação definitiva no ‘onze’, mas, em pleno domínio do Chelsea, de Mourinho, quase sem títulos, exceção a uma Taça da Liga, em 2005/06, com mais um tento de Ronaldo na final, com o Wigan (4-0).

A partir de 2006/07, o United voltou, porém, a assumir a liderança do futebol inglês, conquistando três campeonatos consecutivos, já, indiscutivelmente, com Ronaldo como grande figura, ao lado de uma série de ‘enormes’ jogadores, casos de Giggs, Scholes, Rooney, Ferdinand, Van der Sar, Evra ou Vidic.

O internacional português destacou-se, sobretudo, em 2007/08, com 46 golos, em 61 jogos, sendo decisivo na conquista da Premier League e da ‘Champions’, provas em que foi o melhor marcador.

A felicidade também o acompanhou, nomeadamente, na final da ‘Champions’, em Moscovo, em 21 de maio de 2008, no 344.º jogo da carreira: inaugurou o marcador, aos 26 minutos, de cabeça, nas alturas, mas, aos 45, Franck Lampard igualou para o Chelsea.

O vencedor acabou por decidir-se nos penáltis e, ao quinto, o português foi o primeiro a falhar. Ninguém o ‘imitou’ e, ao 10.º, o ‘capitão’ John Terry teve o primeiro título europeu do Chelsea nos pés, só que escorregou e atirou ao lado… salvando Ronaldo e o United, que viria a ganhar o desempate por 6-5.

Ronaldo arrebatou o prémio FIFA e a Bola de Ouro, além da Bota de Ouro, mas já não estava satisfeito no United, como confirmou numa bem menos esplendorosa época 2008/09 (27 golos, em 60 jogos), mesmo vencendo Premier Legue, Mundial de clubes e Taça da Liga.

O ciclo fechou-se em 27 de maio de 2009, em Roma, no 407.º jogo da carreira, com um desaire por 2-0 face ao FC Barcelona, e ao rival Lionel Messi, na final da ‘Champions’.

Ronaldo despontou no Sporting, mas partiu cedo ‘demais’

Cristiano Ronaldo despontou para o futebol no Sporting, clube ao serviço do qual cumpriu o primeiro dos quase 1.000 jogos de carreira e ainda ‘brilhou’, mas pouco, pois saiu muito jovem, aos 18 anos.

Uma exibição de grande nível na inauguração no novo Estádio José Alvalade, frente ao Manchester United, em 06 de agosto de 2003, no arranque para o que seria a segunda época pelos ‘leões’, ‘condenou-o’ a um adeus prematuro.

Para trás, ficavam seis épocas na formação, à qual chegou pelas mãos do ‘olheiro’ Aurélio Pereira, que o descobriu no Nacional da Madeira, e uma já ao serviço da equipa principal, que representou 31 vezes na época 2002/03.

Cristiano Ronaldo no Sporting – FOTO DR

A estreia ocorreu em 14 de agosto de 2002, em Alvalade, face ao Inter Milão, na primeira mão da pré-eliminatória da Liga dos Campeões, num embate em que entrou aos 58 minutos, para o lugar do espanhol Toñito – tinha 17 anos, seis meses e nove dias.

O romeno Lazlo Bölöni era o treinador do Sporting, então campeão em título, e foi o responsável pela aposta no ‘menino’ Cristiano Ronaldo, que, antes de voltar a jogar pela equipa principal, ainda disputou um jogo pela equipa B – faria um segundo na Zona Sul do campeonato da II Divisão B.

Mostrou, porém, logo ao sexto jogo da carreira, que era jogador de equipa principal, na receção ao Moreirense, para a sexta jornada da Superliga, num triunfo por 3-0 do conjunto ‘leonino’.

Em 07 de outubro de 2002, no segundo encontro seguido no ‘onze’ de Bölöni – quatro dias após estreia amarga em Belgrado, onde o Sporting caiu da Taça UEFA perante o Partizan -, Cristiano Ronaldo marcou os seus primeiros golos como sénior.

Depois de o bielorrusso Vitali Kutuzov inaugurar o marcador, aos 30 minutos, o ‘28’ dos ‘leões’ apontou o segundo, aos 34, de pé direito, após espetacular jogada individual, para, aos 90+5, na última jogada, ‘bisar’, de cabeça, após livre de Rui Jorge.

Nas oito rondas seguintes do campeonato, foi titular na maioria (seis vezes), mas foi numa das que saiu do banco que mais se destacou: ao oitavo jogo da carreira, em 26 de outubro de 2002, no Bessa, entrou em campo aos 82 minutos para decidir o jogo.

Aos 88 minutos, com o resultado em 1-1, Ronaldo recebeu um brilhante passe de Carlos Martins e, isolado, bateu Ricardo com grande classe, dando o triunfo aos ‘leões’ (2-1).

Depois da 14.ª ronda, e até à 31.ª, foi utilizado quase sempre por Bölöni a saltar do banco (apenas uma vez titular, em 12 utilizações), numa equipa que, para o ataque, tinha Jardel, João Vieira Pinto, Ricardo Quaresma, Niculae, Kutuzov ou Toñito.

Cristiano Ronaldo e José Mourinho no Real Madrid – FOTO DR

Cristiano Ronaldo viria a ser titular nos últimos três jogos do campeonato, sendo que o seu último encontro oficial pelo Sporting remonta a 01 de junho de 2003, num desaire por 2-0 no terreno do FC Porto, na 34.ª e última ronda da Superliga.

Na sua primeira época como profissional, o jovem extremo dos ‘leões’ cumpriu 44 jogos, incluindo os primeiros seis pela seleção de sub-21 (dois golos) e os cinco pelos sub-20 (um), no Torneio de Toulon, que ajudou Portugal a conquistar.

No total, marcou oito golos, incluindo cinco pelos ‘leões’, três no campeonato (dois ao Moreirense e um no Bessa) e dois na Taça de Portugal (um ao Estarreja, na quarta eliminatória, e outro ao Oliveira do Hospital, na quinta).

Para 2003/04, o Sporting apostou em Fernando Santos, o atual selecionador nacional, e Ronaldo estava destinado a ‘explodir’, mas aquele jogo com o Manchester United levou-o de Alvalade, cedo demais lamentaram, certamente, os adeptos ‘leoninos’.

Uma carreira ‘pautada’ ao ritmo dos golos

O português Cristiano Ronaldo deverá cumprir no domingo o milésimo encontro da sua carreira de futebolista profissional, num trajeto ‘pautado’ pelos golos, muitos golos, numa contabilidade que já ultrapassou as sete centenas.

Feitas as contas, o ‘capitão’ da seleção lusa marca mais de sete golos em cada 10 jogos, num trajeto em que só se assumiu, em definitivo, como goleador a partir da sua nona temporada, a segunda ao serviço do Real Madrid.

Entre 2002/03 e 2005/06, as suas primeiras quatro temporadas, uma pelo Sporting e três pelo Manchester United, marcou de forma esporádica (50 golos, em 226 jogos), sem grande sequência, sendo, como extremo, mais um assistente, um criador de desequilíbrios.

Nas quatro épocas seguintes (2006/07 a 2009/10), as últimas três em Inglaterra e a primeira em Espanha, a sua veia goleadora começou a aparecer e o seu número de golos quase triplicou (135), em idêntico número de encontros (228), com destaque para os 46 tentos de 2007/08, época da primeira ‘Bota de Ouro’.

A ‘explosão’ goleadora de Ronaldo aconteceu, no entanto, apenas a partir de 2010/11: foi derivando mais para o centro do terreno, assumiu a marcação de grandes penalidades e a média de golos disparou para um por encontro.

O internacional luso transformou-se num temível goleador, a um nível que só o argentino Lionel Messi logrou responder, somando, em oito temporadas (2010/11 a 2017/18), a ‘brutalidade’ de 480 tentos, em 481 encontros.

Neste período, Ronaldo ‘entreteve-se’ a quebrar recordes atrás de recordes, transformando-se, por exemplo, no melhor marcador da história do Real Madrid, da seleção portuguesa e da Liga dos Campeões, sendo o ‘rei’ da ‘Champions’ em seis épocas seguidas.

Com a passagem para a Juventus, em 2018/19, não conseguiu manter os registos alcançados ao serviço dos ‘merengues’, mas continua a marcar com regularidade, tendo na presente época ultrapassado os 700 tentos na carreira.

Em vésperas do jogo 1.000, totaliza mais precisamente 709 golos, 101 dos quais ao serviço de Portugal: 95 pela seleção principal, dois pela olímpica, um deles em Atenas2004, três pelos sub-21 e um pelos sub-20.

Quantos aos clubes, marcou cinco pelo Sporting, 118 pelo Manchester United, 451 pelo Real Madrid, em apenas 438 encontros, e já leva 34 ao serviço da Juventus.

Ronaldo marcou quase metade dos seus golos na Liga espanhola (312), sendo o segundo melhor marcador da história da prova, apenas atrás de Messi, e conta ainda 128 na ‘Champions’, mais 15 do que o argentino, e 84 na Premier League.

Mundial é única ausência nas 1.000 ‘peças’ do ‘puzzle’ de Ronaldo

Cristiano Ronaldo vai colocar no domingo, tudo indica, a milésima ‘peça’ num ‘puzzle’ recheado de golos, títulos e distinções individuais, que fazem do capitão da seleção portuguesa uma das maiores figuras da história do futebol.

Aos 34 anos, o atual jogador da Juventus, que tem sublinhado que o fim não é para já, conquistou quase tudo, faltando-lhe, após 999 jogos, pouco mais do que o campeonato do mundo, ‘vazio’ que só poderá preencher, se lá chegar no ativo, em 2022.

Tirando o Mundial, Ronaldo não falhou nada, incluindo um muito ambicionado grande título por Portugal, o Euro2016, uma mão cheia de eleições como melhor do mundo e de ‘Champions’, tudo ‘banhado’ a golos, muitos golos, já mais de 700, incluindo os 451 que fazem dele o melhor marcador do ‘maior’ clube do mundo, o Real Madrid.

Cristiano Ronaldo. FOTO: JOSE COELHO/LUSA

O jogador formado no Sporting, clube no qual ‘aterrou’ com 12 anos, proveniente da Madeira, onde representou Andorinha e Nacional, é também o melhor da seleção ‘AA’, com mais jogos (162) e golos, sendo que os 95 que apontou já suplantam os de Pauleta (47) e do ‘rei’ Eusébio (41) em conjunto.

Para muitos, é o melhor jogador de português de ‘todos os tempos’, embora não para todos, porque há Eusébio, enquanto outros – incluindo o próprio – já o consideram o melhor entre todos, o que é por si só um enorme feito, ou não existissem, entre outros, Pelé, Maradona ou o contemporâneo Messi.

Independentemente do lugar que irá ocupar na hierarquia, e que flutuará, certamente, ao ‘sabor’ de cada opinião, é unânime que o português é uma figura incontornável da história do futebol, lugar que conquistou à custa de juntar muito trabalho a um talento natural, e que foi visível desde bem cedo.

O ‘olheiro’ Aurélio Pereira descobriu-o na Madeira e trouxe-o para o Sporting, onde não ‘conseguiu’ fazer mais do que uma época (2002/03), pois, no início, da seguinte (2003/04), deslumbrou Alex Ferguson, que o levou para o Manchester United.

Curiosamente, um dos jogos mais importantes da história de Cristiano Ronaldo, nem entra para as contas dos 1.000, porque foi um particular de clube, a inauguração do Estádio José Alvalade, em 05 de agosto de 2003, face aos ‘red devils’: o franzino extremo dos ‘leões’, de 18 anos, ‘partiu tudo’ e foi embora.

Em Manchester, encontrou o ‘pai’ ideal em Ferguson, que, com a ajuda de Carlos Queiroz, transformou o português num craque, que, em seis épocas no United, subiu até ao topo, individual (Bola de Ouro em 2008) e coletivamente (Champions 2007/08).

Depois, como a cada dia, a cada treino ou jogo, mesmo antes e depois, quis mais, e acabou no Real Madrid, o clube ideal para as suas ideias de ‘grandeza’, para a sua ambição de ser o melhor, o melhor de todos, o melhor entre os melhores.

Cristiano Ronaldo. FOTO: JOSE COELHO/LUSA

Com a camisola ‘blanca’, Ronaldo conseguiu o ‘impossível’, não em forma de quatro ‘Champions’, para juntar à arrebatada no United, mas de uma inacreditável média de golos superior a um por jogo: só parou nos 451 tentos, em apenas 438 jogos.

Nove épocas chegaram para deixar para trás todas as ‘lendas’ dos ‘merengues’, de Butragueño a Raúl, passando por Gento, Hugo Sánchez, Puskás ou ‘Dom’ Alfredo Di Stéfano, o homem que, juntamente com Eusébio, apresentou Ronaldo aos adeptos madridistas, em 06 de julho de 2009, no Bernabéu, perante 80.000.

Pelo meio, arrebatou por Portugal aquele que considera ser o seu título mais importante, o Europeu de 2016, que ‘vingou’ a amarga derrota caseira com a Grécia, em 2004, ainda menino. Saiu em lágrimas, lesionado, mas foi o primeiro a levantar o ‘caneco’.

Dois anos volvidos, e depois de uma terceira ‘Champions’ consecutiva, em 2017/18, Ronaldo achou, porém, que já chegava de Madrid, provavelmente farto de assobios que nunca aceitou e de problemas ‘extra’ futebol, nomeadamente com o fisco espanhol.

Cristiano Ronaldo com a taça de Campeão Europeu de futebol por Portugal em 2016 – FOTO DR

O Real Madrid pôs-lhe preço (100 milhões de euros) e a Juventus não hesitou em pagar, também porque o português mostrou vontade em rumar a Itália, onde em pouco mais de uma época tem mostrado que mantém intactos os seus dotes de goleadores.

Uma nova vitória na Liga dos Campeões, depois de já ter dado uma Supertaça italiana à ‘Juve’ e ter sido o melhor marcador da equipa na campanha rumo à vitória na Serie A de 2018/19, será o seu maior objetivo, a par de continuar a marcar golos, uma obsessão a cada jogo, a cada jogada.

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